Análise: “Três Graças” é um novelão original com DNA de clássico

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Nova novela das 21h traz de volta o folhetim com alma popular que não deixa de lado a profundidade

Patrick Selvatti

O primeiro capítulo de Três Graças, nova novela das 21h da Globo, marca um retorno em grande estilo ao folhetim clássico — aquele de emoções explícitas, vilões carismáticos, mocinhas fortes e segredos de família. Escrita por Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva, a trama já deixa claro, logo de saída, que não tem medo de ser novela: com todos os exageros, melodrama e humanidade que o gênero carrega de melhor.

Seis anos afastado da teledramaturgia, Aguinaldo volta à faixa nobre com a assinatura inconfundível que o consagrou em sucessos como Tieta, Senhora do destino e Império: o retrato cru do povo, o embate entre poder e miséria, e personagens femininas que se impõem pela força e pela dor. A estreia de Três Graças já nasceu como um grito — estético, social e emocional.

Com uma abertura linda ao som de um samba Clareouque é um hino à fé e à justiça, o capítulo inaugural é uma aula de ritmo e construção dramática. Em poucos minutos, o público mergulha em um universo de contrastes: a favela e o luxo, o sonho e a desilusão. A câmera não tem pudor em aproximar-se dos rostos — rugas, lágrimas, olhares — em uma direção que privilegia o gesto humano, o instante de emoção verdadeira. No núcleo popular, há ecos evidentes do cinema almodovariano: cores saturadas, figurinos que falam por si, paredes vermelhas, roupas floridas, luzes intensas que dão textura à emoção. A direção aposta em uma estética realista, quase documental, mas com o requinte plástico do melodrama. Nada é discreto — tudo pulsa. É o Brasil de Aguinaldo: vibrante, desmedido, trágico e belo.

O drama social como motor da ficção

O ponto de partida da trama é a gravidez solo na adolescência — um tema profundamente brasileiro, explorado sem didatismo, mas com verdade, que insipirou Aguinaldo Silva, há 18 anos, a contar a história de três gerações diferentes de mulheres que tiveram suas filhas aos 15 anos. A partir dele, desdobra-se um drama ainda maior: um esquema de falsificação de medicamentos dentro do sistema público de saúde, que mata pessoas pobres e alimenta o luxo de uma elite hipócrita. É o tipo de denúncia que o veterano autor Aguinaldo Silva — antes de tudo um jornalista — sempre soube fazer sem perder o entretenimento.

A mocinha Gerluce, vivida com intensidade surpreendente por Sophie Charlotte, é o coração moral da história. Jovem, sonhadora e de origem humilde, ela é o elo entre o mundo da comunidade e os bastidores do crime. Diante da gravidez precoce da filha, Joelly (Alana Cabral, estreante, mas já potente) e da doença da mãe, Ligia (Dira Paes), é através de seus olhos que o público descobrirá o grande mistério: a estátua As Três Graças, peça central da narrativa, guardada na casa da patroa, a perversa Arminda, vivida pela cada vez melhor Grazi Massafera em uma já anunciada retomada das vilãs que o Brasil ama odiar — para além de Odete Roitman (Debora Bloch), pois chega escancaradamente com os tons de desenho animado que tornaram memoráveis Nazaré Tedesco (Renata Sorrah) e Tereza Cristina (Christiane Torloni).

Mulheres em primeiro plano

E, se Três Graças tem algo de mais evidente, é o protagonismo feminino. Dira Paes, Sophie Charlotte e Grazi Massafera formam o tripé de interpretações que sustentaram o capítulo de estreia com potência dramática e carisma.

Dira Paes entrega uma atuação de presença magnética — sua personagem, Ligia, uma mulher que conhece as dores e os códigos da sobrevivência, é o símbolo da ganãncia que oprime o povo. Por sua vez, Sophie Charlotte, no papel de uma mãe de adolescente que nunca deixou de ser filha, surge com nuances que oscilam entre fragilidade e dureza, uma mulher moderna que tenta manter sua humanidade diante do caos. Já Grazi Massafera, com um desempenho contido e maduro, merece reverência pela carga emocional e pela entrega física ao papel. As três são faces diferentes da mulher brasileira: guerreira, contraditória, sensível e indestrutível.

O retorno de um mestre

Coautor da verdadeira e única que será inesquecivel Vale tudo, a de 1988, Aguinaldo Silva demonstra que o novelão ainda tem fôlego — e que, quando bem escrito, continua sendo o espelho mais fiel do Brasil. Sua pena afiada reaparece com ironia e crítica social, mas também com humor e humanidade. Há vilões perversos e divertidos, mocinhas com densidade, e um povo retratado não como massa de manobra, mas como protagonista da própria história.

Três Graças inaugura uma nova fase das novelas das 21h, prometida e não cumprida pela desastrosa Vale tudo de Manuela Dias: popular sem ser rasa, estética sem ser fria, política sem ser panfletária, engajada sem ser apenas pelos cortes de 15 segundos. Um espetáculo de emoção e cor, que devolve à televisão o prazer do drama com humor — e o gosto do público por sentir junto com seus personagens.

O primeiro capítulo termina com uma promessa clara: o Brasil vai se ver ali. Entre lágrimas, risos, traições e revelações, Três Graças reafirma a força da telenovela como arte nacional — e a de Aguinaldo Silva como seu mais fiel e provocante contador de histórias.

Patrick Selvatti

Sabe noveleiro de carteirinha? A paixão começou ainda na infância, quando chorou na morte de Tancredo Neves porque a cobertura comeu um capítulo de A gata comeu. Fã de Gilberto Braga, ama Quatro por quatro e assiste até as que não gosta, só para comentar.

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