Quem ama cuida estreia Leticia Colin em cena de "Quem ama cuida"/ Crédito: Beatriz Damy/Globo

Análise: “Quem ama cuida” estreia com forte e assertivo apelo emocional

Publicado em Novela

Retomada da parceria entre Walcyr Carrasco e Claudia Souto explode logo no primeiro capítulo com a potência de um verdadeiro folhetim

Patrick Selvatti

A estreia de Quem ama cuida, nova novela das 21h da TV Globo, demonstrou já em seu primeiro capítulo que Walcyr Carrasco segue dominando com precisão a engrenagem do folhetim popular. Em retomada da parceria com Claudia Souto — autora que consolidou uma trajetória bem-sucedida no horário das 19h —, a novela apresentou uma narrativa de forte apelo emocional, personagens imediatamente reconhecíveis pelo público e uma condução ágil que combina melodrama clássico com questões sociais contemporâneas.

A protagonista Adriana, interpretada por Letícia Colin, surge como uma heroína essencialmente popular. Em poucos minutos, a personagem perde o emprego, a casa e o marido, condensando tragédias pessoais que a colocam instantaneamente no centro da identificação emocional do público. A construção da personagem evita excessos caricatos e aposta justamente na humanidade de quem vê a vida ruir de maneira abrupta. Ao seu lado, a participação especial de Jesuíta Barbosa como Carlos imprime enorme força dramática ao capítulo. Sempre intenso em cena, o ator entrega um personagem heroico e afetuoso, cuja morte ao salvar uma família estabelece um dos momentos mais impactantes da estreia.

Outro acerto evidente está na apresentação do mocinho Pedro, vivido por Chay Suede. Mesmo sem grandes curvas emocionais, o personagem estreia delimitando o clássico conflito ideológico com o pai, um poderoso advogado capitalista, evidenciando embates familiares e sociais que devem movimentar a trama. A novela deixa claro, desde cedo, seu interesse em confrontar diferentes visões de mundo sem abandonar a essência emocional típica do gênero.

Como todo grande folhetim, Quem ama cuida aposta também na força do destino. O encontro entre os protagonistas nasce em meio a tragédias, disputas de poder e interesses financeiros, ingredientes tradicionais do horário nobre que aqui aparecem embalados por uma estética grandiosa. Sob direção artística de Amora Mautner, a superprodução impressiona ao reproduzir uma devastadora enchente nas ruas de São Paulo, sequência tecnicamente ambiciosa que serve não apenas como espetáculo visual, mas como catalisador dramático para os personagens. 

Destaques

Entre os destaques do capítulo inicial está ainda Isabel Teixeira, que demonstra imediatamente a dimensão de sua vilã Pilar. Fria, sofisticada, debochada e absolutamente desprovida de escrúpulos, a personagem carrega todos os elementos de uma antagonista clássica de novela das nove, mas ganha densidade graças às nuances interpretativas da grande atriz que a encarna. Pilar surge como uma megera pronta para despertar amor e ódio na mesma intensidade.

Ainda assim, o momento de maior potência dramática pertence a Tony Ramos. Em uma tomada simples, porém devastadora, a chuva se mistura às lágrimas do personagem enquanto ele vê sua vida ser consumida pela tragédia. A sequência evidencia como a presença cênica do ator é capaz de preencher a tela sem necessidade de excessos. O corte para a abertura sofisticada, embalada pela voz de Marisa Monte com a canção otimista Pra melhorar, reforça o tom requintado da produção.

Também merece destaque o retorno de veteranos consagrados às novelas, como Antônio Fagundes, Isabela Garcia e Deborah Evelyn, nomes que acrescentam peso dramático e prestígio à obra desde seus primeiros momentos.

A maior surpresa da estreia, no entanto, veio nos minutos finais. Ao retomar depoimentos reais de pessoas anônimas contando histórias de cuidado, afeto e superação, a novela rompe momentaneamente a ficção para estabelecer uma conexão direta com o público. O recurso — muito utilizado anteriormente pelo imortal Manoel Carlos (1939-2026) — amplia o impacto emocional dos capítulos e evidencia a tentativa da produção de dialogar com experiências humanas reais, aproximando ainda mais o folhetim de quem o assiste.

Com um capítulo inicial tecnicamente grandioso, emocionalmente eficiente e sustentado por um elenco de forte presença, Quem ama cuida demonstra potencial para se consolidar como mais um grande sucesso do horário nobre.

Os autores têm a colaboração de Bruno Segadilha, Julia Laks, Martha Mendonça e Wendel Bendelack, e conta com a direção de Alexandre Macedo, Fábio Rodrigo, Nathalia Ribas, Matheus Senra, Augusto Lana e Rodrigo Oliveira sob a direção geral de Caetano Caruso. A produção é de Mauricio Quaresma e Isabel Ribeiro, com produção executiva de Lucas Zardo, e a direção de dramaturgia a cargo de José Luiz Villamarim.