Análise: Um novo e necessário olhar para o coração do Brasil

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Tevê e streaming se voltam para o Brasil central, entendendo que há muito mais por ser mostrado do que o eixo Rio–São Paulo costuma permitir

Patrick Selvatti

A paisagem do Centro-Oeste brasileiro, por muito tempo vista apenas como passagem entre os grandes polos de produção, começa a ocupar o lugar de protagonista nas telas. O exemplo mais recente vem de Coração acelerado, próxima novela das sete da TV Globo, que iniciou suas gravações em Goiás e promete levar para o horário nobre o sotaque, a luz e os tons quentes do Cerrado.

Escrita por Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento, com direção artística de Carlos Araújo, a trama se passa em Bom Retorno — cidade fictícia, mas que bebe diretamente da realidade goiana. A equipe percorreu seis municípios e a capital Goiânia para construir uma identidade visual que traduzisse o espírito da região. De Pirenópolis à Cidade de Goiás, passando por Crixás, Alto Paraíso e São Gabriel, a novela parece querer fincar o pé no interior como território de afetos e potência estética.

Parte do elenco, como Isadora Cruz, Filipe Bragança, Isabelle Drummond, Letícia Spiller, Elisa Lucinda, Antonio Calloni, Leandra Leal e os atores mirins Rafa Justos e Rafael Rara, participa das gravações no estado, que envolvem mais de 150 pessoas na produção. Na tela, serão vistos lugares como o Jardim Maytrea e a Cachoeira da Muralha, em Alto Paraíso; as cachoeiras Coqueiro e Garganta e o Centro Histórico de Pirenópolis; e as ruas históricas da Cidade de Goiás, antiga capital do estado homônimo.

Cenas também foram gravadas na lanchonete Vó Belmira Pamonharia, em São Gabriel, e na Churrascaria Recanto Caipira, palco de um show da protagonista Agrado, vivida por Isadora Cruz. As gravações seguem em diferentes pontos do estado, consolidando o vínculo entre Coração acelerado e Goiás.

O movimento não é isolado. A tevê e o streaming começam a se voltar para o Brasil central, entendendo que há muito mais por ser mostrado do que o eixo Rio–São Paulo costuma permitir. O audiovisual descobre, enfim, o que Brasília e seus vizinhos já sabem: há uma riqueza simbólica e geográfica imensa entre o Planalto Central e o sertão goiano, onde a tradição dialoga com a modernidade, o sagrado com o profano, o urbano com o rural.

Para Carlos Araújo, “a câmera encontra beleza em cada enquadramento”. A fala, embora entusiasmada, tem fundo de manifesto: filmar no Centro-Oeste é também um gesto político e estético. É dar visibilidade a um Brasil que raramente ganha os holofotes — e que, quando ganha, costuma ser reduzido a estereótipos.

Na tela, entre tramas envolvendo o universo da música sertaneja — já explorado na série Rensga Hits — veremos o Cerrado como cenário de paixões e disputas, mas também como personagem vivo. As ruas de pedra da Cidade de Goiás, o verde intenso do Jardim Maytrea e a luz dourada de Pirenópolis se somam ao retrato humano que a novela propõe — um país que pulsa fora das capitais, com sotaque próprio, humor interiorano e uma musicalidade que vem do chão.

Para nós, que assistimos daqui de Brasília, há um sabor especial nessa virada. O Centro-Oeste, tantas vezes esquecido nos mapas da ficção, começa a ocupar o centro da narrativa nacional. A partir de janeiro, Coração acelerado chega como símbolo desse novo ciclo: o de um audiovisual que redescobre o país a partir do coração — literal e metaforicamente.

Patrick Selvatti

Sabe noveleiro de carteirinha? A paixão começou ainda na infância, quando chorou na morte de Tancredo Neves porque a cobertura comeu um capítulo de A gata comeu. Fã de Gilberto Braga, ama Quatro por quatro e assiste até as que não gosta, só para comentar.

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