Artigo: Chegou o general inverno, chegou!

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Por LUIZ RECENA GRASSI, de Portugal

Bombardear clínica infantil e matar bebê da Ucrânia é forte para qualquer imagem guerreira. CNN não perdoa e comanda dois dias a mídia internacional para denunciar os russos pelo fato. No primeiro dia, mostrou escombros de um prédio sem ícones hospitalares. Não carece. Repórter no local e mulheres chorando basta para condenar os russos. Putin perdeu.

Ao mesmo tempo, o Parlamento Europeu condenou por muitos votos suposta tendência russa de apoiar o terrorismo. Não importa a decisão ser inócua ou que bancadas tenham ficado divididas, sem votar. CNN e Euronews acham o contrário e mandam acusar a Rússia. Putin perde de novo. Tenta recuperar chamando mães de soldados para pedir perdão e libera imagens de presos trocados a voltar para casa. Assim passam os dias.

Na vida real, a guerra continua. Rotina de sempre: bombardeios nas cidades ucranianas. Depois de Kiev, Zaporijia. Por último, Kherson, a que foi reconquistada pela Ucrânia. Bombas vem da outra margem do rio. Vários mortos e inúmeros feridos. A luz é caótica. Água e gás também. O líder Volodimyr Zelensky faz o que sabe, pedir ajuda. A comida vem. Depois de tantas armas e dinheiro para mercenários (rebatizados voluntários) comida e cobertores é gesto de maior calor.

O chefe da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Jens Stoltemberg, findou a semana pedindo empenho e ações práticas dos países da Europa. Calos que sapatos apertam. Não aceita quem dá menos do que pode, principalmente os mais ricos. Não lembra do inverno a chegar e tanta barba de molho. A maioria está mais atenta aos preços da energia, crise no setor, problemas na economia, inflação já presente em uns e a galopar para outros. Há divisões internas.

A guerreira Ursula Van Der Leyen, chefe da União Europeia (UE), continua com a ideia de acabar com Putin e a Rússia. Trabalha proposta de tabelar o preço do gás em toda Europa. Querem preços bem abaixo dos cem dólares. Zelensky quer a menos de 50. Espanha diz que é piada de mau gosto. Outros avisam estar pouco dispostos. Só Alemanha e França fazem acordo para proteger os civis ucranianos. A Rússia informa ser ação para atrapalhar o mercado. Só Joe Biden, sem problemas em casa, incentiva o tema.

O inverno bate à porta de todos e favorece a Rússia. O quadro é feio e não facilita saídas. Resta a expectativa da paz, tão difícil quanto o clima no horizonte imediato. A Ucrânia ignora a proposta russa, que come território, domina e impede a adesão de Kiev a UE e OTAN. Crescem propostas de apoio que não se materializam. Aliados mandaram 94 bilhões de euros até agora, 50 bilhões dos EUA. Um míssil moderno dos yanques custa US$ 105 milhões a unidade. Ainda não saiu de casa.

Biden continua a apoiar a Ucrânia. Guerra é caro e o frio vai exigir esforços. Cada um manda o que pode, comida, cobertores, geradores. Coisas velhas ou novas, mandam assim mesmo. Zelensky quer armas. Nem todos têm para si, quanto mais para repasses. Além de cara e fria, a guerra é de outro.

O CORREIO SABE PORQUE VIU

ESTAVA LÁ: Esquimó de primeira neve. Foi a frase mais cortês que ouvi depois da tarde de um sábado de novembro. Era a primeira neve no bairro Dínamo, Moscou. Vi escorrer pelo vidro e confirmei: é bonita a neve vista da janela. Pouco antes, perto, no mercado Leningradski, havia trocado três limões sicilianos por uma sacola francesa de marca. Belo negócio! Boa caipirinha a saudar a natureza. Só depois soube detalhes sórdidos do branco.

A beleza do branco produz armadilhas e gelo liso escorrega feito sabão. Num dia assim, desci do ônibus e não fiquei segundos em pé. Ao dar-me conta, era um corpo estendido no chão, pernas para o ar, braços a proteger o possível, maleta 007 para um lado, sacola para outro, o quadro da dor e do ridículo. Traseiro plantado na neve fiquei a rir da própria tragédia. Relato telefônico feito, passa o tempo e a lembrança volta em forma de desenho infantil.

Vicente Nunes