Coluna do Correio: Pressão pelas reformas

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ANTONIO TEMÓTEO

O Comitê de Política Monetária (Copom) abandonou a postura conservadora e deixou claro que pode ser obrigado a subir os juros caso as reformas fiscais não sejam aprovadas. A ata do último encontro, publicada ontem pelo Banco Central (BC), jogou no colo dos parlamentares a responsabilidade de aprovar as alterações nas regras para concessão de benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A taxa será elevada, detalha a equipe de Ilan Goldfajn, em um cenário que contemple piora das condições internacionais e frustração das expectativas com o ajuste fiscal.

Essa perspectiva traria impacto inflacionário, com a alta dos prêmios de risco. E somente a alta dos juros poderia levar investidores a permanecer no país, já que cobrariam uma remuneração maior diante da piora dos indicadores macroeconômicos. Além da necessidade de promover reformas estruturantes, a autoridade monetária destaca que investimentos em infraestrutura, concessão de serviços públicos e privatização de empresas são essenciais para a retomada da atividade.

Os diretores do BC afirmam que essas medidas têm potencial para aumentar a produtividade, trazer ganhos de eficiência, maior flexibilidade da economia e melhora do ambiente de negócios. Mesmo com as ressalvas, os apontamentos da autoridade monetária ainda levam em conta um encerramento gradual do ciclo de cortes de juros. Na avaliação do economista-chefe do Banco Haitong, Jankiel Santos, a ata do Copom repetiu a mensagem transmitida no comunicado divulgado após o encontro que reduziu os juros em um ponto percentual, para 8,25% ao ano.

Entretanto, ele observa que o texto indica que a equipe de Ilan Goldfajn mostrou desconforto com o aparente consenso do mercado de que os próximos cortes serão de 0,75 ponto percentual em outubro e de 0,5 em dezembro. “Enquanto o documento reforça que os resultados mais prováveis nos próximos encontros serão de cortes menores, também informa que mudanças no ambiente econômico podem levar o BC a alterar seus planos”, ressalta.

Incertezas

Para Santos, embora tal ajuste seja algo que todos esperariam da equipe de Ilan Goldfajn, é curioso notar que a autoridade monetária deu ênfase a essa abordagem. “Significa que estão dispostos a manter o ritmo de flexibilização atual ou a afrouxar o aperto monetário muito mais do que o imaginado? Nós não pensamos assim. Acreditamos que, tendo em conta as incertezas sobre o ambiente político doméstico e internacional, o BC só queria manter a porta aberta para um ajuste em sua conduta, se necessário”, destaca.

Nas contas do economista-chefe do Banco Haitong, o BC cortará os juros em 0,75 ponto percentual em outubro e em 0,5 em dezembro. “a taxa de juros básica deve permanecer em tal nível ao longo de 2018, proporcionando, assim, a posição acomodatícia de que a autoridade monetária brasileira julga que é adequado para a prosperidade da economia sem estragar a dinâmica favorável à inflação”, avalia.

Na avaliação do economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita, a ata indica uma trajetória gradual de cortes de juros, até o nível final de 7,0%. Ele destaca que há poucas indicações no texto, com suas repetidas referências ao fim do ciclo, que possam ser usadas para apoiar uma continuação do ritmo mais veloz de flexibilização. Entretanto, Mesquita afirma que o texto também sugere que o Copom não se moverá bruscamente na direção oposta. “O que nos deixa confortáveis com a nossa expectativa de que a taxa Selic será reduzida em 0,75 ponto percentual em outubro e, em seguida, em 0,5 em dezembro, encerrando o ano, e o ciclo, em 7%. Surpresas negativas ou positivas relacionadas às perspectivas de inflação podem levar o Copom a se desviar dessa trajetória, mas não muito”, diz.

Vicente Nunes