Blog Drible de Corpo
Marcos Paulo Lima
Esporte 4 min de leitura
Carlo Ancelotti acerta ao construir a Seleção como sempre fez em clubes
Troca do 4-2-4 pelo 4-3-3, com meio de campo encorpado e protagonista é a melhor notícia da vitória do Brasil contra a Austrália. Média de quase um gol sofrido por jogo acende sinal amarelo
Escrevi na sexta-feira depois do primeiro amistoso do Brasil contra a Austrália uma análise com o título: “Ancelotti insiste em construir na Seleção o que raramente fez em clubes”. Referia-me ao fato de a biografia tática dele ter pouco ou quase nenhum time inesquecível montado no sistema tático 4-2-4, ou seja, o que vimos no empate por 1 x 1 em Townsville.
Nesta terça, ele voltou a ser o italiano do Velho Testamento. Iniciou a vitória por 4 x 2 contra os Socceroos no 4-3-3 em Brisbane e temos um fio de esperança na construção de um meio de campo minimamente capaz de dar estabilidade a um time promissor no ataque, mas nada confiável na defesa: são 18 gols sofridos em 19 jogos sob o comando do Carletto.
As dificuldades no primeiro tempo são compreensíveis. Havia sete titulares diferentes em relação ao primeiro jogo. Vanderson jogou no lugar de Matheuzinho e aproveitou a chance dele com um belíssimo gol abrindo o placar contra a Austrália.
O jovem goleiro Otávio iniciou a partida no lugar de Hugo Souza e falhou na saída do gol. Circati aproveitou o erro da defesa verde-amarela e empatou com uma puxadinha. Chama a atenção a insegurança dos jovens nessa posição. Hugo Souza, Bento e agora Otávio cometem erros. Sentem o peso do início de uma possível carreira na Seleção.
A Austrália vira o jogo no primeiro tempo em um erro de quem havia salvado a Seleção na última sexta. Rayan começou no lugar de Estêvão na direita. Errou passe naquele pedaço do campo e iniciou o contra-ataque do adversário. A defesa até se recompôs, mas o chute de fora da área de Metcalfe expôs a falta de sintonia do Brasil para blindar a frente da área.
O Brasil sofreu três gols da Austrália em dois jogos. Sob o comando de Carlo Ancelotti, a Seleção foi vazada 18 vezes em 19 partidas. A média é de quase um por jogo. Uma das qualidades dos grandes times do italiano era saber defender bem. A Seleção não consegue. Só passou intacta sete vezes contra Equador, Paraguai, Chile, Coreia do Sul, Senegal, Haiti e Escócia desde que o técnico assumiu o cargo no lugar de Dorival Júnior.
Gabriel Bontempo foi a novidade no meio de campo ao lado de Danilo e de Bruno Guimarães. O Brasil iniciou o amistoso no 4-3-3. Os grandes times de Carlo Ancelotti jogavam no 4-3-3, no 4-4-2, no 4-3-2-1, a famosa Árvore de Natal, ou no 4-2-3-1. O sistema deu mais liberdade a Danilo. Ele sofre o pênalti duvidoso. Raphinha converte e empata.
A virada do Brasil começa como deve quando existem elos entre a defesa, o meio de campo e o ataque. O lance começa com o goleiro Otávio, chega ao zagueiro Jair, passa por Gabriel Bontempo de pé em pé e chega até Danilo. Ele acelera o jogo lançando Vinicius Junior. O atacante aciona Endrick e o camisa 9 serve o meia Bruno Guimarães. A participação dos meias é mais uma vez decisiva vindo de trás acompanhando o lance para a finalização. Sete jogadores participaram da belíssima trama até a bola estufar a rede.
Bruno Guimarães poderia ter feito mais um na cobrança do pênalti sofrido por Vini, mas o atacante foi quem cobrou para decretar o placar final e consolidar a vitória por 4 x 2. A melhor notícia do amistoso é a atenção ao meio de campo. Escrevi uma coluna no Correio recentemente mostrando que o diferencial dos trabalhos do Carlo Ancelotti sempre foi o meio de campo. Inclusive quando ele era jogador do fantástico Milan de Arrigo Sacchi com três ou quatro homens no meio de campo.
Carlo Ancelotti empilhou títulos quanto entrosou Gattuso, Pirlo, Ambrosini e Seedorff no Milan. Casemiro, Toni Kroos e Modric no Real Madrid. A meiuca da Seleção demanda o mesmo zelo.