Jogadoras do Cresspom (DF) entre 2017 e 2019 denunciam terem sofrido calote
cresspom2019 DyandraLima/Cresspom/Divulgacao Elenco do Cresspom de 2019 aparece reunido, com as jogadoras sentadas no gramado em roda

Ex-jogadoras do Cresspom denunciam calote, contratos precários e alimentação inadequada

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O sonho é o combustível inicial para qualquer esporte. No futebol feminino, ainda muito marcado pelo amadorismo, muitas jogadoras apostam as fichas em uma oportunidade de disputar competições oficiais e acabam reféns de alguns clubes. O Elas no Ataque ouviu mais de 10 ex-jogadoras do Cresspom (Clube Recreativo e Esportivo de Sub-Tenentes e Sargentos da Polícia Militar do Distrito Federal), um dos mais tradicionais de Brasília, que relataram não terem recebido integralmente os valores combinados pelo período em que defenderam a equipe no Campeonato Brasileiro A2 ou no Campeonato Brasiliense, entre 2017 e 2019.

Uma delas é Tânia Maranhão, dona de duas medalhas de prata olímpicas e com uma longa história no futebol feminino. A zagueira chegou ao time em fevereiro do ano passado, como um reforço de peso para a disputa do Campeonato Brasileiro A2. Mais de um ano depois, a maranhense alega que o clube mantém dívidas relativas ao pagamento de salários e direitos trabalhistas.

Aos 46 anos, Tânia Maranhão segue atuando dentro e fora de campo. Pelo Foz do Iguaçu-PR, marcou um lindo gol de falta na vitória sobre o Atlético-GO, por 4 x 0, no último domingo. O resultado manteve viva a esperança do time paranaense de se classificar para a próxima fase do Brasileiro A2. Na Justiça, ela ingressou com uma ação trabalhista contra o Cresspom, requerendo o pagamento dos salários atrasados, as verbas rescisórias (multa de 40% sobre o valor depositado no FGTS, aviso-prévio, férias proporcionais) e a multa contratual.

As queixas contra o time de Brasília não param por aí. Mesmo diante do receio de ter a carreira no futebol prejudicada, a meia Taiana Almeida Silva foi outra jogadora que entrou com uma ação trabalhista na Justiça contra o Cresspom. A atleta baiana chegou a Brasília em março de 2019, com um documento nomeado de “contrato de atleta não profissional”.

Nele estava escrito que o objetivo era contratar a jogadora amadora para atuar em todos os campeonatos em que o Cresspom participasse durante 2019, com um valor mensal especificado. O documento, ao qual a reportagem teve acesso, tinha a assinatura do presidente do clube, Pedro Rodrigues de Carvalho. “Foi uma forma de ter certeza que ele iria me pagar. Mas não adiantou nada”, relata Taiana. Ao blog, o dirigente negou envolvimento: “Eu não assinei. Alguém deve ter assinado por mim.

“Eu só quero que ele cumpra o compromisso comigo e que isso não ocorra mais com nenhuma atleta. Ele precisa ser barrado, punido e ter mais respeito com o futebol feminino”
Taiana Almeida, ex-meia do Cresspom

Carvalho diz que, por ser um clube amador, ninguém no time do Cresspom recebe salário. Além de alegar não existir vínculo empregatício com as atletas, a defesa do clube afirma que tudo o que foi acordado com elas está quitado. Para o advogado Welder Fernandes, trata-se de uma discussão jurídica. “A Lei Pelé tem a exigência de um contrato desportivo, mas quando se trata de atletas profissionais. O futebol feminino no Brasil, infelizmente, é amador. O que é pago pelo Cresspom é uma ajuda de custo.”

Questionado sobre o documento com o valor mensal especificado a ser pago para uma das atletas jogar em todas as competições disputadas pelo Cresspom em 2019, o advogado reconhece que algumas jogadoras experientes e com mais história no futebol exigem ter um documento do clube com assinatura. “Mas, no documento, não está escrito salário. Valor por mês não necessariamente é um salário, pode ser relativo à quantia da ajuda de custo”, argumenta Fernandes.

 

Advogado alega quebra de contrato

Após dois meses no Cresspom, Taiana foi visitar a mãe em Salvador, durante a folga que o elenco ganhou após a eliminação no Brasileiro A2. Ela conta que avisou o presidente que voltaria após passar o Dia das Mães e que cobrou o salário de maio, que estava atrasado. “Estava mantendo contato com o Carvalho, mas a capitã me tirou do grupo do time em 2 de junho, sem eu entender. Desse dia para cá, não consegui falar mais com o presidente, que visualiza minhas mensagens e não me responde. Com o técnico é a mesma coisa. Falei com a agente que me indicou para o clube e ela não sabia também”, conta.

Carlos Eduardo Lopes Gonçalves, advogado que representa a atleta, analisa que houve uma espécie de quebra de contrato, pois no documento estava especificado que ela jogaria pelo Cresspom até dezembro de 2019. Para ele, o receio que muitas atletas têm de ingressar na Justiça deve-se ao futebol brasileiro ainda ser administrado de forma bastante amadora, principalmente no feminino. “Mas a realidade é que a modalidade está cada vez mais profissional e as atletas também”, opina.

“A gente só consegue mudar uma cultura quando começa a lutar pelos nossos direitos”
Carlos Eduardo Lopes Gonçalves, advogado das atletas

Na versão do presidente do clube, Taiana abandonou o time. Carvalho disse que nunca ninguém o procurou.  Mas a reportagem teve acesso a mensagens de texto em que o dirigente não responde aos questionamentos feitos pela atleta em quatro dias diferentes. Procurado pela reportagem, o técnico da equipe, Robson Marinho, apenas recomendou checar as informações com a direção do clube. Outra atleta relatou experiência similar, em que não foi comunicada sobre o desligamento e que isso teria a feito perder a oportunidade de tentar uma vaga que havia aparecido em um time do Rio de Janeiro.

O diretor de futebol da Federação de Futebol do Distrito Federal (FFDF), Márcio Coutinho, disse que a entidade não tinha conhecimento sobre o caso: “É a primeira vez que essas informações chegam ao nosso conhecimento. Não tem como a federação fazer algo, porque não temos ingerência financeira ou de gestão sobre o clube”. A Polícia Militar do Distrito Federal também explicou não ter “ingerência sobre esse fato”.

 

Atletas com acordos precários

Assim como Tânia e Taiana, a maioria das jogadoras que defenderam o Cresspom, entre 2017 e 2019, não é de Brasília. As autoras dos relatos tinham de 16 a 45 anos de idade, quando deixaram os estados onde moravam — Ceará, Rio de Janeiro, Minas Geris, São Paulo e Bahia — para jogar no time com mais títulos do Campeonato Brasiliense Feminino — sete no total.

O Cresspom também esteve inserido no cenário nacional. Disputou por sete vezes a extinta Copa do Brasil, que durou de 2007 a 2016.  Na última edição do campeonato, fez a melhor campanha do clube, chegando às semifinais.Em 2017 e 2019, o Cresspom representou o Distrito Federal na segunda divisão do Brasileirão Feminino.

Algumas das jogadoras chegaram ao clube por indicação de agente, outras por recomendação de colegas do futebol, mas, em todos os casos ouvidos pela reportagem, o acordo do clube foi feito diretamente com a atleta por meio do presidente da associação, Pedro Rodrigues Carvalho, no cargo há 27 anos. A volante Shaiane lamenta por não ter assinado nenhum contrato quando foi jogar no Cresspom, em junho de 2018: “Agora não tenho como provar o que ele me deve”.

Em geral, o acerto entre o clube e as jogadoras incluía, ao menos, a passagem de ida da cidade onde morava até Brasília e valores mensais que variam de R$ 1 mil a R$ 5 mil. Também entravam no pacote a possibilidade de ficar no alojamento, alimentação, treinamentos e academia, tudo dentro do próprio clube, além do pagamento da faculdade para as interessadas em fazer um curso superior. Na prática, porém, as atletas relatam que o pagamento dos salários não foi completamente quitado.

Após três meses recebendo apenas a metade do valor combinado, uma atleta de 19 anos contou que a mãe comprou a passagem para ela voltar para a cidade onde morava com os pais antes. As jogadoras contam que cobravam com frequência o presidente do clube. “O Carvalho jogava na minha cara que pagava a faculdade e não precisava pagar mais nada”, reclamou outra atleta. Outra esportista conta que uma amiga indicada por ela para jogar no Cresspom ficou com o nome sujo na faculdade, “porque o Carvalho não pagou a mensalidade como prometido”.

 

Moradia e alimentação inadequadas

Sem o recebimento do dinheiro combinado e sem família em Brasília, as jogadoras acabavam voltando para as respectivas cidades e passavam a ser ignoradas pelo presidente nas tentativas de cobrá-lo. “O Carvalho move mundos e fundos para a gente ir para lá e depois nos larga e não atende ligação nem responde mensagem”, critica a lateral Sarah Silva Moraes de Assunção.

A jogadora esteve por quatro meses no Cresspom para a disputa do Candangão feminino de 2019.  Ela diz que não recebeu o equivalente a três meses e ainda lamenta a falta de assistência após ter sofrido uma lesão no ombro.

“Não é só a frustração pelo dinheiro, mas pelos sonhos”
Sarah Assunção, ex-lateral do Cresspom

“O mais feio é que ele fica devendo as atletas e continua contratando mais jogadoras”, lamenta uma das atletas. As reclamações ainda abrangem moradia e alimentação inadequadas para esportistas de alto rendimento. “Lanche da tarde era leite, achocolatado e bolacha. No café da manhã, tinham essas coisas e mais o saco de pão. Pegávamos o jantar na hora do almoço para comer mais tarde”, relata uma jogadora, que tinha 18 anos quando chegou ao Cresspom.

O técnico Marinho, no entanto, rebate as declarações das atletas. “Eu asseguro que tanto alojamento quanto alimentação são ideais”. Carvalho também é contundente em descrever a estrutura do clube.

“Ginásio, alojamento, campo. É tudo dentro do clube. A atleta não precisa fazer comida dentro do clube. Tenho atleta que fez dois cursos superiores comigo e mora lá até hoje. Eu sempre ajudo quando me pedem, ajudo com medicamentos para família”

Carvalho, presidente do Cresspom

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