34266B3C-D606-46E1-BE3D-F84DACE5D0D9

Com Portugal em crise, presidente do país vai para posse de Lula

Publicado em Economia

O presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Souza, desembarcará no Brasil para a posse do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, marcada para domingo (1º de janeiro), carregando na mala uma enorme crise em seu país.

 

Não bastassem os problemas econômicos que afligem a população — inflação de 9% ao ano, juros em alta, aluguéis caríssimos, pobreza crescendo, risco de recessão, preço da cesta básica em nível recorde —, o presidente assiste ao desmonte da administração do primeiro-ministro, António Costa.

 

Desde que o atual governo foi empossado, em 30 de março deste ano, 10 ministros e secretários de Estado foram demitidos, a maioria por suspeitas de irregularidades e incompetência. O caso mais recente, anunciado nesta quinta-feira (29/12), foi de Pedro Nuno Santos, agora ex-ministro das Infraestruturas.

 

TAP por trás de demissões

 

Nuno Santos era considerado um dos homens fortes do governo Costa, do Partido Socialista. Ele já havia balançado em junho, quando divulgou, sem conhecimento de seu chefe, que estava na Espanha, um projeto para a construção de um novo aeroporto em Lisboa. Censurado pelo primeiro-ministro, teve de recuar.

 

Agora, porém, não houve como segurá-lo no cargo. Descobriu-se que Nuno Santos escondeu a indenização que a TAP, a empresa aérea controlada pelo governo português, pagou 500 mil euros (R$ 2,8 milhões) em indenização a Alexandra Reis, também demitida da Secretaria de Estado do Tesouro. A TAP estava sob a tutela do ex-ministro.

 

Em fevereiro deste ano, Alexandra deixou a diretoria executiva da TAP. Pelos dois anos que ainda tinha de contrato com a empresa, ela pediu uma indenização de 1,5 milhão de euros (R$ 8,3 milhões). Mesmo levando um terço do valor, o pagamento foi considerado abusivo, inclusive pelo presidente da República.

 

Quatro meses depois de deixar a TAP, Alexandra assumiu o comando da Navegação Aérea de Portugal (NAV), que regula e fiscaliza o setor de aviação no país europeu. Em dezembro, tornou-se secretária de Estado do Tesouro. Mas a polêmica indenização não a deixou completar um mês no posto.

 

Oposição de fortalece

 

O primeiro-ministro tem procurado tratar todas as demissões — também o secretário de Estado das Infraestruturas, Hugo Santos Mendes, caiu — como fatos corriqueiros, contudo, o desgaste é enorme na imagem do governo, abrindo flancos para fortes ataques da oposição.

 

O presidente da República não esconde o descontentamento com tantos entraves administrativos, que têm contribuído, na visão dele, para agravar os sérios problemas econômicos que afligem os portugueses. Muitos já não conseguem pagar seus aluguéis ou mesmo fazer refeições básicas.

 

António Costa anunciou, recentemente, um programa de ajuda às famílias mais carentes, com pagamento mensal de 125 euros (R$ 690), no entanto, a persistência da inflação têm corroído o poder de compra dos trabalhadores, que reclamam das atuais condições de vida.

 

Para piorar, o sistema de saúde público, que já foi referência, está à beira do caos, a ponto de grávidas e bebês morrerem por falta de atendimento adequado. Os professores se organizam para uma grande greve. Têm havido ainda paralisações sistemáticas dos trabalhadores do sistema de transportes e de garis, e policiais não escondem o descontentamento com as condições de trabalho.

 

Por enquanto, António Costa tem maioria tranquila na Assembleia da República, mas, mesmo em seu partido, o PS, a irritação com tantos escândalos e sinais de ineficiência começa a ficar evidente. A oposição, por sua vez, cresce e, quanto mais o governo erra, mais a extrema-direita ganha espaço no debate. Um perigo.