Alana Cabral é Joélly, Sophie Charlotte é Gerluce e Dira Paes é Lígia. Crédito: Victor Pollalk/Globo
Patrick Selvatti
A consagração de Três Graças como Melhor Novela de 2025 nesse domingo (29/3) na cerimônia transmitida ao vivo pela TV Globo, no Domingão com Huck, não é apenas um resultado de premiação, mas um sintoma claro de um momento da teledramaturgia brasileira em que o público volta a reconhecer valor naquilo que nasce da invenção, e não da repetição.
Assinada por Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva, a novela venceu na principal votação televisiva do país, ainda que totalmente focada nas produções com a marca Globo, superando inclusive o aguardado remake de Vale tudo, reescrito por Manuela Dias a partir de uma obra original escrita pelo próprio Aguinaldo, junto com Gilberto Braga e Leonor Bassères. E essa vitória carrega um significado que vai além do troféu.
Em Três Graças, há um retorno ao espírito do folhetim clássico. Veterano de sucessos populares como A indomada, Senhora do destino e a vencedora do Emmy Império, Aguinaldo parece ter entendido algo que escapou a muitos projetos recentes: o público não rejeita o melodrama, mas o melodrama sem alma. Sua trama aposta em personagens densos, conflitos morais reconhecíveis e uma dramaturgia que se constrói na fricção entre desejo, culpa e destino. E esses elementos sempre sustentaram o gênero.
O texto, em especial, foi decisivo. Ao contrário da escrita fragmentada e frequentemente didática atribuída ao remake de Vale tudo, criticado por sua superficialidade e excesso de temas desconexos, Três Graças se organizou em torno de uma espinha dramática clara. Não há ali a ansiedade de “atualizar” a todo custo, mas o domínio da narrativa. Cada virada nasce de um personagem, e não de uma pauta empurrada.
Essa diferença estrutural reverberou diretamente na recepção. Enquanto o remake dividiu opiniões, enfrentou críticas recorrentes e terminou com audiência aquém da expectativa para um clássico desse porte, Três Graças cresceu no boca a boca, consolidando-se como uma obra de identificação. O público não apenas assistiu, mas torceu, discutiu e se envolveu. Em televisão aberta, isso ainda é o ativo mais poderoso.
Há também um fator simbólico incontornável: a rejeição às adaptações que diluem a força do original. A Vale tudo de 1988 permanece como um dos pilares da teledramaturgia nacional. Revisitá-lo exigia mais do que atualização estética, mas a compreensão de sua essência crítica. Ao esvaziar essa camada na tentativa de usurpar uma assinatura, a versão de 2025 acabou sendo percebida por parte do público como uma caricatura incapaz de sustentar o peso do legado.
Na cerimônia, a apresentação de Taís Araújo — concorrendo com a vencedora Grazi Massafera como Melhor Atriz por sua heroína esvaziada Raquel — deixou isso claro: a cena exibida como recorte foi justamente a que gerou a maior rejeição da revisitação ao novelão clássico — gerando, inclusive, um atrito legítimo entre atriz e autora. Grazi também ter vencido da veterana e sempre impecável Debora Bloch também diz muito: por mais que a intérprete de Odete Roitman tenha brilhado em cena, o texto transformou a maior vilã de todos os tempos em uma figura tão caricata e risível quanto Arminda — mas a diferença é que essa composição histriônica cabe perfeitamente em uma personagem criada, não que foi recriada.
Nesse contexto, Três Graças surge quase como resposta, que não é declarada, mas evidente. É uma obra original, que não pede licença ao passado, mas dialoga com ele por meio da linguagem, e não da cópia. Ao vencer, o “absolute novelão” reafirma uma tese antiga, mas constantemente esquecida pela indústria: a de que o público reconhece autenticidade.
Mais do que derrotar um remake, o dramalhão protagonizado por Sophie Charlotte — injustamente ignorada na lista de Melhor Atriz e lembrada pelos colegas nos discursos — consagrou a lógica de que revisitar sucessos seria um caminho mais seguro do que criar novos — mesmo que os remakes anteriores na faixa tenham logrado êxitos melhores.
Fato é que, no ano em que a TV Globo celebrou seus 60 anos, a televisão brasileira recebeu um recado claro: não é a memória que sustenta uma novela, mas a emoção presente. Conclusão clara, ainda que incômoda.
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