Análise: por que reprises de “A viagem” não cansam o telespectador?

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De volta ao ar pela sétima vez, a novela de Ivani Ribeiro, de 1994, segue emocionando o público e, 30 anos depois, está pronta para alcançar os corações de uma nova geração

Patrick Selvatti

Poucas novelas atravessam décadas com a força simbólica que A viagem carrega. Quase 30 anos após sua primeira exibição na TV Globo, a trama escrita por Ivani Ribeiro volta mais uma vez ao ar, agora em sua sétima reprise, a partir desta segunda-feira (12/5), no Vale a pena ver de novo.

Não se trata apenas de nostalgia. A reapresentação da novela em 2025 parece atender a uma necessidade coletiva: não somente de resgatar grandes histórias que marcaram época na teledramaturgia como também a de revisitar o que somos diante do fim — e do recomeço.

Lançada em 1994, a obra é um raro exemplar de teledramaturgia que ousou tocar em temas como suicídio, vida após a morte, obsessão espiritual e perdão sem cair no proselitismo. Inspirada por princípios do espiritismo kardecista, mas acessível ao grande público, A Viagem nos convida a pensar sobre o invisível. E talvez seja justamente isso o que a torna tão atemporal: a capacidade de tratar o mistério da existência com sensibilidade narrativa, emoção genuína e respeito à inteligência do espectador.

A história é conhecida por muitos: Alexandre (Guilherme Fontes), um jovem revoltado, se suicida na prisão e, do Além, começa a influenciar negativamente os vivos, consumido por ódio e desejo de vingança. É sua irmã Diná (Christiane Torloni) quem tenta, com amor e fé, amenizar essa destruição. O advogado Otávio (Antonio Fagundes), inicialmente seu antagonista, se torna parceiro nessa jornada espiritual — e também amorosa. Após sua morte, os dois se reencontram em uma dimensão superior, chamada Nosso Lar, onde o amor não tem barreiras físicas.

Há algo de profundamente subversivo na escolha de colocar o espírito no centro da narrativa. Em um país onde a novela é, muitas vezes, vista como espelho da realidade social — e com razão —, A viagem propõe o contrário: refletir a alma do Brasil, com suas crenças, seus dilemas morais, sua fé popular tão enraizada quanto invisível nas estatísticas. Mais do que um sucesso de audiência, a novela é um documento emocional de um tempo — e, paradoxalmente, de todos os tempos.

A direção segura de Wolf Maya, aliada à atuação icônica de um elenco afinado, ajudou a novela a alcançar seu status quase mítico. O trio central — Fontes, Torloni e Fagundes — encontrou o tom exato entre o real e o metafísico. E a trilha sonora, com destaque para A viagem, do Roupa Nova, tornou-se uam coletânea musical da própria memória afetiva nacional. Quem viveu os anos 1990 sabe o que é ouvir essa música e ser transportado imediatamente para uma época em que a televisão ainda era um altar doméstico — e a novela, quase um ritual diário.

Alexandre (Guilherme Fontes) é eterno

Maniqueísmo

Mas A viagem também pode — e deve — ser revisitada com olhos críticos. Em alguns momentos, a novela escorrega em didatismos espirituais, ou em um maniqueísmo que simplifica conflitos humanos complexos. Nem sempre o além é tratado com ambiguidade; às vezes, os bons são apenas bons, e os maus, irremediavelmente maus — até o momento da redenção final. Outro fator de observação nos dias de hoje é a existência de um céu branco, onde quase não se via uma alma negra ou indígena salva (a exceção veio quando Léa Garcia foi adicionada ao elenco da subnovela). Ainda assim, mesmo essas limitações são superadas pela coragem do tema e pela delicadeza da execução.

Reassistir à novela em 2025 é um ato quase meditativo. Em um mundo acelerado, onde o medo da morte é escondido sob mil camadas de distração e consumo, A viagem nos chama a parar. A respirar. A perguntar: o que acontece quando tudo termina? Ou melhor: o que realmente não termina?

Neste retorno, A viagem pode alcançar uma nova geração — mais conectada com questões de saúde mental, de espiritualidade plural, de busca por propósito. E pode, também, oferecer conforto a quem já perdeu alguém. Ou a si mesmo, por um tempo.

Porque no fim das contas, como nos ensinou Ivani Ribeiro, a viagem continua.

Patrick Selvatti

Sabe noveleiro de carteirinha? A paixão começou ainda na infância, quando chorou na morte de Tancredo Neves porque a cobertura comeu um capítulo de A gata comeu. Fã de Gilberto Braga, ama Quatro por quatro e assiste até as que não gosta, só para comentar.

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