Blog Drible de Corpo
Marcos Paulo Lima
Esporte 5 min de leitura
Ancelotti insiste em construir na Seleção o que raramente fez em clubes
Qual é a recordação de um timaço do italiano montado com quatro atacantes? A fórmula do sucesso do Carletto sempre foi vinculada a um bom meio de campo — e ele precisa montá-lo
Dizem que insanidade é repetir os mesmos erros esperando resultados diferentes. Até quando Carlo Ancelotti insistirá no sistema com quatro atacantes como ideia quase inegociável de jogo? Por que não deixar o modelo em stand by no repertório para situações emergenciais, olhar com carinho para o meio de campo — e gastar energia com esse setor tão maltratado? Currículo define o tamanho de um técnico acima da média, mas a capacidade criativa exige senso de urgência. A meiuca pede socorro!
Na eliminação contra a Noruega nas oitavas da Copa do Mundo, os quatro atacantes eram Vinicius Junior, Matheus Cunha, Rayan e Gabriel Martinelli. No empate com a Austrália por 1 x 1 nesta sexta-feira, Estêvão, Raphinha, Vinicius Junior e Endrick não funcionaram em um início de ciclo deprimente na cidade de Townsville. Os próximos jogos são novamente contra os Socceroos na terça-feira e a Índia em 3 de outubro e desafiam Ancelotti a pensar fora da caixinha urgentemente.
Vinicius Junior foi o que está sendo no início da temporada do Real Madrid. Endrick também. Um jogador digno do banco de reservas do time merengue.
Estêvão teve lampejos de quem amarga o banco no Chelsea. Raphinha tem dupla personalidade. É genial com a camisa do Barcelona: 14 gols em 8 jogos na largada da temporada de 2026/2027. A atenuante da atuação é a cobrança de escanteio para Rayan empatar a partida no último lance.
Ironicamente, a bola parada salvou o Brasil em um… amistoso. O recurso simplesmente não funcionou nos cinco jogos da Copa do Mundo. O único gol assim foi na cobrança de pênalti do Neymar contra a Noruega.
É possível ter Vini, Raphinha, Estêvão e Endrick juntos com a bola. Sem ela, parece inviável. Motivo: os quatro não têm característica de pressionar a saída do adversário. Isso é inegociável quando se joga com apenas dois volantes. Resultado: a Austrália iniciava as ações explorando a displicência e uma certa preguiça dos quatro alecrins dourados. Tocava com facilidade explorando não buracos, mas crateras táticas oferecidas pela terrível recomposição.
Carlo Ancelotti inicia o ciclo insistindo com Hugo Souza. Para mim, o goleiro falhou na virada do Japão por 3 x 2 no amistoso do ano passado. Ele e Fabrício Bruno saíram como vilões naquele jogo. Hugo falhou novamente na cobrança de falta de Irankundo. Considero o Weverton do Grêmio o melhor da posição desde antes da lista final para a Copa de 2026. Iniciaria o ciclo com ele. “Ah, mas tem 38 anos”, Dino Zoff foi capitão e campeão pela Itália em 1982 com 40 anos, 4 meses e 13 dias!
O técnico do Brasil precisa evitar a tentação de um pecado capital: a avareza. Se o sistema com quatro atacantes não está funcionando, é preciso rever o modelo urgentemente.
Carlo Ancelotti contraria a própria biografia. Qual é a lembrança que você tem de um time dele com quatro atacantes e dois meias? Houve lampejos disso no Real Madrid com Bale, Cristiano Ronaldo, Chicharito Hernández e Jesé no trecho de uma goleada por 4 x 0 contra o Ludogorets, por exemplo, na fase de grupos da Champions League de 2014/2015. Uma das raríssima exceções.
Times com quatro atacantes praticamente não constam no repertório do Carlo Ancelotti. Como escrevi no artigo de 12 de setembro de 2026 nas edições analógica, o bom e velho jornal impresso, e digital do Correio Braziliense, o segredo do sucesso do técnico recordista de títulos da Champions League (5) e campeão no Alemão, Espanhol, Francês, Italiano e no Inglês sempre esteve vinculado ao meio de campo.
Entendo o pensamento. Para Ancelotti, os pontas são o que o Brasil tem de melhor no momento . Por isso, insiste em dar-lhes poderes sem ter contrapartida da responsabilidade de marcar.
Lamento analisar que esse plano dificilmente prosperará enquanto ele não descobrir peças, montar e consolidar o meio de campo. Foi assim com Gattuso, Pirlo, Ambrosini e Seedorff no Milan. Casemiro, Toni Kroos e Modric no Real Madrid. Espanha e Argentina decidiram a última Copa porque eram dominantes justamente na meiuca.
Talvez, renunciar a um ou dois atacantes do quarteto seja o primeiro passo para abandonar a tentativa de ser autoral e voltar a ser o Carlo Ancelotti do Velho Testamente.
As melhores atuações no Mundial foram com três figuras no meio de campo. Casemiro deu liberdade a Bruno Guimarães e Lucas Paquetá. Matheus Cunha recuava para ocupar o centro.
É preciso olhar com autocrítica para o 4-2-4 e carinho para o 4-4-2 com dois meias ao lado de Bruno Guimarães e Danilo, e uma dupla de ataque na busca por uma maneira alternativa de dar sequência ao processo. Carlos Alberto Parreira, por exemplo, não teve vergonha de ganhar o tetra com Mauro Silva, Dunga, Mazinho e Zinho atrás da dupla de ataque formada por Bebeto e Romário.