Emergência 53
Emergência 53 Crédito: Divulgação/Laura Campanella Emergência 53

‘Emergência 53’ não resiste a roteiro sem pulso e entra em coma criativo

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Por Letícia Passos — Emergência 53, a nova série do Globoplay, que estreou em 20 de agosto de 2026, acompanha a rotina de diferentes profissionais da saúde, todos bastante problemáticos, que trabalham em uma espécie de Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) fictício. Entre atendimentos de emergência e situações de risco, eles precisam lidar também com os próprios dilemas pessoais.

O seriado foi idealizado e dirigido por Claudio Torres, filho de Fernanda Montenegro e Fernando Torres. Com uma premissa simples, fácil de vender e uma estrutura episódica em que cada capítulo apresenta um novo caso de emergência, seria difícil imaginar que a produção não funcionaria. Mas funciona justamente abaixo do que poderia. Emergência 53 tem bons atores, boas sequências de ação e uma premissa com potencial, mas parece não saber o que fazer com nenhum desses elementos.

A César o que é de César

Mas comecemos pelo positivo.

O elenco de Emergência 53 está impecável. Embora a série trabalhe com um elenco numeroso e divida a atenção entre diferentes personagens, Emílio Dantas assume a dianteira com brilhantismo como o complicado e talentoso médico Pedro.

A veterana Yara Novaes dá um show como Irene, chefe de uma equipe de profissionais tão talentosos quanto problemáticos. Ao contracenar com Fernanda Montenegro, que interpreta a mãe da personagem, a atriz sustenta cenas dramáticas com segurança e entrega alguns dos melhores momentos da temporada.

Jaffar Bambiarra, que parece ter se tornado o mais novo queridinho da TV Globo, prova mais uma vez ser um verdadeiro camaleão. Depois de interpretar o esquisito e controlador Téo em Dias Perfeitos, também do Globoplay, e o sensível, mas complicado, Cadé em A Vida Pela Frente, o ator encarna com primor o condutor Vandam.

Louros também devem ser entregues à direção e à produção de Emergência 53. A experiência é imersiva, e as cenas de pura adrenalina são conduzidas com competência. Perseguições, resgates e atendimentos de emergência têm ritmo suficiente para prender a atenção e, em alguns momentos, fazem a série finalmente encontrar a tensão que o roteiro insiste em procurar.

Festival do óbvio

Agora, vamos ao que deveria ser a força motriz da série: o roteiro. E é justamente aí que Claudio Torres deixa Emergência 53 entrar em coma criativo. Torres, que também escreveu o massivamente desengraçado Velhos Bandidos (2026), criou para a série personagens absurdamente caricatos e situações previsíveis.

Um médico complicado, mas absurdamente talentoso, com um passado conturbado e que, quase sempre, salva o dia no final. Uma mulher que tem medo de se entregar a um amor do passado e precisa equilibrar o papel de chefe com os próprios problemas pessoais. A menina que precisa vender fotos sensuais para conseguir financiar um grande sonho. Já não conhecemos esses personagens de outras centenas de histórias?

Esses arquétipos já exaustivamente explorados tornam difícil criar qualquer vínculo mais profundo com os personagens e fazem com que boa parte dos conflitos possa ser antecipada muito antes de chegar à resolução.

Outro problema do roteiro é um dos grandes vícios do audiovisual contemporâneo: explicar demais. A série parece desconfiar da capacidade do próprio público de compreender o que está acontecendo e, por isso, repete informações, reforça sentimentos e mastiga conflitos que poderiam simplesmente ser deixados para a interpretação de quem assiste.

O resultado é uma história que raramente surpreende. Mesmo quando tem todos os elementos necessários para criar tensão, Emergência 53 frequentemente escolhe o caminho mais óbvio. Os personagens fazem exatamente o que se espera deles, os conflitos caminham para resoluções previsíveis e até os momentos que deveriam causar impacto parecem anunciados com antecedência.

Vale a pena?

Já renovada para uma segunda temporada, Emergência 53 ainda tem tempo de ser reanimada. A primeira temporada deixa a sensação de que a série poderia ser muito mais do que aquilo que entrega.

Há bons atores, uma direção competente e um universo com potencial para render histórias interessantes. O problema é que nada disso consegue compensar um roteiro que parece ter medo de arriscar.

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