Pico da neblina é a prova de que o Brasil definitivamente sabe fazer séries

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Lançada na HBO em 4 de agosto, Pico da neblina acompanha Biriba, um traficante que vê a vida mudar quando a maconha é legalizada no Brasil. Leia crítica do seriado (sem spoilers)!

Esqueça os clichês típicos de produções brasileiras que falam sobre drogas e tráfico. Em Pico da neblina, da HBO, a perspectiva é a outra. A narrativa começa acompanhando Biriba (Luis Navarro), um jovem morador da periferia paulista que trafica maconha para sustentar a família, composta pela mãe, a irmã e duas sobrinhas.

Arrimo de família, Biriba está longe da figura estereotipada de um traficante vista inúmeras vezes na dramaturgia. Pelo contrário, ele se veste bem, é inteligente, faz de tudo para manter a família em ordem e tem uma relação diferente com a droga, oferecendo diversas formas da cannabis para os compradores, o que o faz ter uma lista grande de interessados.

É exatamente por isso que, quando a maconha é legalizada no Brasil para fins recreativos e medicinais após votação no Congresso Nacional, Vini (Daniel Furlan), um dos compradores assíduos de Biriba tem a ideia de que, juntos, eles podem comercializar a droga legalmente. Só que a dupla esbarra em alguns problemas, que são desenvolvidos ao longo do primeiro episódio.

Paralelamente a isso, há a história de Salim (Henrique Santana). Melhor amigo de Biriba, que também é traficante, mas, diferentemente do companheiro, não vê na legalização um modo de sair do mundo do crime. E, sim, o oposto. Ele acaba ganhando um cargo mais alto dentro do tráfico e quer que Biriba o acompanhe na empreitada. Desacreditado sobre um comércio próprio da maconha, o protagonista acaba aceitando, mesmo que a contragosto.

Crítica de Pico da neblina

É a partir desse dilema de Biriba que Pico da neblina se desenvolve e consegue fisgar o espectador. Com uma construção bem feita e um protagonista empático (créditos ao roteiro e ao trabalho de Luis Navarro), é possível entender os diferentes pontos de vista do personagem: buscar uma vida na legalidade sem garantias ou optar por manter o sustento da família mesmo que isso seja viver no mundo do crime. Esses dois lados vão sendo mostrados e desenvolvidos a cada episódio.

2019. Crédito: Fabio Braga/O2 Filmes/Divulgação. Cultura. Cena da série nacional Pico da Neblina, de Quico Meirelles.

Outro ponto de destaque de Pico da neblina é que a série sabe como tratar bem seus coadjuvantes. Vini, o sócio de Biriba, é um dos personagens que dão  brilho e leveza à série com o humor característico de Daniel Furlan. A mãe de Biriba, vivida por Teca Pereira, também é outra personagem que rouba a cena. A matriarca da família é forte e Teca já mostrou nos dois primeiros episódios que a personagem ainda tem muito a crescer, assim como todo o núcleo da casa do protagonista. Talvez o núcleo do time do tráfico, encabeçado por Salim, seja o menos interessante, isso porque se aproxima um pouco dos estereótipos e das narrativas já conhecidas pelo público.

Pico da neblina é o tipo de produção que reforça o bom momento das séries brasileiras. É visualmente bem feita, tem um roteiro certeiro, uma história inédita, a cada episódio tem bons ganchos com reviravoltas que fazem o espectador querer continuar a assistir e um elenco que vai ganhando liga. Sem falar no fato de colocar sob o holofote uma família negra e a periferia de São Paulo, que são pouquíssimas vezes representadas na telinha brasileira e levantar, mesmo que às vezes nas entrelinhas, um debate sobre um assunto tabu discutindo a quem beneficia o tráfico e/ou a legalização sem hipocrisias.

Adriana Izel

Jornalista, mas antes de qualquer coisa viciada em séries. Ama Friends, mas se identifica mais com How I met your mother. Nunca superou o final de Lost. E tem Game of thrones como a série preferida de todos os tempos.

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