Bolsonaro e Moro na final da Supercopa do Brasil deste ano no Mané Garrincha. Foto: Sergio Lima/AFP
O presidente da República Jair Bolsonaro e o ex-ministro da Justiça Sergio Moro talvez não tenham notado, mas o “happy hour” em estádios de futebol depois do expediente ou em fins de semana de folga ensinou o tempo todo como o relacionamento entre eles seria tenso, com guerras de vaidade, e poderia rachar a base, ou melhor a torcida governista, a ponto de transformá-los em dois times que duelarão no tapetão do Supremo Tribunal Federal. O ministro Celso de Mello determinou nesta segunda-feira abertura de inquérito sobre as denúncias contra o Chefe de Estado.
Ambos percorreram juntos algumas arenas do Brasil. Ocuparam as tribunas de honra. Disputaram a popularidade dos torcedores. Usaram a arquibancada para se proteger em momentos difíceis, como as denúncias da Vaza Jato e as vaias ao Chefe de Estado nas semifinais da Copa América, no Mineirão, em Belo Horizonte, no duelo com a Argentina de Lionel Messi.
Testemunhei pelo menos quatro vezes in loco partidas em que ambos estavam no estádio. Duas delas aqui em Brasília. A primeira foi muito simbólica. Sergio Moro estava sob pressão. Conversas vazadas pelo site The Intercept Brasil deixaram o ex-juiz fragilizado no cargo. Em meio a boatos de demissão, Jair Bolsonaro surpreendeu. Levou o ministro a tiracolo ao jogo entre CSA e Flamengo, no Mané Garrincha, pela nona rodada do Campeonato Brasileiro do ano passado. O primeiro recado a Moro era evidente: o apoio durante aquele “hapy hour” custaria caro ao então ministro. No mínimo reciprocidade nas instabilidades do presidente.
Populista, Jair Bolsonaro é um torcedor diferente de Sergio Moro. Canta e vibra pelo Palmeiras. Participou da festa do título no gramado do Allianz Parque um mês depois de ter sido eleito presidente. Entregou a taça ao clube do coração no Brasileirão 2018. No entanto, adora virar a casaca. Ganha camisas de times e não tem o menor constrangimento de usá-las — mesmo que seja a do maior concorrente alviverde no atual cenário.
Antes da vitória do Flamengo por 2 x 0 sobre o CSA, Bolsonaro pediu aos torcedores uma camisa do clube carioca – concorrente do então líder Palmeiras na maratona pelo título — e vestiu. Parte da torcida rubro-negra o exaltou aos gritos de “mito”. Pouco para o ego dele.
Bolsonaro virou-se para a torcida e pediu outra camisa do Flamengo. Ao recebê-la, entregou a Sergio Moro e praticamente o forçou a usá-la. O ex-ministro é um torcedor discreto do Athletico-PR. Foi flagrado algumas vezes na Arena Baixada torcendo à paisana pelo Furacão. Bolsonaro ignorou a fidelidade a um clube – algo praticamente inegociável entre apaixonados e apaixonadas por futebol. Estava ali o segundo recado de Bolsonaro a Moro: em algum momento de tensão, o ministro teria de virar a casaca para ele e o chefe, principalmente, ficarem bem na fita com os torcedores-eleitores.
Sem graça, Moro recebeu a camisa do Flamengo das mãos de Bolsonaro e vestiu por cima do terno e da gravata para ficar bem na foto ao lado do presidente, e ser ovacionado pela ala bolsonarista da torcida, principalmente da cúpula rubro-negra, que não esconde a proximidade com o presidente. Moro deixava a arena aliviado num dia difícil para ele.
O ex-ministro engoliu até “turnês” por estádios. Quem o conhece no Paraná testemunha ao blog que Moro não é um torcedor praticante do Athletico-PR. A paixão pelo time é discreta, como se viu na decisão da Supercopa do Brasil, no Mané Garrincha. Foi à arena com Bolsonaro naquela manhã de domingo sem vestir a camisa do Furacão. Em um sinal de que havia aprendido uma das lições da política, ficou no muro nas redes sociais e escreveu assim no Twitter. “Na final da Supercopa do Brasil, com Jair Bolsonaro, torcendo para o rubro-negro”. Qual rubro-negro? Os dois clubes vestem vermelho e preto. O paranaense de Maringá evitou escrever Furacão para ser politicamente correto.
Quem não era figura assídua em estádios passou a ser na marra como ministro de Bolsonaro. Foi a partidas de clubes e da Seleção. Protegeu e foi blindado pelo presidente, como na final da Copa América. O Chefe de Estado havia sido vaiado quatro dias antes, em Belo Horizonte, na semifinal contra a Argentina, ao desfilar pelo gramado do Mineirão.
Paralelamente, a revista Veja, em parceria com o The Intercept Brasil, vazava novas denúncias contra Moro. Bolsonaro decidiu ir à final contra o Peru com o ministro da Justiça. Transformou o jogo em um teste de popularidade. “Pretendo, domingo, não só assistir à final do Brasil com o Peru, bem como, se for possível e a segurança me permitir, iremos (Bolsonaro e Moro) ao gramado. O povo vai dizer se nós estamos certos ou não”, afirmou. Bolsonaro pisou no gramado na festa do título e foi ignorado pelo técnico Tite em uma cena constrangedora no campo de jogo do Maracanã.
Enquanto isso, o prestigiado Sergio Moro tuitava: “Brasil e Peru fazem na Copa América o clássico da Lava Jato/Caso Odbrecht. Foram os dois países da América Latina que mais agiram em processos criminais contra a corrupção. Houve intensa cooperação do Brasil com o Peru. Os dois países ganharam. Pena que no futebol só um pode ganhar”.
Dezesseis meses depois do início da relação, o casamento virou mais um divórcio traumático na biografia de Jair Bolsonaro. As turnês de ambos pelos estádios mostrava sutilmente que, em algum momento, alguém teria de ceder. Virar a casaca. Abrir mão de algumas convicções e até princípios para vestir a camisa ideológica do outro.
Como se diz no futebolês, Moro tomou bola nas costas do ex-parceiro de arquibancada. Escolheu sair de cena. Prova de que a torcida não era tão organizada como aparentava. O racha na arquibancada abriu um campeonato à parte. Em vez de dois, temos 200 milhões de torcedores nas arquibancadas à espera do desfecho da final cujo campeão deve ser decidido nos tapetões do Supremo Tribunal Federal (STF), da Câmara dos Deputados, do Senado…
O “árbitro”, ou melhor, ministro Celso de Mello, apitou o início do jogo. Abriu inquérito contra Bolsonaro para apurar as denúncias de Moro. Acabou o “happy hour” nos estádios. Os companheiros de estádio caíram nas mãos do tapetão. E a torcida, até então organizada, está dividida entre bolsonaristas e moristas. Quem sobreviverá?
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