Pedro comemora o gol da classificação: artilheiro da Libertadores. Foto: Alexandre Vidal/Flamengo
Há quem lembrará um dia do elenco do Flamengo como derrubador de técnico. Mas certamente existirá quem o valorize pelo profissionalismo na interpretação das diferentes linguagens do futebol com as quais teve de conviver. A contar de 2019, no início da Era Landim, o time rubro-negro teve sete técnicos distintos: Abel Braga, Jorge Jesus, Domènec Torrent, Rogério Ceni, Renato Gaúcho, Paulo Sousa e Dorival Júnior. Três levaram a equipe no mínimo às semifinais do principal torneio de clubes do continente — a Copa Libertadores da América.
Em condições normais de temperatura e pressão, quem vê a quantidade de mudanças e de ideias diferentes de jogo em quatro anos não acredita que isso tenha sido possível. Pois foi, e muito por causa de um elenco difícil de lidar, claro, mas extremamente talentoso e comprometido com o esforço homérico feito por Eduardo Bandeira de Mello lá atrás e Rodolfo Landim no atual mandato para manter o clube financeiramente saudável.
Não há bola de cristal capaz de prever se o Flamengo passará ou não por Vélez Sarsfield ou Talleres depois de eliminar o Corinthians por 3 x 0 no placar agregado das quartas de final. A classificação foi consolidada nesta terça-feira com uma exibição considerada pálida para os mais exigentes, mas segura na interpretação de quem entende a dimensão do adversário e do treinador Vítor Pereira. O português mostrou antídotos contra o modelo de Dorival Júnior.
Um dos desafios do comandante rubro-negro é fazer adaptações. Tornar o Flamengo menos previsível para a missão de vencer o Athletico-PR, na Arena da Baixada, no duelo de volta das quartas de final da Copa do Brasil, e os confrontos de setembro pelas semifinais da Libertadores. Há um parâmetro importantíssimo no meio do caminho. O duelo com o Palmeiras, daqui a uma semana e meia, no Allianz Parque, será um balizador importante para o caminho escolhido.
Por enquanto, cabe aos torcedores rubro-negros desfrutar o que faz esse elenco histórico. Nunca antes na história do Flamengo o time chegou tantas vezes às semifinais da Libertadores em um prazo tão curto de tempo. E repito: com tantas trocas sucessivas de treinador.
Em 2019, o português Jorge Jesus usou a linguagem europeia do futebol para transformar um time que não se encontrava sob a batuta de Abel Braga em uma inesquecível máquina de jogar bola. No ano passado, Renato Gaúcho dialogou com o elenco mais caro do país usando o idioma dos boleiros. Menos tatiquês e mais papo de vestiário. Conquistou o elenco, avançou à final da Libertadores e amargou o vice por causa da dificuldade para reinventar um Flamengo manjado.
Dorival Júnior desembarcou há dois meses vestido de bombeiro. Herdou um elenco em guerra com o antecessor, Paulo Sousa, e usou a linguagem da pacificação. O Flamengo voltou não somente a ser feliz, mas, principalmente, a jogar futebol de uma maneira consistente. Ainda é cedo, mas Dorival Júnior disputa com Rogério Ceni o status de melhor trabalho pós-Jesus. Sim, Ceni fracassou nas oitavas de final da Libertadores de 2020 ao ser eliminado nos pênaltis pelo Racing, no Maracanã, porém levou o elenco aos títulos do Brasileirão, Supercopa e Carioca.
O Flamengo de Dorival Júnior ainda não ganhou nada, mas tem um mérito: é mais organizado, por exemplo, do que o de Renato Gaúcho. É maduro e paciente para lidar com dificuldades como as impostas pelo Corinthians no primeiro tempo do jogo de volta. Willian perturbou o lado direito da defesa. Obediente taticamente, o adversário quebrou a saída de bola e a troca de passes do Flamengo ao alargar o campo e obrigar o time de Dorival a ficar espaçado, distante um do outro para a fluidez do jogo. Arrascaeta, Pedro e Gabigol tinham dificuldade para se aproximar. Everton Ribeiro e Rodinei eram os únicos escapes.
Para sorte do Flamengo, três jogadores estavam em boa noite. O goleiro Santos foi impecável na finalização de Adson no primeiro tempo. Um gol do Corinthians no início da partida poderia ter mudado o enredo da partida. Léo Pereira usou uma virtude do início de trabalho de Dorival: o lançamento longo capaz de quebrar linhas do adversário. Foi dele o lançamento para Arrascaeta, o principal personagem da série contra o Corinthians. O meia uruguaio fez aquele golaço na Neo Química Arena e protagonizou a bela trivela para o impecável Pedro eliminar o Corinthians e levar o Flamengo à terceira semifinal em quatro anos com diferentes linguagens do futebol: a de Jorge Jesus, Renato Gaúcho e Dorival Júnior. Palmas para esse elenco.
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