O Japão evoluiu. Em termos táticos, físicos e competitivos. A seleção nipônica na Copa do Mundo de 2026 reúne um grupo moldado em alto nível na Europa, adota um sistema sofisticado com três zagueiros e enfrenta campeões mundiais sem qualquer vestígio de reverência. Possível adversário do Brasil nos 16 avos de final, o conjunto dirigido por Hajime Moriyasu tornou-se um dos exemplos mais consistentes de como continuidade e planejamento podem reposicionar uma nação no futebol de elite.
O empate por 2 x 2 diante da Holanda na estreia, a vitória por 4 x 0 sobre a Tunísia reforçaram uma tendência consolidada. Alemanha, Espanha, Inglaterra e Brasil foram superados em diferentes momentos do ciclo recente. O padrão se repete. Não soa como exceção.
Moriyasu encarna essa transformação.
Aos 57 anos, o treinador personifica a evolução estrutural do futebol japonês. Ex-volante da seleção nacional, integrou a geração que viveu o nascimento da J-League em 1993 e acompanhou de dentro a profissionalização acelerada do esporte no país. Antes de chegar ao comando principal em 2018, percorreu todas as etapas da engrenagem federativa, das categorias de base ao trabalho com a equipe olímpica.
A trajetória ajuda a explicar a clareza de identidade exibida em campo.
Em outubro de 1993, ainda como jogador, Moriyasu esteve em campo em um dos episódios mais marcantes da história do futebol japonês. Na última rodada das Eliminatórias Asiáticas para a Copa do Mundo de 1994, o Japão vencia o Iraque por 2 x 1 até os acréscimos, resultado que garantiria a classificação inédita ao Mundial dos Estados Unidos.
Aos 46 minutos do segundo tempo, o iraquiano Jaffar Omran marcou o gol de empate em Doha, no Catar. O apito final selou a eliminação e eternizou o episódio como a “Agonia de Doha”. O trauma atravessou gerações.
Três décadas depois, o antigo volante lidera uma equipe liberada desse tipo de peso ao enfrentar potências do futebol mundial.
Entre esses dois pontos está uma influência decisiva.
Quando Zico chegou ao Japão no início dos anos 1990, o futebol local ainda buscava identidade. No Kashima Antlers, o brasileiro ajudou a estruturar métodos de treino, cultura profissional e padrões de competitividade. Moriyasu, então jogador da liga nascente, conviveu diretamente com esse processo de transformação.
O elo de Zico com o atual treinador vai além do simbolismo. É formativo.
A estabilidade de sete anos, 10 meses e 20 dias, a terceira entre os 48 técnicos da Copa, atrás apenas de Didier Deschamps e de Zlatko Dalic, permitiu a Moriyasu construir um modelo de jogo raro entre seleções nacionais. O Japão atua, em geral, com linha de três zagueiros, variando entre 3-4-2-1 e 3-4-3. A ideia não é defensiva. Funciona como mecanismo de expansão ofensiva, liberando alas, qualificando a saída de bola e criando superioridade numérica nos corredores.
Com posse, o desenho se transforma em um 3-2-5, aproximando a equipe das tendências mais avançadas do futebol de clubes europeu. Sem a bola, a resposta é imediata: pressão coordenada, compactação vertical e recuperação em zonas altas.
O funcionamento coletivo é sustentado por uma geração moldada fora do país, em centros de alto nível do futebol europeu. A Bundesliga, em especial, tornou-se uma das principais portas de entrada e desenvolvimento de jogadores japoneses na elite, acelerando adaptação a intensidade, contato físico e transições rápidas.
Takefusa Kubo organiza a criatividade entre linhas. Kaoru Mitoma oferece desequilíbrio pelos lados. Daichi Kamada contribui com mobilidade entre setores e chegada na área.
Na estrutura defensiva, Ko Itakura e Hiroki Ito formam a base do sistema com três zagueiros, garantindo saída qualificada e imposição física. Takehiro Tomiyasu amplia a versatilidade do setor, podendo atuar tanto na linha de três quanto em uma linha de quatro.
Pelos lados, Junya Ito e Ritsu Doan dão profundidade e agressividade ao jogo ofensivo.
O Japão já não entra em jogos contra seleções da elite mundial com postura de teste. Entra com plano de jogo, organização e convicção.
As vitórias sobre Alemanha e Espanha na Copa de 2022, somadas a atuações competitivas diante de Brasil e Inglaterra, consolidaram uma mudança de percepção. O que antes era surpresa passou a ser consistência.
A transformação mais profunda talvez não seja tática.
É mental.
Durante anos, o Japão enfrentou potências com respeito excessivo. Hoje, esse comportamento desapareceu. A equipe compete em igualdade psicológica. Não espera o erro do adversário — provoca o erro.
Esse processo tem raízes históricas. A chegada de nomes como Zico ao futebol japonês nos anos 1990 ajudou a estruturar profissionalismo e ambição. Moriyasu surge, em parte, como produto desse ciclo de evolução interna.
O resultado é uma seleção que já não se define pelo que foi.
Mas pelo que se tornou.
Na Copa do Mundo de 2026, o Japão não se apresenta mais apenas como um adversário organizado. É uma equipe que força as grandes potências a reconsiderarem o jogo. No futebol de seleções, isso é uma mudança de patamar.
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