Rafael Theophilo: “O preconceito é uma doença”

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Ator Rafael Theophilo, o Hugo Sá de Cara e coragem, defende que a televisão abrace temáticas que precisam ser discutidos pela sociedade, como o respeito aos homossexuais. Leia entrevista!

Rafael Theophilo tem tido trabalho triplo em Cara e coragem. Isso porque o personagem dele, o ator Hugo Sá, tem múltiplas camadas: “o Hugo Sá ator em ação, o Hugo Sá social e o Hugo Sá na intimidade. Para mim, é um desafio divertido transitar entre essas camadas. Hugo, como ator, é seguro de si, galã. Em público, banca a pose de homem heterossexual e, na intimidade, ele relaxa, se permite ser quem ele é de verdade.”

Abraçar essa verdade é o grande desafio de Hugo. É a tal da coragem a que o título da novela se refere. Rafael conta que torce para que o personagem consiga vencer o medo de falar da própria sexualidade abertamente. Ele exalta o quanto isso poderia ajudar uma parcela do público. “Esse personagem tem uma grande responsabilidade social. Mostrar que, primeiro, o importante é ser feliz, que ser gay não é pior ou menor do que ninguém e que, sim, um ator gay pode representar papéis de homens heterossexuais”, explica.

Entrevista // Rafael Theophilo

O Hugo tem que esconder do público que é homossexual. O público brasileiro não está preparado para ver um gay vivendo papéis de hétero?
Se um assunto é encoberto pelos tabus, preconceitos e julgamentos, esse assunto não é olhado, discutido, incluído. Não há uma reflexão. Precisamos normalizar a homossexualidade. Porque é normal, é genuíno, não há nada de errado em ser gay, não há nada para ser curado. O preconceito, sim, é uma doença. A televisão tem o dever social de normalizar o assunto, assim como o poder público de educar. Um ator, homem, gay, é um ator, ele interpreta personagens, gays ou não.

Porque quando acontece o contrário não há estranhamento?
Quase todos os personagens gays feitos na televisão, são mimetizados, afetados, engraçados porque é mais fácil de ser aceito. O público se diverte e esse imaginário foi construído. E tudo bem. Tem uma “permissão” porque aquela figura mimetizada é distante, quase alegórica. Porém, há ainda várias nuances a serem mostradas. Acredito que cada vez mais iremos ter personagens gays mostrando a rotina, as dores, os amores, o que é comum como de qualquer outra pessoa e quebrar essas características.

Ao lado de Maria Eduarda Carvalho, nos bastidores de Cara e coragem

Você interpreta um galã em Cara e coragem. Como lida com esses rótulos na vida real? Eles te incomodam?
Galã é um tipo, um estereótipo, um arquétipo, portanto representa padrões de comportamento. Um galã faz parte de uma trama, principalmente de uma televisiva. Esse rótulo acaba restringindo, limitando outras variantes. O ser humano é plural, nunca é uma coisa só; há muitas outras camadas. Ser só bonito não sustenta, tem prazo de validade.

A grande maioria das suas cenas é ao lado da Maria Eduarda de Carvalho. Vocês já se conheciam? Como está sendo essa parceria?
Eu não conhecia a Maria Eduarda. Minha mãe foi a primeira pessoa que a reconheceu e disse que a adorava. Conheci Duda no set já para gravar. Um pouco antes do “ação” ela virou e me disse: ‘vamos passar (o texto)?’ e olhou nos olhos. Ali eu percebi que estava ao lado de uma atriz que joga junto.

No filme Vento seco

Você também fez Vento seco. O filme acabou tendo uma repercussão grande por conta das cenas de nudez e sexo gay. Como foi para você protagonizar essas cenas?
Vento Seco é muito mais que um filme com nudez e sexo. Basta assistir para ver. Além de toda estética, trilha sonora, já é considerado um dos melhores filmes nacionais da atualidade. Estreamos no importante Festival Internacional de Berlim. O filme participou de diversos festivais nacionais e internacionais e concorreu a vários prêmios, inclusive ao Teddy Awards, em Berlim. No roteiro as cenas de nudez já estavam escritas de uma forma muito bela esteticamente, na preparação, um mês antes das filmagens, também tudo sempre discutido entre o elenco e a direção, todo cuidado da equipe nas gravações, principalmente dessas cenas. Isso tudo facilitou para mim enquanto ator, a estar a serviço da obra e contribuir para contar aquela história.

Apesar de as cenas chamarem a atenção, o filme é muito mais do que isso. Que discussões levantadas por Vento seco ainda precisam ser levadas para a sociedade brasileira?
O filme se passa no interior de Goiás, dentro de uma fábrica de fertilizante. Totalmente inserido em um ambiente hostil e preconceituoso. Narra a história de um trabalhador dessa fábrica, Sandro, que é gay, porém exerce suas fantasias sexuais escondido na mata ali perto e principalmente na sua cabeça, com isso ele seca por dentro, implodindo por não se permitir a amar livremente. O filme fala sobre o desejo, é uma grande experiência sensorial, imagens e cores vibrantes. Coloca o corpo do homem como objeto sexual, explora a sexualidade sem pudores. O filme por si só é um ato político, ainda mais no Brasil atual.

Vinícius Nader

Boas histórias são a paixão de qualquer jornalista. As bem desenvolvidas conquistam, seja em novelas, seja na vida real. Os programas de auditório também são um fraco. Tem uma queda por Malhação, adorou Por amor e sabe quem matou Odete Roitman.

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