Do jantar em um restaurante português ao café da manhã com Rodrigo Maia: bastidores da caravana dos cartolas em Brasília pelo projeto clube-empresa

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Noite de terça-feira (10/9). Brasília. Tejo Restaurante, 405 Sul. Um presidente de clube de futebol sai duplamente satisfeito da requintada casa portuguesa. Debochado, tripudia de um time coirmão atolado na zona de rebaixamento. “Olha, o Fluminense virou”, avisa, atraindo a atenção dos seus pares na calçada. Depois da pausa, o centro das atenções completa: “Virou para o outro lado”, gargalha, referindo-se à vitória do Palmeiras por 3 x 0 no Allianz Parque.

Era o fim de uma reunião (quase) secreta. Mandatários do Athletico-PR, Santos, Corinthians, São Bento, Botafogo, Ferroviária, Atlético-GO, Ponte Preta, Gama, Botafogo-SP, Cruzeiro, Bragantino e da Federação Paulista de Futebol participaram do banquete de R$ 8 mil para afinar os discursos e ouvir as propostas do deputado federal e relator do projeto de clube-empresa Pedro Paulo (DEM-RJ) na véspera do café da manhã do dia seguinte na casa do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Enquanto esperam as vans contratadas para o traslado até o completo de hotéis Golden/Royal Golden Tulip, às margens do Lago Paranoá, vizinho do Palácio da Alvorada, os cartolas ensaiam as últimas jogadas. O discurso é batido, repetitivo. Nada criativo. “Os clubes estão no CTI (Centro de Terapia Intensivo)”, resmunga Wagner Pires de Sá, do Cruzeiro, em entrevista ao blog.

Andrés Sanchez foge do lugar comum no traje e na reclamação. Cansado de usar terno, gravata e sapato social em Brasília nos quatros anos de mandato como deputado federal, destoa dos colegas até no discurso. Foge do politicamente correto. “O mesmo blábláblá de sempre, no fim não sai nada. Não sou o mais indicado para falar”, ironizou, depois de jantar ao lado do presidente do Conselho Deliberativo do Athletico Paranaense, Mario Celso Petraglia.

Cabo eleitoral do presidente da República Jair Bolsonaro nas eleições, o dirigente do Furacão nega o poder de influência. Durante o jantar, enquanto o presidente da Federação Paulista de Futebol, Reinaldo Carneiro Bastos, pregava a união dos clubes; Petraglia não perdia a oportunidade de colocar o dedo na ferida e metralhar a CBF, as federações e o atual sistema do futebol brasileiro para quem quisesse ouvir. Em um dos momentos de descontração, Andrés e Reinaldo chegaram a disputar quem passaria o cartão para pagar a conta do banquete.

O café da manhã com Rodrigo Maia não agradou parte dos dirigentes na manhã de quarta-feira

Entre uma conversa e outra ao pé do ouvido percebe-se algumas insatisfações. Um dirigente desconfia de que o jantar nada mais é do que o amadurecimento da criação de uma associação nacional para comercializar internacionalmente o Brasileirão sem a sombra da CBF. A intenção não é novidade. Vem sendo monitorada pela entidade desde o ano passado, quando Andrés, Petraglia e o ex-presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello, se movimentavam. Está previsto para o próximo dia 20 um encontro para tratar da embrionária ideia.

Outros “santos” desconfiavam da esmola. Tinha um pé atrás com o interesse do influente Rodrigo Maia no assunto. Um dirigente chegou a dizer ao blog que a celeridade da discussão do tema tem a ver com o interesse da família Moreira Salles de sanear o Botafogo — clube do coração do presidente da Câmara dos Deputados.

O Botafogo era o único clube carioca representado no encontro pelo presidente Nelson Mufarrej. Rodolfo Landim (Flamengo) só aterrissou em Brasília para o café da manhã com Rodrigo Maia e o tetracampeão Romário, cotado para ser o relator do tema no Senado (Podemos-RJ).

As ausências de São Paulo, Palmeiras, Flamengo, Fluminense, Vasco, Atlético-MG, Grêmio no jantar indicavam uma certa divisão. O presidente cruzmaltino Alexandre Campello e o tricolor Mario Bittencourt são contrários à criação de novo financiamento para as dívidas tributárias e a obrigatoriedade de pagar impostos como empresas. O texto do relator Pedro Paulo prevê novo parcelamento de dívidas fiscais e a possibilidade de recuperação judicial. Alguns times também rejeitam a proposta de retirar direitos trabalhistas dos jogadores com salário superior a R$ 10 mil e torcem o nariz para a tributação de 27,5% na venda de jogadores.

Depois do jantar “secreto”, do café da manhã na residência de Rodrigo Maia e da discussão do tema na CBF com o secretário geral Walter Feldman n esta quinta-feira, no Rio, o debate entre os dirigentes deve se intensificar na semana que vem nos corredores do Congresso.

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Marcos Paulo Lima

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