Zilá da Costa Raymundo, diretora da Ikebana Sogetsu Brasília Branch

O caminho das flores em Brasília

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A arte da Ikebana, tradicional prática japonesa de arranjos florais, encontrou em Brasília um espaço fértil para florescer e se desenvolver ao longo das últimas décadas. Introduzida na capital nos anos 1980 pela professora Gisela Glufke, a Ikebana do estilo Sogetsu conquistou admiradores pela sua estética contemporânea e pela filosofia que valoriza a harmonia entre natureza, espaço e expressão artística.

À frente desse movimento está Zilá da Costa Raymundo, diretora da Ikebana Sogetsu Brasília Branch. A sua história se conecta à Gisela quando Zilá viu, em um evento no Hotel Nacional, os arranjos feitos por Glufke. “Quando cheguei lá e vi aqueles trabalhos, fiquei muito impressionada. Achei interessante a forma como as flores eram dispostas, com a água aparente, e me perguntei como aquilo era fixado”, recorda. 

Ao perguntar sobre a técnica, Gisela comentou que pretendia começar a ensinar, com o auxílio de professores de São Paulo. Como a região paulista tem uma grande comunidade japonesa, a escola Sogetsu já estava presente lá. Assim, vieram para Brasília uma professora japonesa e suas assistentes. 

Hoje em dia, Zilá possui uma trajetória dedicada à difusão do Kadô, o Caminho das Flores, e tem contribuído para formar novos praticantes, promover exposições e fortalecer o intercâmbio cultural entre Brasil e Japão. “Atualmente temos cerca de 60 associados, dos quais aproximadamente 20 possuem formação como professores. No entanto, nem todos optam por dar aulas. Muitos têm o conhecimento completo, mas preferem praticar apenas para si mesmos”, conta.

Zilá informa que a Escola Sogetsu é uma escola moderna de Ikebana, fundada por Sofu Teshigahara, no Japão. A palavra “Ikebana” vem de ikeru hana: ikeru é um verbo que significa dar vida, recriar ou vivificar, e hana significa flor. Assim, a Ikebana pode ser entendida como a arte de dar nova vida às flores, transformando-as em expressão artística.

“Esse fundador da Sogetsu foi influenciado, nos anos 1920, pelo modernismo. Teshigahara era pintor e admirador das artes. Ele compartilhava ideias e discussões sobre arte com artistas europeus. Então, ele criou a escola Sogetsu com a ideia de que a Ikebana não poderia continuar sempre repetindo modelos antigos e tradicionais”, destaca. 

Clube de Ikebana de Brasília

Em 1994, Zilá criou o Clube de Ikebana de Brasília. “Na época, eu estava dando aula e já tinha recebido meus diplomas do Japão. Eu sentia que muitas alunas se dispersavam depois, porque algumas eram estrangeiras e iam embora. Outras apenas terminavam o curso”. Para o movimento do Ikebana não se dissipar, a especialista buscou nutrir o gosto pela arte através do clube. 

“Precisamos compartilhar e ver as ideias dos outros. Embora exista um currículo e livros – que não são exatamente livros de estudo, mas orientações – há uma sequência a seguir. Não se começa logo fazendo arranjo livre. Existe toda uma forma tradicional, formal, que vem dos primórdios da Ikebana e permanece mesmo nas escolas modernas. Nela desenvolvemos conceitos de profundidade, porque é uma arte assimétrica”, explica. 

Esses encontros, na percepção de Zilá, são muito saudáveis, porque permitem a troca de ideias. “Quem já tem mais experiência ajuda quem está começando, e a pessoa que chega pode ver como os trabalhos estão mais desenvolvidos”, complementa.

Lembranças da infância

Zilá acredita que a vida traçou o seu caminho dentro da Ikebana. A convivência com as plantas começou ainda na infância, no Rio Grande do Sul, quando ajudava a cuidar do jardim da família e a proteger as flores das geadas do inverno. “Minha mãe sempre gostou muito de jardim e sempre colocava flores dentro de casa. Ela dizia que uma casa não precisava ter luxo, mas precisava ser limpa, organizada e ter flores frescas no vaso”, informa. 

Anos depois, já em Brasília, ao conhecer a Ikebana, ficou encantada ao descobrir que aquela relação com as flores também podia se transformar em arte e filosofia. Formada em pedagogia e com estudos em tecnologia educacional na Universidade de Brasília (UnB), ela conta que nunca imaginou se tornar professora da prática – na primeira aula, foi apenas para aprender como as flores eram fixadas nos arranjos.

Três perguntas para Zilá da Costa Raymundo, diretora da Ikebana Sogetsu Brasília Branch:

Como o público brasiliense reagiu ao estilo moderno dos arranjos Sogetsu?

O público de Brasília se encantou, porque Brasília tem tudo a ver com modernidade: arquitetura moderna, espaços amplos e espaços vazios bem delimitados. A arte japonesa, de modo geral, é muito limpa. Ela segue muito a ideia de que “menos é mais”. Então existem espaços vazios que destacam bem a flor na Ikebana. As pessoas gostaram muito. Achamos que tinha tudo a ver com o estilo moderno de Brasília e com essa escola moderna de Ikebana.

Qual a importância de criar espaços de encontro para quem pratica o chamado “Kadō”, o Caminho das Flores?

O kadô é o caminho das flores. Tudo que termina em “dô”, se prestarmos atenção, indica caminho: judô, kadô, shodô – que é a arte da escrita. O resultado final é importante, mas o caminhar também. Enquanto você está fazendo, está aprendendo. Você desenvolve disciplina, capacidade de concentração e relaxa. É um momento em que ocorre uma sequência de aprendizados. Você também vai conhecendo mais sobre botânica. São valores que talvez não sejam considerados o principal objetivo, mas que são muito significativos. 

Que mensagem a Ikebana deixa para quem vive em Brasília?

Quando cheguei em Brasília, o cerrado me passou uma mensagem de resistência e resiliência. Ele me lembrou os bonsais japoneses, com aqueles troncos tortuosos e aparência envelhecida. Existe a seca, o sol forte, depois vem o período de chuva e a vegetação se renova. É um ciclo de vida. A Ikebana ensina a olhar o mundo de forma mais sensível e equilibrada.