Consultor de integridade analisa o depoimento de William Rogatto à CPI

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Consultor de Integridade do Comitê Olímpico do Brasil (COB) na prevenção e combate à manipulação de competições, presidente do Comitê de Integridade da Federação Paulista de Futebol (FPF) e ex-presidente do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). A convite do blog, Paulo Schmitt fez uma análise do discurso de William Pereira Rogatto no depoimento da última terça-feira à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Manipulação de Jogos e Apostas Esportivas no Senado Federal. Na oitiva, ele assume ter contaminado partidas do Campeonato do Distrito Federal em 2024 e em outras 26 unidades da federação.

Admite ter enganado a presidente do Santa Maria, clube rebaixado para a Série B do Candangão, e dispara diversas acusações citando nomes, mas sem apresentar provas. Define-se como “rei do rebaixamento” por ter derrubado 42 times e faturado R$ 300 milhões com o esquema. Autor do Manual de Prevenção e Enfrentamento à Manipulação de Competições do COB, Paulo Schmitt analisa ponto a ponto em 10 tópicos os principais pontos do depoimento de Rogatto.

“Esses pontos de fragilidade sugerem que, sem uma investigação mais rigorosa e sem a apresentação de provas concretas, as declarações de Rogatto podem ser vistas como especulativas ou exageradas, o que enfraquece a CPI e o processo investigativo como um todo”, avalia Schmitt.

1. Inconsistências nas declarações

O empresário William Rogatto faz afirmações muito abrangentes e sem comprovação imediata. Ele menciona ter “rebaixado 42 times” e manipulado jogos em todas as federações estaduais e até em outros países, mas não oferece provas concretas para todas essas alegações no momento. A falta de dados específicos sobre os times e as circunstâncias enfraquece a credibilidade.

2. Generalizações exageradas

Rogatto afirma que “o esquema de manipulação dos jogos só perde para a política e o tráfico de drogas em termos de valores”, uma comparação que parece exagerada e desprovida de respaldo factual. Essa afirmação, sem dados concretos, pode minar a confiança no depoimento.

3. Autodefesa contraditória

Embora se declare réu confesso, Rogatto simultaneamente tenta minimizar sua responsabilidade, dizendo que é “apenas uma ferramenta” e um “lambari pequeno”. Essa contradição enfraquece a clareza sobre sua verdadeira posição e importância no esquema, diluindo o impacto do depoimento.

4. Falta de evidências concretas

Apesar de prometer provas, como fotos, vídeos e gravações, o empresário não apresenta esses elementos diretamente no depoimento. Isso deixa suas declarações no campo da especulação até que as evidências sejam realmente fornecidas e analisadas.

5. Alegações não verificadas sobre políticos e organizações

O empresário envolve árbitros, políticos, presidentes de clubes e federações, incluindo a CBF, mas novamente não apresenta evidências diretas para sustentar essas graves acusações. Ele também faz suposições, como sobre o envolvimento de Palmeiras e São Paulo, baseando-se apenas em “opiniões” e não em provas, o que fragiliza seu testemunho.

Paulo Schmitt é consultor de integridade do COB e da Federação Paulista de Futebol (FPF). Foto: Arquivo Pessoal

6. Evasão e delação premiada

Rogatto afirma que não se sente protegido o suficiente para uma delação premiada, apesar de ter a oportunidade de fazer isso, indicando um receio ou hesitação em colaborar plenamente com a investigação. Isso gera dúvidas sobre sua disposição de expor toda a verdade e a profundidade de seu envolvimento.

7. Falta de cronologia clara

O empresário menciona estar envolvido no esquema desde 2009, quando supostamente criou uma casa de apostas após visitar Las Vegas, mas não oferece detalhes suficientes para esclarecer como esse processo se desenvolveu ao longo dos anos. A ausência de uma cronologia clara e específica prejudica a compreensão da evolução do esquema.

8. Declarações sensacionalistas

Muitas das afirmações de Rogatto, como “eu sou o rei do rebaixamento”, parecem mais sensacionalistas do que substantivas. Tais afirmações, sem a devida contextualização e provas, podem ter sido feitas para criar impacto, mas comprometem a seriedade do depoimento.

9. Falta de contrapontos ou investigação paralela

As matérias não apresentam contrapontos ou verificações independentes sobre as alegações feitas. Não há menção a tentativas de ouvir as federações, clubes, ou outros mencionados, o que seria essencial para dar equilíbrio às reportagens e não depender exclusivamente das declarações do empresário.

10. Depoimento emocional de Dayana Nunes

O testemunho de Dayana Nunes, presidente da Sociedade Esportiva de Santa Maria, adiciona um elemento emocional, mas sua vulnerabilidade pessoal, aliada à falta de conhecimento técnico sobre futebol, pode fazer com que a questão central da manipulação passe despercebida. O fato de ela admitir ter sido enganada por Rogatto, sem ações preventivas de sua parte, também revela uma fragilidade na gestão do clube.

Twitter: @marcospaulolima

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Marcos Paulo Lima

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