Em meio à rotina acelerada da cidade, há lugares que convidam a desacelerar. Mais do que servir café, o Quanto Café, localizado na Asa Norte (CLN 103), propõe uma experiência: cada xícara nasce de grãos especiais, cultivados em uma cadeia produtiva certificada e torrados artesanalmente no próprio espaço, com cuidado, técnica e afeto. Para a sócia-proprietária, que está à frente do negócio, Elaine Lina, o café deixa de ser apenas bebida e se revela como herança ancestral, capaz de contar histórias da terra e do trabalho humano.
O espaço foi idealizado em 2017 por Lina e inaugurado no ano seguinte, junto com o seu sócio, Gustavo Pimentel, contando com recursos dos próprios empresários. Com formações em áreas distintas, Lina é jornalista e administradora, enquanto Gustavo se formou em engenharia. No entanto, enxergaram no segmento gastronômico uma oportunidade de trazer à Brasília momentos especiais através da bebida e dos encontros gerados a partir da cafeteria.
“Somos primos e aprendemos em família a plantar, torrar, moer e preparar o café. Por prazer e ritual. E conhecer bem cada processo. Em 2017, na busca por desacelerar a rotina imposta por crachás de empresas e também do distanciamento humano, buscamos empreender. Juntar o possível dentro do ponto de vista de negócio visando lucro ao prazer na execução foi a receita”, destaca Lina.
A empreendedora ressalta que, para ela, o café é alimento, quando retirado 100% do fruto, da maneira correta. Lina ressalta que a pausa para apreciar a bebida é momento de reconexão interna. “Dividir o café é conexão humana coletiva. Por isso, a equipe Quanto dedica-se a manter ambiente propício: mesas com distanciamento preservando intimidade, alimentos preparados com higiene por mãos que gostam do que fazem, música de qualidade, presença de plantas vivas, trabalhador que gosta de gente”, informa.
Outro aspecto que a cafeteria busca evidenciar é o cuidado e o zelo com toda a cadeia envolvida no negócio, desde os colaboradores até os produtores de café. Por essa razão, aposta-se na redução da jornada de trabalho: a carga diária é de seis horas, garantindo ao funcionário um turno livre para cuidar de si, da família e descansar. Outro aspecto essencial para a casa diz respeito à valorização do trabalho feminino: o empreendimento faz questão de contar sempre com uma barista mulher em seu quadro e de manter a cozinha composta, em sua maioria, por mulheres.
Cafés especiais
O Quanto Café trabalha exclusivamente com cafés especiais e de cadeia produtiva certificada, o que significa que, além da qualidade do grão, todas as pessoas envolvidas – do cultivo à xícara – são remuneradas, honradas e reconhecidas. Já no que diz respeito ao plantio, Lina pontua que há vários fatores para serem levados em consideração, como o solo, clima, altitude e manejo. “Tudo isso é decisivo para que o grão seja saudável e saboroso”, explica.
Segundo a empresária, a torrefação e extração da bebida também precisam seguir processos rigorosos, para, nessa ponta da cadeia produtiva, não perder todo o trabalho anterior. Além disso, Lina informa que se o grão chega perfeito até a cafeteria, o compromisso do torrefador e do barista é extrair o melhor dele.
“Isso tem impacto no sabor e nas finanças: a qualidade quando percebida pelo cliente é melhor remunerada. E assim é possível que toda a cadeia produtiva tenha a sua remuneração devida”, complementa. Todo esse cuidado é traduzido em uma experiência única no Quanto Café: um sabor honesto e sem aditivos artificiais. Lina acredita que sentir a conexão da bebida com a natureza é essencial, visto que a bebida é elaborada a partir de um fruto, vindo da terra.
Processo de produção
A torra artesanal é um dos principais diferenciais da cafeteria, permitindo controle total sobre o desenvolvimento do café. Diferente de torrefações industriais, que trabalham com grandes volumes, os grãos do Quanto Café são torrados em pequenas quantidades, o que possibilita ajustar com precisão variáveis como tempo, temperatura e fluxo de ar.
O processo acontece em etapas bem definidas: primeiro a secagem, depois a caramelização dos açúcares — responsável pela doçura — e, por fim, o chamado crack, quando o grão se expande e passa a absorver melhor a água. Cada uma dessas fases influencia diretamente a acidez, o corpo e os aromas da bebida.
“É diferente torrar para um Espresso ou um filtrado. A troca com o cliente é essencial. Ou seja, bastante customizado. Enquanto uma torrefação artesanal extrai o melhor do fruto vivo, o industrial acaba por adicionar aromatizantes, conservantes, sabores sintéticos, estabilizantes e coisas do tipo, para exibir alto valor e ganhar com isso”, ressalta.
Três perguntas para Elaine Lina, sócia-proprietária do Quanto Café:
Quais desafios você enfrentou ao abrir e manter um negócio nesse segmento?
Talvez o maior desafio, ali em 2017, foi acessar e negociar com um setor exclusivamente masculino. Isso veio melhorando, hoje temos muitas mulheres a frente de fazendas cafeicultoras, grandes ou pequenas. O mesmo ocorre na profissão de barista, mestre de torras e acredito que em quase todas as profissões. Nós estamos conquistando espaços e isso não tem volta, é “infreável”.
Na cafeteria em si o mais desafiador é lidar com prestadores de serviços, vizinhança, parceiros. Escuto perguntas do tipo “eu quero falar com o seu sócio” ou “quero resolver com o dono, você me dá o contato?”. É cansativo, é puro sexismo, mas escolho dar passos adiante, e sei que isso é terrível para eles. Não vamos parar, não é mesmo?
Quais os diferenciais do Quanto Café?
Aqui, tudo que servimos à mesa é preparado diariamente, aos poucos e por nós. Mantemos opções sem glúten, lactose e também vegana. A carta de bebidas à base de café é ampla. Com torrefação própria, os grãos são escolhidos tanto pelo sabor quanto pelo respeito à cadeia produtiva.
Como vocês escolhem os produtores?
Temos critérios rigorosos: a constante busca por grãos ricos, e isso é influenciado pelo clima de ano a ano, além de microrregiões testadas. Também priorizamos produtoras mulheres, ou com maior participação delas, e pequenas fazendas.

