Após cangaço, Romeu Benedicto mergulha na máfia dos jogos

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Em Os donos do jogo, da Netflix, ator vive o deputado Mandele Neto, autor do projeto de lei que tenta liberar o jogo do bicho

Patrick Selvatti

Após atuar em Guerreiros do sol, do Globoplay, em que deu vida a Tonhão, um militar aposentado, pai de família da década de 30 que vive uma trage´dia que o leva a uma obsessão por vingança, o ator Romeu Benedicto chega com mais um personagem que promete dar o que falar. Em Os donos do jogo, da Netflix, ele vive o deputado Mandele Neto que, na trama que trata do império geracional da contravenção, é o autor do projeto de lei que tenta liberar o jogo do bicho, incluindo outros jogos como caça-níqueis e cassinos. Além da série da Netflix, o ator poderá ser visto também na quarta temporada de “Arcanjo Renegado”, no Globoplay, em que faz um ex-policial chamado Cristiano Monteiro.

Romeu Benedicto fala de Tonhão, personagem de “Guerreiros do Sol”

Entrevista | Romeu Benedicto

Como você descreveria a moralidade desse político que é “do jogo” e se move em uma atmosfera de tantos interesses conflitantes?

Eu o descreveria como um bicho que não tem na lista de animais do jogo do bicho: o Camaleão que tem capacidade de adaptação, oportunismo, metaforicamente sugerindo que o político age por interesse próprio ou para sobreviver politicamente, em vez de manter princípios consistentes. Ele tem em si uma duplicidade/hipocrisia, um rastejo sinuoso transitando entre interesses e um sorriso misterioso da hiena; ressaltando que essa construção aparece só a ponta, como um iceberg, por causa do tempo que tem em cena na narrativa, que é como ele contribui pra contar essa história do Profeta (André Lamoglia) e as nuances da máfia brasileira na cúpula do jogo do bicho carioca.

Na sua opinião, o que uma história como essa revela sobre o Brasil e a relação do país com o jogo e o poder?

Apesar de se basear em histórias reais, trata-se de uma série ficcional, muito bem escrita e roteirizada por Heitor Dália e sua equipe. O jogo do bicho cumpre o seu papel, o de uma obra de arte, imprimindo o nosso tempo. Hoje, já podemos dizer que temos um Brasil caminhando para ser um país mais justo, igual e mais humano a todos, com um olhar para o social. Mas essa obra de arte revela um Brasil de vícios estruturais enraizados que combatemos hoje, em que o Estado é ausente na maioria de suas entregas sociais, permitindo vários Estados paralelos, e o poder e seu jogo se beneficiam dessa deficiência, para se manter no poder. E, dentre esses vários estados paralelos, está o crime organizado. Essa obra de arte revela os meandros de uma máfia brasileira. Ojogo do bicho, em sua origem, foi apropriado pela periferia carioca, a partir da promoção do Zoológico do Barão no Grajaú, que saiu e ganhou as comunidades, e se inseriu na cultura do carioca. E os bicheiros viam isso como um fortíssimo instrumento de perpetuação, principalmente através de outra manifestação genuína das comunidades cariocas, o Carnaval, que, por outro lado, contribuiu pra transformá-lo no que é hoje, o maior espetáculo a céu aberto do planeta.

Como foi, na prática, encontrar a humanidade e a lógica interna de alguém cuja ética e moral são, nas suas palavras, “valores pra inglês ver”?

Ao mergulhar no universo dessa personagem, é importante encontrar o objetivo dele, seu raciocínio, como ele vê esses valores que temos de moral e ética, em que no seu mundo de acordos e toma lá dá cá, são relativos, depende do interesse que o satisfaz e não do que é certo ou errado aos nossos olhos. Sem a preocupação de ser mal ou bom, mas simplesmente segue seus interesses pessoais.

Você está trabalhando no roteiro de um filme sobre a história do seu pai. O que você pode adiantar sobre esse projeto pessoal e o que significa para você dar vida a essa história em particular?

Estou em fase de pesquisas e roteiro. Dar vida à história do meu pai significa se juntar e fortalecer cada vez mais as narrativas de como a guerra violenta a alma humana. Um homem simples como meu pai, que só viveu da roça, lidando só com animais, vida simples, e é tirado do seu lugar, é obrigado a cruzar oceano, com frio, fome, incertezas, inseguranças, sem treinamento, e ter que enfrentar uma guerra que não era sua e onde nem escolheu estar… É enaltecer a história desses homens que, assim como ele, se tornaram sobreviventes, e não heróis. Mas, se olharmos de um ângulo da superação e bravura, podemos dizer que sim foram heróis.

Patrick Selvatti

Sabe noveleiro de carteirinha? A paixão começou ainda na infância, quando chorou na morte de Tancredo Neves porque a cobertura comeu um capítulo de A gata comeu. Fã de Gilberto Braga, ama Quatro por quatro e assiste até as que não gosta, só para comentar.

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