Análise: Vale mesmo?

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Manuela Dias imprimiu sua assinatura e resultou em um esvaziamento das camadas que faziam da trama um retrato complexo da sociedade brasileira

Patrick Selvatti

Ao se propor a refazer Vale tudo — clássico de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères exibido originalmente em 1988 —, a autora Manuela Dias (corajosa) assumiu um desafio que beirava o impossível: reviver, 37 anos depois, uma das novelas mais icônicas da teledramaturgia brasileira. Não faltaram elenco engajado entregando o melhor, audiência alta, repercussão nas redes sociais (principalmente com hatewatching) e faturamento publicitário recorde. Mas, em termos de qualidade dramática, a versão de 2025 não sobrevive à comparação com o original — e tampouco se sustenta como obra autônoma.

A escolha de Manuela Dias foi clara: imprimir sua assinatura, custe o que custar. O problema é que essa decisão resultou em um esvaziamento das camadas que faziam da trama um retrato complexo da sociedade brasileira. Personagens densos e contraditórios foram achatados em caricaturas ou deslocados para lugares irrelevantes, transformando um mosaico sofisticado em uma colagem de ideias frouxas.

O exemplo mais gritante é o casal protagonista. Raquel e Ivan, agora vividos por Taís Araújo e Renato Góes, perderam a força de símbolos da integridade diante da corrupção estrutural. O romance, antes construído em meio a dilemas éticos, virou pano de fundo para cenas protocolares. Entre eles, Heleninha Roitman (Paolla Oliveira), que, apesar do esforço e do talento da atriz, não teve o complexo triângulo amoroso bem explorado nem seu alcoolismo memorável vingou como antes.

Do outro lado, Maria de Fátima e César — Bella Campos e Cauã Reymond (com direito a polêmicas de bastidores) —, em vez de exporem a crueldade do oportunismo, foram tratados quase como duplinha cômica (ou trio, se somarmos a eles o amigo Olavo, em uma ótima composição do estreante no gênero Ricardo Teodoro), desperdiçando o potencial crítico.

Esse esvaziamento ficou escancarado na cena-chave da obra, em que Maria de Fátima, grávida e escorraçada pelos Roitman, procura apoio da mãe, agora rica. O entrecho foi reescrito de forma tão equivocada que descaracterizou seu sentido original: Raquel estava pobre, voltando a vender sanduíche na praia, o que fazia da cena um choque de inversão social. Ao retirar esse detalhe, a versão atual transformou um momento emblemático em um episódio qualquer. A própria Taís Araújo declarou publicamente o descontentamento.

O remake também tropeçou ao introduzir tramas paralelas que pouco conversam entre si. O casal lésbico Cecília e Laís (Maeve Jinkins e Lorena Lima) foi mantido, mas, sem um arco consistente, virou figuração de luxo. A leucemia de Afonso (Humberto Carrão) — trama inventada e sem nenhum valor dramatúrgico — tornou-se periférica, quase decorativa. Mário Sérgio (Thomas Aquino) perdeu a força ao se tornar vilão, em vez de fazer par com Solange (Alice Wegman), e esta se viu atrelada a um enredo forçado com o chefe Renato (João Vicente de Castro) enquanto o amado estava casado com sua rival arrivista. Já o vilão Marco Aurélio (Alexandre Nero) virou um simpático queridinho do público ao desfiar falas de assédio e até Aldeíde (Karine Teles), que no original fica podre de rica e ganhava um espaço inesperado no high society, agora continua a agir como pobre e metida em uma trama de novela das seis em que a mãe do seu boy (a sempre impecável Belize Pombal) rejeita o romance, anulando sua transformação.

E, por fim, o maior equívoco: Odete Roitman. Na interpretação de Débora Bloch (magistral, meu Deus, que atriz!), a personagem foi reinventada como uma devoradora de homens, uma mãe que abandona o filho que fica com graves sequelas após um acidente (trama nova, boa, mas inverossímil) e até como serial killer, concentrando em si tanto protagonismo que o famoso mistério sobre sua morte perdeu impacto. O assassinato que, em 1988, paralisou o Brasil, veio na última segunda-feira, mas virou apenas mais um capítulo inflado por redes sociais e pela torcida de fãs que pediam que a vilã não fosse morta. Ao endeusar Odete, a novela dissolveu o cerne de Vale tudo: a constatação amarga de que a corrupção e a falta de ética atravessam todas as classes sociais.

É inegável que Manuela Dias entregou um produto de altíssimo alcance e rentabilidade — o que a emissora comemora, mesmo sob fortes críticas. Mas é igualmente inegável que sua versão de Vale tudo — que chega ao fim nesta sexta-feira (17/10) — perdeu-se na tentação de atualizar a obra a qualquer custo, trocando densidade por espetáculo, dilema ético por polêmica instantânea (os bebês reborn mandam um alô!).

O resultado é um remake que não honra sua matriz nem constrói uma identidade própria marcante. O público pode até ter vibrado com os memes e os trending topics, mas a história ficará registrada como uma oportunidade desperdiçada. Afinal, entre se apropriar de um clássico e recriá-lo com respeito, Manuela optou pela soberba — e transformou uma das novelas mais atemporais da nossa televisão em um produto de temporada, fadado ao esquecimento.

Patrick Selvatti

Sabe noveleiro de carteirinha? A paixão começou ainda na infância, quando chorou na morte de Tancredo Neves porque a cobertura comeu um capítulo de A gata comeu. Fã de Gilberto Braga, ama Quatro por quatro e assiste até as que não gosta, só para comentar.

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