Antônio Wilson Honório, o Coutinho: 11/6/1943 - 11/3/2019.
Conversei com Coutinho pela última vez em 2016. Um longa entrevista por telefone sobre a possibilidade de Gabriel Jesus quebrar o recorde do ídolo do Santos e se tornar o artilheiro mais jovem da história do Campeonato Brasileiro unificado, ou seja, a contar de 1959. Foi um bate-papo inesquecível. Com uma pitada de marra, mas também de simplicidade, de humildade. “Eu não vejo jogo do Palmeiras, só vejo do Santos. Pelo que me dizem, o menino é bom de bola. Eu já fiz a minha vida, parei de jogar há 40 anos, que ele faça a (vida) dele. Não tenho preocupação nenhuma com isso, se ele se tornar o caçula dos artilheiros, vou dar a ele os meus parabéns, nenhum recorde é eterno”. Coutinho continua sendo o mais jovem artilheiro da história do Brasileirão. E com a saída cada vez mais precoce dos nossos talentos pode, sim, ser eterno.
Mas este post é para recordar uma crônica inesquecível escrita por um craque das letras — Nelson Rodrigues — sobre o craque Coutinho.
O texto é simplesmente genial.
Boa leitura!
?
***********
POR NELSON RODRIGUES*
Amigos, o jogo Santos x Vasco, que deu o título ao Santos, comporta vários personagens da semana. Antes de mais nada, teríamos a diretoria do clube da Cruz de Malta. E que fez ela, a diretoria do Vasco da Gama, para que assim eu a destaque, em alto relevo? Fez apenas isto: atirou às feras um time de reservas, remeteu o time de reservas para o matadouro do Pacaembu. Qualquer paralelepípedo previra o que, fatalmente, aconteceu. O Santos deu um passeio, um baile, um banho de futebol.
Imagino que, a essas horas, nas prateleiras de São Januário, as taças, os troféus inumeráveis hão de estar chocalhando de humilhação. Vamos e venhamos: a Cruz de Malta não merecia tão horroroso vexame. E o velho almirante, o próprio do Caminho das Índias, se vivo fosse, estaria sentado num meio-fio, a chorar lágrimas de esguicho. Glória, pois, ao imortal Barbosa. Debaixo dos três paus, ele foi algo como uma rocha oceânica, como uma bastilha invicta. Amigos, sua velhice não é velhice, mas uma soberba, uma salubérrima eternidade. E o falso velhinho impediu que a goleada fosse mais abundante, mais torrencial.
Mas eu não farei da diretoria cruz-maltina o meu personagem da semana. Não. Repito: o meu personagem da semana há de ser um santista. E penso no ataque. Sim, amigos: o Santos não é como os outros. Qualquer time é um conjunto, que inclui o goleiro, a zaga, os médios e os cinco dianteiros. No Santos, não. No Santos tudo é ataque e só ataque. A defesa pode falhar, o goleiro pode papar frangos homéricos, frangos camonianos. Mas desde que o ataque esteja em estado de graça, de plenitude, não há o que temer.
A gente não sabe como se chama o quíper, a gente não se lembra como se chama o zagueiro. O que ninguém esquece é a linha, com suas penetrações fulgurantes, suas tramas geniais. Basta dizer o seguinte: o Santos tem um Pelé. Eu sei que Pelé, contra os ingleses, jogou pedrinhas. Mas é Pelé mesmo jogando mal, e vou mais além: Pelé, mesmo em casa, mesmo lendo gibi, já infunde um pânico religioso. E, além do Pelé, o ataque do Santos tem o Coutinho.
Lembro-me que ao ouvir falar em Coutinho, pela primeira vez, tomei um susto. Comentei, então, de mim para mim: “Coutinho não é nome de jogador de futebol!” De fato, o nome influi muito para o êxito ou para o infortúnio. Napoleão, se tivesse outro nome, já seria muito menos napoleônico. Outro exemplo: por que é que Domingos da Guia foi o que foi? Porque esse “da Guia” dava-lhe um halo de fidalgo espanhol, italiano, sei lá. Ainda hoje, o sujeito treme quando ouve falar em “da Guia”.
“Coutinho não é nome de jogador de futebol! O sujeito que se chama apenas Coutinho dá logo a ideia de pai de família, de Aldeia Campista, Vila Isabel, Engenho Novo, com oito filhos nas costas e a simpatia pungente de um barnabé. Pois bem. Apesar de chamar-se liricamente Coutinho, o meu personagem da semana é um monstro, um Drácula, um Vampiro da Noite de futebol. Guardem esse nome de pai de família e de barnabé: Coutinho. Ou muito me engano ou estará ele no escrete brasileiro que, se Deus quiser, vai ser bicampeão no Mundial do Chile”
Mas o Coutinho tem contra si o nome. O sujeito que se chama apenas Coutinho dá logo a ideia de pai de família, de Aldeia Campista, Vila Isabel, Engenho Novo, com oito filhos nas costas e a simpatia pungente de um barnabé. Pois bem. Apesar de chamar-se liricamente Coutinho, o meu personagem da semana é um monstro, um Drácula, um “Vampiro da Noite” de futebol.
Não sei se me entendem a imagem. Mas o Coutinho não sugere outra coisa, senão o sujeito que come a bola de uma maneira, por assim dizer, material, física. Ao sair de campo, parece-lhe escorrer dos lábios o sangue, ainda vivo, ainda efervescente da bola recém-vampirizada.
As inteligências simples, bovinas e, atrevo-me mesmo a dizê-lo, vacuns, hão de rosnar: “Literatura!” Parece, amigos, parece! Mas o povo, com o seu instinto agudo, sua vidência terrível, reconhece e aponta os jogadores que “comem” a bola, como se a estraçalhassem nos dentes, fazendo esguichar o sangue da redonda. E se, na verdade, existem os “tarados” da pelota, Pelé ou Coutinho há de ser um deles. Com o doce e inofensivo nome de Coutinho, o meu personagem fez, ontem, contra o Vasco, barbaridades sem conta.
A um confrade que veio, de avião, do Pacaembu, eu perguntei: “Que tal o Coutinho?” O colega baixa a voz: “Bárbaro!” Insisti: “E o Pelé?” Resposta: “Bárbaro!” Fui adiante: “E Dorval? Pepe?” A tudo, o sujeito respondia, de olho rútilo: “Bárbaro!” Então, eu me convenci, de vez, que o ataque do Santos se constitui, realmente, de sujeitos que não respeitam e, pelo contrário, brutalizam a bola, e cravam, nela, os seus caninos de vampiro. Só o Coutinho fez, contra a velhice genial e quase imbatível de Barbosa, dois gols. Dizem que, nas bolas altas, ele se tornava elástico, acrobático, alado. O seu salto realmente era um voo.
Guardem esse nome de pai de família e de barnabé: Coutinho. Ou muito me engano ou estará ele no escrete brasileiro que, se Deus quiser, vai ser bicampeão no Mundial do Chile.
Santos 3 x 0 Vasco, 17/5/1959, no Pacaembu, pelo Torneio Rio-São Paulo, Santos campeão. Na época desta crônica, Coutinho tinha — acredite ou não — dezesseis anos incompletos e despontava como o mais perfeito parceiro de Pelé. Foi à Copa do Chile como reserva de Vavá.
[*Manchete Esportiva, 23/5/1959] Crônica reproduzida do livro A Pátria em Chuteiras, Companhia das Letras.
A repetição é a mãe da retenção. Abel Ferreira manteve a escalação inicial do…
Gustavo Marques conseguiu piorar uma das semanas mais vergonhosas do futebol nesse sábado na eliminação…
A tolerância zero com técnicos de futebol chegou ao futebol feminino. Atual pentacampeão da…
As entrevistas coletivas de Filipe Luís são ótimas. Dificilmente deixam perguntas sem respostas. No entanto,…
Luiz Carlos Souza tinha um tabu pessoal. O técnico do Gama jamais havia passado da…
O Botafogo acumula seis derrotas consecutivas na temporada. Perdeu duas vezes para o Fluminense e…