Aos 81 anos, o craque do Brasil na conquista do tricampeonato, Jair Ventura Filho, o Jairzinho, continua sendo um furacão por onde passa. Único jogador a balançar a rede em todas as partidas em uma edição da Copa do Mundo com sete gols em em seis jogos na Copa de 1970, o camisa 7 se orgulha de cada lembrança em entrevista exclusiva ao Blog Drible de Corpo em um restaurante de um dos cartões-postais de Brasília.
Ao fim da conversa, foi impossível driblar as filas com pedidos de autógrafos, ou melhor, selfies e fotos na era tecnológica. Colheita de quem semeou simpatia no coração de cada um dos 90 milhões em ação como dizia o hit da época na campanha da melhor Seleção da história. No bate-papo a seguir, o eterno camisa 7 Jairzinho abraça a era dos pontas, minimiza a ausência de um centroavante raiz, como Romário ou Ronaldo, dá dica a Carlo Ancelotti sobre como resolver a carência e não deixa pergunta sem resposta: ele fala sobre os atos racistas contra Vinicius Junior e do trabalho do filho, Jair Ventura, técnico do Vitória na Série A do Campeonato Brasileiro. Bem-humorado, Jairzinho alfineta até o amigo Gerson, que orgulha-se de tê-lo colocado na cara do gol.
Qual é a sua avaliação dos jogadores disponíveis para as escolhas do Ancelotti?
Jairzinho — O Brasil está vivendo um momento de entressafra. Está buscando a estabilidade no futebol mundial. Eles (adversários) lá fora sabem como o Brasil joga? Ninguém sabe! Nós também não. Hoje, qual seleção conseguirá ser campeã mundial? Isso é bom. O nosso estilo ofensivo vai nos fazer novamente voltar a estrelar. Eu penso e vejo assim.
O que acha do Grupo C na Copa: Brasil, Marrocos, Haiti e Escócia?
Jairzinho — Com respeito a todos eles, só o Brasil é campeão do mundo. Isso nos fortalece ainda mais e dá confiabilidade para a conquista de mais um título.
O senhor concorda que hoje vivemos a era dos pontas no futebol mundial?
Jairzinho — Jogar mais por um setor é reflexo do momento do futebol mundial. Está sendo aqui no Brasil e lá fora. É bom, até porque todos nós nos conhecemos. Vai ganhar a Copa quem tiver mais condição física, qualidade técnica e disciplina tática. Não vai ter surpresa. Todos nós sabemos como jogam as seleções de ponta. Na minha época, os pontas atuavam na posição de origem. Hoje, jogam invertidos. Isso faz parte da criatividade do futebol.
Mas não pode aparecer uma Hungria de 1954, uma Holanda de 1974?
Jairzinho — Pode acontecer uma surpresa como foi a Hungria em 1954. Não era seleção de ponta, fez um sucesso, mas não ganhou. Isso pode acontecer, os acidentes dentro da competição, mas o Brasil ainda continua sendo favorito.
A Holanda nos surpreendeu em 1974…
Jairzinho — A Seleção Brasileira de 1974 não era a mesma de 1970. Estava se renovando… A Seleção é um instrumento momentâneo…
Dá para ganhar a Copa sem um centroavante?
Jairzinho — Isso depende muito do treinador. Exemplo: o Tostão não era centroavante e jogou de centroavante na Copa de 1970. Eu não era centroavante e joguei de centroavante. Tudo é momento e a visão do treinador, ou seja, encontrar uma forma de o Brasil jogar na qual ele vai depositar toda a confiança em um centroavante, no ponta direita, no ponta esquerda ou no meia de ligação.
A Copa de 1970 foi o seu auge físico, técnico e tático?
Jairzinho — Foi o meu auge. Foram seis jogos e eu fiz sete gols. Estou no Guinness Book como único jogador de Seleção a ter feito gol em todos os jogos na Copa do Mundo.
Quais foram os gols mais importantes?
Jairzinho — O primeiro contra a Tchecoslováquia e aquele contra a Inglaterra. A Itália (final) já estava no segmento. Tinha uma maneira de jogar e nós conhecíamos. Cada país tem uma filosofia técnica e tática. Não muda. Vocês próprios da imprensa não deixam mudar (risos).
Temos capacidade de surpreender na Copa?
Jairzinho — O futebol foi criado para ser uma arte da surpresa. Isso é o que eu adoro e gosto de ver. Estamos preparados para surpreender eles todos pela formação exigida hoje dos jogadores.
Quem são os seus candidatos ao título?
Jairzinho — Eu não tenho favorito. Gosto de ver um bom futebol, e que esse bom futebol sensibilize o torcedor e a vocês da imprensa. Isso é o que eu quero.
Gerson me disse outro dia que o deixava na cara do gol…
Jairzinho — Eu brincava muito com o Gerson. Ele falava para todo mundo que me colocava na cara do gol. Eu respondia: ‘eu vou botar você na cara do gol, mas eu quero ver você fazer o gol’. Botar na cara do gol é fácil, agora eu quero ver fazer o gol. É o que eu fazia. Além de eu estar na cara do gol, eu sabia fazer o gol.
Os nossos pontas de hoje sabem fazer gol?
Jairzinho — Hoje, estamos muito bem. Temos jogadores ofensivos de alta qualidade, de criatividade, que não tínhamos faz tempo. De improvisação, de ocupação de espaço. Mesmo sem a oritentação do treinador, eles têm leitura de jogo e sabem detectar onde está a falha do adversário, vão lá e fazem a diferença.
Um deles é o Vinicius Junior. Como o senhor vê essa onda de racismo contra ele?
Jairzinho — Eu lamento que isso esteja acontecendo. O Brasil é um país miscigenado, de todas as cores. todas as raças. Somos o país de todos. Temos todas as cores, nacionalidades. Somos um país acolhedor. Eu acho isso rico. Qualquer um pode viver, se estabilizar e ter sucesso.
O senhor passou por isso quando jogou na França, na África do Sul, na Bolivia, no Equador; e depois como técnico na Arábia Saudita e na Grécia?
Jairzinho — Nunca passei por isso. Por não ter passado, eu não sei qual seria a minha resposta.
Feliz com a carreira do filho, o técnico Jair Ventura?
Jairzinho — Jair está caminhando a passos largos para chegar ao sucesso. Eu não o ajudei. Ele estabeleceu os critérios dele e eu endossei por ele ser uma pessoa muito inteligente, capaz e audaciosa. É muito importante o treinador ser audacioso, ter a leitura do jogo para encontrar as qualidades e os defeitos do adversário para montar o time dele. O Jair sabe ser ofensivo ou estrategicamente ofensivo.
Como é a sua relação com Brasília?
Jairzinho — Eu vim jogar muito pouco em Brasília. A cidade era nova na minha geração. É um espetáculo de cidade, tem uma estrutura fantástica e revela muitos jogadores. Ajuda a formar uma boa seleção.
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