Bola parada: o recurso que o Brasil ainda não encaixou na Copa

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Especialista em faltas e de escanteios, Neymar pode ser útil em caso de emergência. Foto: Raphael Ribeiro/CBF

 

Nova Jersey — O Brasil chega aos playoffs da Copa do Mundo exibindo um futebol em evolução. Vinicius Junior é o principal personagem verde-amarelo. Neymar voltou a ser uma opção importante. Carlo Ancelotti se reencontrou depois da péssima escalação na estreia. A Seleção marcou sete gols de diferentes formas, liderou o grupo e confirmou o favoritismo.

 

Mas há uma estatística curiosa — e talvez preocupante — na campanha. O time ainda não marcou um único gol de bola parada. Nenhum a partir de escanteio, por exemplo. O Brasil tem, em média, cinco por partida. Nenhuma falta lateral. Nenhuma jogada ensaiada. Isso é bom (e ruim). Não há uma dependência desse recurso.

 

Os gols nasceram da qualidade técnica, da velocidade, das combinações ofensivas e do talento individual. É uma ótima notícia. Ao mesmo tempo, expõe uma carência perigosa justamente quando a Copa entra na fase em que os espaços diminuem e os erros são fatais.

 

A história dos títulos mundiais do Brasil mostra justamente o contrário. As grandes seleções brasileiras sempre tiveram uma saída de emergência. Quando a inspiração desaparecia, surgia uma cobrança de falta perfeita, um escanteio bem executado ou um desvio providencial dentro da área adversária.

 

Em 1970, a bola aérea encontrava Pelé, Jairzinho e Clodoaldo. Em 1994, o nó da estreia contra a Rússia é desatado por uma cobrança de escanteio. Em 2002, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e companhia transformavam faltas e escanteios em oportunidades.

 

O Brasil de Carlo Ancelotti parece estar guardando a arma como carta na manga. E o mais intrigante é que não faltam especialistas para executar a cobrança. O melhor deles, inclusive, senta-se no banco de reservas. Neymar tem uma forte conexão com Marquinhos.

 

Gabriel Magalhães construiu parte da reputação no Arsenal justamente como um dos principais recursos ofensivos nas bolas paradas. O clube londrino transformou escanteios e faltas laterais em gols, pontos, vitórias e títulos tendo o zagueiro como protagonista.

 

Marquinhos também é forte pelo alto. Até os atacantes oferecem presença física suficiente para disputar cruzamentos dentro da área. Vinicius Junior fez gol de cabeça.

 

Não falta matéria-prima. O que ainda não apareceu foi a transformação dessas qualidades individuais em uma arma coletiva. E esse detalhe costuma ganhar peso justamente agora. A fase de grupos permite correções. O “mata”, não.

 

Contra o Japão — e qualquer adversário —, a Seleção encontrará defesas mais organizadas, menos espaços para Vinicius Junior acelerar e raras oportunidades para decidir partidas apenas com criatividade. Nesses momentos, os campeões recorrem aos fundamentos.

 

Carlo Ancelotti conhece o valor dos detalhes. Nas Eliminatórias, nem sempre o drible de Vinicius Junior apareceu. Nem sempre Neymar encontra espaço entre as linhas. Nem sempre a genialidade resolve. Às vezes, a Copa muda de rumo em uma falta ou escanteio.

 

Talvez a bola parada seja o último ajuste. Em uma Copa do Mundo, há noites em que a genialidade não aparece. E quando isso acontece, uma bola parada valer a classificação.

 

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