
Antes de falar sobre a relação entre Corinthians e Mamphis Depay, voltemos 13 anos na linha do tempo para lembrar o que aconteceu na guinada do Clube de Regatas do Flamengo, o mais popular — e rico do país e da América do Sul.
Em 2013, o recém-empossado presidente Eduardo Bandeira de Mello tomou uma das decisões mais impopulares da gestão dele no time carioca: devolver Vágner Love ao CSKA Moscou. O clube não tinha condições de arcar com o custo mensal próximo de R$ 1 milhão para manter o atacante nem de honrar as parcelas restantes da compra do jogador, na casa de 6 milhões de euros. Em comum acordo, Flamengo, Love e CSKA encerraram o vínculo.
A decisão se tornou o símbolo da reconstrução financeira rubro-negra. Naquele momento, o Flamengo convivia com salários atrasados, caixa comprometido, penhoras, perda de confiança no mercado e uma sucessão de ações judiciais. Renunciar a um dos principais jogadores do elenco teve um alto custo político, mas marcou o início da transformação do clube em uma das maiores potências esportivas e econômicas das Américas.
O Corinthians conhece esse caminho. Nos últimos anos, buscou profissionais ligados à reengenharia financeira do Flamengo. Contratou Fred Luz, tentou levar Bruno Spindel, sondou Marcos Braz, fechou com Fabinho Soldado e ouviu conselhos do próprio Eduardo Bandeira de Mello. Buscou conhecimento. Mas ainda não demonstrou disposição para reproduzir a decisão mais difícil daquele modelo: adequar o futebol à realidade financeira.
O caso de Memphis Depay ilustra esse dilema. Em vez de discutir uma saída negociada diante das dificuldades para cumprir os compromissos assumidos, a diretoria trabalha para parcelar os débitos existentes. Paralelamente, tenta renovar o contrato do atacante. A estratégia parte da expectativa de que o clube conseguirá honrar novos compromissos no futuro, embora as dificuldades para cumprir os atuais tenham sido amplamente expostas.
É justamente nesse ponto que a comparação com o Flamengo faz sentido. A reconstrução iniciada em 2013 foi marcada por decisões impopulares, mas compatíveis com a capacidade de pagamento do clube. Antes de pensar em reforços ou renovações, a prioridade foi reorganizar as contas, recuperar a confiança do mercado e restabelecer a capacidade de investimento.
O Corinthians tem potencial econômico, tamanho de torcida e capacidade de geração de receitas para disputar o mesmo patamar do Flamengo. O obstáculo, porém, não parece ser a falta de recursos, mas a dificuldade de impor limites à própria gestão. Enquanto ampliar compromissos sem a segurança de que conseguirá cumpri-los, continuará distante do modelo que tantas vezes buscou copiar.
Se realmente pretende seguir os passos do Flamengo, o Corinthians terá de copiar menos os profissionais e mais as decisões. A reconstrução rubro-negra não começou com uma contratação, mas com uma renúncia. Antes de voltar a investir, foi preciso admitir que não havia dinheiro para sustentar determinados compromissos.
Talvez a situação de Memphis Depay represente hoje a oportunidade de o Corinthians adotar o caminho escolhido pelo Flamengo em 2013. Impopular? Sem dúvida. Mas foi justamente essa decisão que mudou a história do clube carioca.
Leia também:
Na margem de erro, ataque e defesa deixam Gama a dois jogos do acesso
X: @marcospaulolima
Instagram: @marcospaulolima.jor

