Ruptura encerra a temporada com a magnitude que a história merece

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A série da Apple TV+ responde o suficiente, deixa no ar novos mistérios e entrega segunda temporada verdadeiramente arrebatadora

Por Pedro Ibarra

Misteriosa como sempre, importante como nunca, Ruptura voltou do tamanho que uma série desta qualidade merece. O seriado da Apple TV+, criado por Dan Erickson e com Ben Stiller na produção executiva e direção de alguns episódios, apresentou um capítulo de encerramento da nova temporada digno dos grandes títulos da história da televisão e encerrou o segundo ano com potência e magnitude.

A série, protagonizada por Adam Scott, Britt Lower, John Turturro e Zach Cherry, lançou a segunda temporada sob muita expectativa. Com uma cena inicial que demorou cinco meses para ser gravada, muito dinheiro investido e até uma ação promocional com os atores no ponto turístico Grand Central Station em Nova York, a produção parecia entender o quanto era importante acertar nos novos episódios.

Após a exibição desse último episódio, é quase inegável o fato de que todo esse esforço valeu a pena. A série acertou. Tecnicamente impecável, com a narrativa complexificada, atuações mais profundas e um final gigante sem ser megalomaníaco, Ruptura entregou uma temporada um degrau acima da anterior e muito superior a quase tudo que tem sido lançado na televisão atualmente.

A narrativa continua ousada, sem medo de causar estranhamento no espectador e muito menos de deixar mistérios em aberto. A série mostra que é possível responder perguntas com mais perguntas e ainda assim engajar o público. As teorias ficaram cada vez mais frequentes, e consideravelmente mais mirabolantes, conforme o passar dos episódios. Algumas certas, outras erradas, todas mostraram o poder da série de gerar discussão e uma habilidade ímpar de transmitir uma mensagem nas entrelinhas do roteiro.

Os personagens foram ganhando profundidade, humanidade e se tornaram cada vez mais relacionáveis. O vilão é difuso, a Lumon, como representante do sistema opressor, é o grande antagonista, mas a capacidade de questionar do roteiro faz com que nada seja preto ou branco. Ruptura navega muito bem pela área cinzenta dos sentimentos reais em uma história absolutamente fora da realidade se levada no literal. Afinal, o seriado está falando de uma cirurgia que divide cada indivíduo em uma pessoa para a vida e outra para o trabalho.

As atuações ajudam muito. Os atores ganham mais campo para trazer as nuances e as várias camadas de cada personagem. Os outties, que carregam a personalidade dessas figuras fora do trabalho, têm mais tempo de tela, o que permite os atores a mostrarem, no mínimo, duas facetas. Britt Lower e Adam Scott são destaques absolutos nessa atuação múltipla do mesmo papel. Tramell Tilman, responsável por Milchick, entrega uma interpretação memorável sem depender de fazer dois personagens no mesmo corpo, e também chama atenção no novo ano.

No quesito visual, o seriado mais uma vez cria uma estética impecável. Muito técnica como sempre,a produção abusou dos jogos de câmera, das cores e das luzes. Portanto, além de uma grande história, também é muito agradável de assistir.

Mesmo para os menos entendidos do aspecto cinematográfico, a nova temporada parece mais difícil de ser executada. Algumas cenas podem deixar boquiaberto até que esteja por dentro de fotografia e direção de arte para o cinema.

O apego aos detalhes leva a série ao posto de fenômeno que ocupa. Do texto ao mínimo adereço de cena, tudo em Ruptura parece ser minuciosamente pensado para transmitir sentimentos e transportar o espectador para esse mundo estranho, mas irresistível do mistério e da importância. A série é única e fez por onde para conquistar o espaço entre as maiores.

Se quiser, pode acabar

Foto: Apple TV+/Divulgação

Com um final frenético e inteligente, a segunda temporada ainda tem questões que podem ser respondidas em um novo ano. Contudo, a amarração dos fatos e a evolução dos eventos também traz satisfação se este tiver sido o último episódio. É um final aberto que dá a sensação de saciedade que o público procura.

Claro que, se for da intenção da produção, a história pode se desenvolver e o público está interessado no desenrolar dos fios que ainda ficaram soltos. Se ainda houver algo para contar, não vai ser o público apaixonado e cheio de teorias que vai negar mais alguns passos dentro desse universo instigante.

Pedro Ibarra

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