Sob pressão no Vasco, Sá Pinto arrisca ao usar sistema tático raro na biografia como técnico

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Um dos meus deveres na profissão é estudar o repertório tático dos técnicos. Um dia desses, dediquei um tempo para pesquisar os sistemas de jogo usados pelo treinador do Vasco nos clubes por onde passou na tentativa de entender as ideias do português Ricardo Sá Pinto. Para minha surpresa, a linha de três zagueiros adotada por ele no time carioca (3-5-2/3-4-2-1), inclusive na eliminação desta quinta-feira nas oitavas de final da Copa Sul-Americana contra o Defensa Y Justicia da Argentina, é praticamente uma novidade na carreira do senhor de 48 anos. Claro, não é proibido inovar. Muito menos reinventar-se. Mas perguntar (ainda) não custa nada: esse é o momento certo para recorrer a um estilo de jogo complexo, ou seja, que demanda muito tempo de trabalho para funcionar com o mínimo de excelência?

Defesa com três zagueiros dá trabalho. Tite fez bem no Grêmio campeão da Copa do Brasil 2001. Luiz Felipe Scolari levou o Brasil ao penta assim na Copa 2002. Muricy Ramalho tornou o esquema marca registrada do São Paulo no tri do Brasileirão, em 2006, 2007 e 2008. Antes, Paulo Autuori havia levado o tricolor aos títulos da Libertadores e do Mundial de Clubes neste sistema. Há prós e contras. Em 1990, Sebastião Lazaroni fracassou no Mundial da Itália morrendo abraçado ao 3-5-2 na derrota para a Argentina nas oitavas de final. Para alguns críticos, a alternativa é defensiva. Chamada até de retranca. Há controvérsias.

O fato é que, antes de desembarcar no Vasco, Ricardo Sá Pinto recorreu ao sistema em dois jogos do Al-Fateh, ambos na Arábia Saudita, em 2016. Perdeu para o Al-Raed, por 3 x 2, e para o Al Ahli, por 1 x 0. O velho normal na carreira do lusitano é usar linha de quatro na defesa. Ponto. Foi assim no Sporting Braga, Légia Varsóvia, Standard Liège, Atromitos, Belenenses, OFI Creta, Estrela Vermelha e Sporting. No entanto, Sá Pinto escolheu sair da zona de conforto justamente neste início de trabalho no Vasco. São seis jogos no 3-5-2/3-4-2-1 e apenas uma mísera vitória contra o Sport. A cada jogo, ele precisa consultar o manual do formato e fazer as devidas correções de rumo.

Enquanto o modelo exige ajustes, há cobrança por resultados. Se o sistema é a solução para blindar a defesa, por que o Vasco perdeu para o Ceará por 4 x 1, em São Januário? Se é uma alternativa para o time ser mais ofensivo, o que explica ter feito apenas cinco gols em cinco partidas nesta configuração tática?

Não há sequer tempo para argumentações teóricas. O Vasco está atolado na zona de rebaixamento do Brasileirão. Ameaçado de cair pela quarta vez em 12 anos para a Série B. Foi eliminado nesta quinta da Copa Sul-Americana pelo Defensa Y Justicia do jovem técnico Hernan Crespo. Sim, aquele ex-centroavante da seleção argentina. Antes, havia tombado na Copa do Brasil diante do Botafogo. Sequer figurou nas finais de turno do Carioca. É grave a crise. Faz tempo…

Se a solução fosse apenas o sistema tático seria menos difícil resolver. Faltam jogadores à altura da história do Vasco. Técnico bom, outra tradição cruzmaltina. Mais do que tudo isso: um presidente capaz de juntar e não de separar um clube rachado. Um líder que coloque um ponto final na herança maldita do euriquismo. Do apego ao cargo. Das eleições intermináveis. Se a ordem no centenário clube não começar de fora para dentro, não haverá sistema de jogo — nem o 3-5-2 do Ricardo Sá Pinto — capaz de curar as mazelas de um gigante adormecido há tanto tempo.

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Marcos Paulo Lima

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