Coluna no Correio: Farra liberada

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PMDB e PT andaram os últimos 14 anos de mãos dadas. Numa simbiose impressionante, absorveram tudo de ruim um do outro. Roubaram a Petrobras como se não houvesse amanhã e patrocinaram a destruição das contas públicas, base da crise sem precedentes que o país enfrenta hoje. Com o afastamento de Dilma Rousseff do governo, o partido do presidente interino, Michel Temer, não só rompeu, litigiosamente, com seu parceiro, como se travestiu do discurso da moralidade e da responsabilidade fiscal. Quase três meses depois da separação, a realidade aponta que o PMDB continua partilhando dos maus modos do PT, sobretudo quando se trata das contas públicas.

Logo no primeiro grande teste no Congresso, o peemedebista Temer mostrou que seu compromisso com o ajuste fiscal não é assim tão firme como vem pregando desde que chegou ao Palácio do Planalto. Ciente de uma possível derrota fragorosa, endossou todos os pleitos de sua base aliada, que promoveu mudanças profundas no projeto de renegociação das dívidas dos estados. Melhor: liberou que governadores irresponsáveis continuem com a farra dos gastos, certos de que, no próximo problema que enfrentarem, terão o suporte da União para se manterem de pé.

Temer já vinha dando mostras de que, quando o assunto é responsabilidade fiscal, discurso e realidade andam distantes. Sancionou um aumento monstruoso para os servidores públicos — a fatura pode chegar a R$ 100 bilhões até 2019 —, abriu os cofres para prefeitos e ruralistas e deu um alívio de R$ 50 bilhões aos estados. Para compensar tais estripulias, praticamente dobrou o deficit fiscal deste ano. Dilma projetava um buraco de R$ 90 bilhões e o interino o elevou para R$ 170,5 bilhões. Tudo muito bem embalado pela justificativa de que a petista havia subdimensionado as despesas e superestimado as receitas.

Não é só. O governo atribui as bondades à necessidade de pavimentar o impeachment definitivo de Dilma. Alega que, se comprasse briga agora com o Congresso, certamente correria o risco de haver uma reviravolta no placar que hoje é amplamente favorável a Temer. “É questão de pragmatismo”, diz um influente ministro com trânsito livre no Palácio do Planalto. Ele garante que tudo o que se está vendo agora se trata de uma administração interina. “Quando setembro chegar, tudo será diferente”, acrescenta.

Para isso, porém, Temer terá que combinar com sua base alidada, de quem é extremamente dependente. Os parlamentares continuam acreditando que podem tirar tudo do governo e que a complacência dos agentes econômicos será eterna, como gratidão por terem expurgado Dilma da vida pública. Não é assim. Todos os problemas criados pela petista estão aí. E qualquer vacilo poderá empurrar o país para uma crise ainda mais grave que a vivida hoje.

Mosca azul

Na avaliação de Alexandre Espírito Santo, economista-chefe da Órama Investimentos, Temer não se deve deixar levar pelo veneno da mosca azul. “O peemedebista precisa enterrar de vez qualquer possibilidade de ser candidato à Presidência da República em 2018, aprender a dizer não e a fazer valer o compromisso de que fará o ajuste fiscal doa a quem doer”, diz. “Com o impeachment aprovado, se nada de concreto for feito, a lua de mel que ainda prevalece entre o governo e os investidores vai acabar rapidamente”, emenda.

Por enquanto, alega Espírito Santo, o governo tem conseguido controlar as expectativas no gogó. Ele ressalta que a credibilidade da equipe chefiada pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, fez com que os prêmios de risco do país caíssem, a bolsa de valores subisse e o dólar se desvalorizasse. Mas o mercado não vive apenas de promessas. “Nos quase 100 dias em que está à frente da Fazenda, Meirelles conseguiu convencer a grande maioria das pessoas de que o governo está disposto a arrumar as contas públicas. É preciso, porém, apresentar resultados”, destaca.

As mais recentes decisões do governo, que colocam em risco o principal projeto do ajuste fiscal — a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que limita o aumento de gastos à inflação do ano anterior —, podem detonar uma onda de desconfiança cujos resultados serão desastrosos, reconhece o economista. “Estou, certo, porém, de que não haverá maluquices”, afirma. É o que todos esperam.

Brasília, 07h01min

Vicente Nunes