A primeira coisa que chama a atenção ao assistir a Carrie, versão revista do clássico pelo Prime Video, foi a trilha sonora. Geralmente, as produções de terror são embaladas por notas graves e barulhos metálicos em um tom já conhecido que remete ao medo e à tensão. A minissérie criada, roteirizada e dirigida por Mike Flanagan, contudo, foge à regra. Lana Del Rey, Conan Gray e Haute & Freddy embalam os traumas banhados a sangue e a vingança que fizeram a adolescente ganhar fama mundo afora.
Mas, antes sequer de assistir a Carrie, chamou a atenção a presença de Flanagan como showrunner. Responsável por clássicos do terror na Netflix (como A maldição da residência Hill, A maldição da mansão Bly e Missa da meia-noite), o produtor — que também escreveu os oito episódios e dirigiu o piloto — tem um currículo de respeito, especialmente na adaptação de obras de Stephen King.
Diálogos, religião e o sobrenatural
Quem conhece o trabalho de Flanagan sabe das marcas registradas. Talvez a principal delas seja a força do diálogo. Muitas vezes rotuladas como “verborrágicas”, as mensagens que Flanagan transmite envolvem muitas palavras. Algo, sim, incomum, especialmente no mundo pós-Aaron Sorkin e da cultura do lacre na internet, onde as falas são atropeladas na tela sob o pretexto de agilidade.
Outra característica marcante é a presença da religião e do sobrenatural — elementos bem próximos do público habitual de Carrie e muito bem aproveitados nesta nova produção do Prime Video.
Vale contextualizar a premissa: tudo começa quando Carrie, uma jovem de 15 anos completamente isolada do mundo pela mãe, passa a frequentar a escola. Summer H. Howell entrega uma Carrie satisfatória — um pouco mais caipira do que inocente, mas ainda assim convincente. A protagonista navega entre adolescentes frustrados e cruéis, e o resultado não poderia ser outro: a perversidade transborda.
Coadjuvantes
Desde a versão original, Carrie é cercada por uma horda de coadjuvantes marcantes, traço típico nas obras de King. Nesta adaptação, a mãe (brilhantemente interpretada por Samantha Sloyan) divide o protagonismo com Alison Thornton, que dá vida à detestável Chris, a principal vilã. Embora existam versões em que a verdadeira antagonista seja a mãe (como no livro), no Prime Video o papel cabe definitivamente a Chris — talvez uma forma de simplificar o enredo e ampliar a adesão do público. De qualquer forma, Alison entrega uma atuação à altura de tanto drama.
Ainda na seara dos coadjuvantes, vale citar a figurante Sue (Siena Agudong), personagem apagada que não marca durante a história. A menção honrosa fica com Tina (Josie Totah), a melhor surpresa do elenco secundário. Engraçada e cruel, Josie navega com maestria pelos altos e baixos da personagem, personificando a dinâmica escolar e os equívocos típicos da juventude.
Moderna e eficaz
A minissérie avança ao incorporar elementos contemporâneos: as redes sociais assumem papel central na trama. Agora, a jovem não é apenas humilhada ao menstruar na aula de educação física; o massacre se estende para perfis falsos no Instagram. O cyberbullying ganha contornos que Stephen King não previu em 1974, em um caso raro de atualização bem-sucedida de um clássico literário.
A nova versão de Carrie prova que é possível evoluir uma história consagrada, seja pela energia da música pop ou pelo retrato do assustador universo das redes sociais.

