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Marcos Paulo Lima
Esporte 10 min de leitura
Bets disparam alertas aos clubes sobre o risco de corte dos patrocínios
Medida Provisória prevista para ser assinada nesta sexta pelo presidente Lula com proibição total às apostas deixa acordos milionários de 14 dos 20 times da Série A na berlinda
Clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro começaram a receber alertas de casas de apostas sobre a possibilidade de rescisão de contratos de patrocínio caso o governo federal avance com uma Medida Provisória para restringir ou proibir a operação das bets no país. A expectativa é de que o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, dê cartão vermelho para o setor nesta sexta-feira. A decisão do Chefe do Executivo causa calafrios e tira o sono de alguns dirigentes com os quais o blog conversou. Eles admitem terem sido acionados pelas firmas sobre o risco iminente de corte e jogam na defensiva devido à confidencialidade impressa nos convênios milionários.
Conglomerados de comunicação e entidades esportivas também estão sendo informados sobre o cenário. Dos 20 times da Série A do Campeonato Brasileiro, 14 estampam algum site de apostas no uniforme. Os patrocínios vão do pacote máster, ou seja, na área nobre dos “mantos”, até espaços alternativos.
As empresas aguardam a divulgação oficial do texto da eventual MP antes de definir os próximos passos. O alcance da mudança regulatória será determinante para os contratos em vigor. Se a medida atingir apenas cassinos on-line e jogos de azar eletrônicos, por exemplo, os acordos poderão exigir renegociação. Caso a restrição alcance toda a indústria das casas de apostas, a tendência apontada pelo setor é de encerramento dos contratos.
A discussão, portanto, ultrapassou a fronteira dos novos negócios. A possibilidade de mudança no marco regulatório colocou sob pressão parcerias assinadas entre bets, clubes, entidades esportivas e empresas de comunicação.
Contratos entram no centro da discussão
Relatos obtidos via mercado indicam notificações ou comunicações preventivas de empresas como Betano, Novibet, Superbet e Esportes da Sorte a parceiros comerciais. O objetivo é antecipar os possíveis efeitos jurídicos e financeiros de uma mudança na legislação.
O caso ilustra uma questão ainda sem resposta: o que acontecerá com contratos firmados sob as regras atualmente vigentes se uma nova norma impedir a continuidade da atividade?
O advogado Bernardo Cavalcanti Freire, consultor jurídico da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e sócio do escritório Betlaw, afirma que a consequência dependerá das características de cada acordo.
“Vai depender da natureza de cada contrato, mas, em princípio, diante de uma alteração regulatória relevante que suspenda a operação, as empresas deverão comunicar formalmente clubes e demais parceiros sobre a suspensão dos contratos durante o período de impedimento.”
Segundo o profissional, uma eventual suspensão da operação poderia levar inicialmente à comunicação formal aos parceiros e à interrupção temporária dos contratos. Se a mudança se tornar definitiva e inviabilizar a atividade, a rescisão poderá ser adotada conforme as cláusulas previstas em cada acordo.
O setor também sustenta que uma freada brusca teria efeitos sobre uma cadeia mais ampla de empresas e trabalhadores.
“Uma interrupção abrupta da atividade pode provocar demissões em massa, atingindo não apenas as casas de apostas, mas toda a cadeia de fornecedores, agências, empresas de tecnologia, clubes, mídia e serviços que se estruturaram em torno do mercado regulado.”
A avaliação é apresentada pelas entidades do segmento como um dos efeitos de uma eventual mudança sem período de transição.
Quanto as bets representam para o futebol
A dimensão financeira ajuda a colocar o debate em perspectiva.
Levantamento da consultoria Convocados confeccionado pelo especialista Cesar Grafietti aponta que as casas de apostas destinaram cerca de R$ 1,03 bilhão em patrocínios aos clubes da Série A em 2025. O valor representou 7,2% dos R$ 14,3 bilhões arrecadados pelos 20 clubes no período. Em 2024, os aportes das bets contabilizaram aproximadamente R$ 618 milhões.
A proporção muda quando o recorte é apenas a receita comercial. Os clubes da elite arrecadaram cerca de R$ 3,07 bilhões no setor em 2025. Nesse universo, o dinheiro das bets correspondeu a aproximadamente um terço dos recursos comerciais.
Os dois números ajudam a explicar as diferentes leituras sobre o impacto de uma eventual proibição. No orçamento total dos clubes, trata-se de uma parcela minoritária. Para o departamento comercial, porém, tornou-se uma fonte relevante de receita.
A dependência também não é uniforme. Alguns clubes ostentam contratos de grande valor com as empresas, enquanto outros têm exposição financeira menor.
Além disso, o mercado vinha passando por mudanças antes mesmo da discussão sobre uma possível MP. Entre 2025 e 2026, o número de clubes da Série A com uma bet no espaço principal da camisa (máster) caiu de 18 para 13. Houve casos de redução de valores e encerramento de contratos.
Série B e clubes de menor orçamento
O impacto potencial não se limita aos clubes da primeira divisão.
A presença das casas de apostas se espalhou por diferentes níveis do futebol brasileiro, alcançando equipes das divisões de acesso, categorias de base, futebol feminino e propriedades comerciais de menor porte como Volta Redonda, CSA e CRB, cujos contratos ajudam a financiar despesas como salários, funcionários e viagens.
A realidade financeira, nesse caso, é diferente da encontrada entre as principais equipes da Série A. Clubes de maior orçamento contam com receitas expressivas de televisão, transferências de jogadores, premiações e outras propriedades comerciais, além de maior capacidade para buscar patrocinadores em segmentos distintos.
Para equipes menores, a substituição de uma fonte relevante de receita pode exigir mais tempo.
Ricardo Magri, especialista em desenvolvimento de negócios no mercado de iGaming e diretor executivo da EBAC, aponta uma transformação provocada pela expansão das plataformas.
“O setor esportivo tem registrado um impacto financeiro positivo com o avanço do mercado de apostas.”
Na avaliação dele, a relação se fortaleceu porque as plataformas encontraram no futebol e em outras modalidades um ambiente diretamente associado ao público consumidor.
Bets também chegaram a outras modalidades
O movimento não ficou restrito ao futebol. Há presença de casas de apostas no basquete, no vôlei, nos esportes eletrônicos e em eventos de rua.
No Novo Basquete Brasil (NBB), aproximadamente 25% das equipes têm apoio de empresas de apostas. Os dados são da consultoria 1PRA1 Também são citados contratos envolvendo a Liga Nacional de Basquete e a Confederação Brasileira de Basquete. O vôlei e os esportes eletrônicos, também têm vínculo de patrocínio e fornecimento de serviços.
A expansão ajuda a dimensionar a transformação no mercado esportivo brasileiro nos últimos anos. As bets passaram a ocupar espaço entre os principais anunciantes de propriedades esportivas e diversificaram os formatos de associação às competições.
O impacto sobre a mídia
A discussão também alcança empresas de comunicação.
As casas de apostas passaram a ocupar espaço relevante na publicidade esportiva e na programação de emissoras. Levantamento da Tunad estima em cerca de R$ 1,44 bilhão os investimentos das bets em televisão aberta, paga, rádio e streaming em 2025.
Outra estimativa, do Itaú Unibanco, colocou entre R$ 5,8 bilhões e R$ 8,8 bilhões os gastos anuais do segmento com publicidade e patrocínio.
São números produzidos a partir de metodologias diferentes. Por isso,, não devem ser tratados como equivalentes. O ponto comum é a dimensão que o setor passou a ocupar no mercado publicitário.
As relações comerciais também se ampliaram para além da publicidade convencional, com parcerias entre empresas de apostas e grupos de comunicação.
O argumento da segurança jurídica
As empresas questionam os efeitos de uma mudança depois da criação de um mercado regulado pelo próprio governo federal.
João Vitor Villas Boas, diretor executivo das marcas SorteNaBet e Betou, afirma que os operadores fizeram investimentos considerando as regras estabelecidas para a atividade.
“A previsibilidade regulatória é um elemento fundamental para a credibilidade do ambiente de negócios brasileiro.”
Bernardo Cavalcanti Freire segue na mesma linha ao defender que uma eventual mudança considere as permissões concedidas e estabeleça uma transição.
“Não é razoável que uma empresa obtenha uma autorização estatal, pague uma outorga bilionária e faça investimentos de longo prazo para, posteriormente, ter sua atividade interrompida de forma abrupta, sem que sejam considerados os efeitos jurídicos e econômicos dessa decisão.”
O argumento, porém, faz parte de uma discussão mais ampla. O governo e setores da sociedade adeptos das restrições às apostas apontam preocupações relacionadas à publicidade, à proteção dos consumidores, ao endividamento e aos impactos sociais do jogo.
No Congresso, o debate avançou para propostas de restrição à publicidade e ao patrocínio. Em setembro, a Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado aprovou projeto que prevê a proibição de patrocínios de empresas de apostas a clubes, entidades esportivas, competições e transmissões, entre outras propriedades, com prazo de 24 meses para adequação ou encerramento dos contratos. O texto ainda depende de tramitação legislativa.
Há, portanto, mais de uma proposta em discussão, com alcances diferentes.
Mercado regulado e mercado ilegal
Outro ponto central é a distinção entre o mercado autorizado e a atividade clandestina.
A Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda reforçou, em setembro, os mecanismos de combate ao mercado ilegal. Portaria publicada pelo órgão ampliou procedimentos para identificar e interromper transações financeiras relacionadas à exploração irregular de apostas, incluindo bloqueio de contas e impedimento de novas operações.
Esse movimento é relevante para o debate porque uma eventual mudança no modelo regulado não elimina, por si só, a necessidade de fiscalização das plataformas que operam fora das regras brasileiras.
Ao mesmo tempo, representantes do setor de apostas argumentam que uma proibição ampla poderia deslocar parte da demanda para operadores clandestinos, como mostrou o blog no “Case da China”. É uma hipótese defendida pelo segmento e que dependerá da capacidade de fiscalização e bloqueio das plataformas não autorizadas.
O futebol aguarda o texto
O cenário ainda depende de uma definição que não está dada: o conteúdo da eventual Medida Provisória e o alcance das restrições.
Enquanto isso, os clubes lidam com a possibilidade de perder uma fonte de receita que ganhou espaço rapidamente no mercado esportivo brasileiro. As casas de apostas, por sua vez, enfrentam a perspectiva de mudanças em um ambiente regulatório criado recentemente e no qual fizeram investimentos.
Os números mostram que as duas dimensões existem ao mesmo tempo. Os R$ 1,03 bilhão pagos pelas bets aos clubes da Série A em 2025 representaram uma parcela de 7,2% das receitas totais, mas aproximadamente um terço dos faturamentos comerciais.
Entre os dois lados está uma cadeia formada por clubes, atletas, federações, ligas, emissoras, fornecedores, agências e trabalhadores.
A questão imediata para o futebol deixou de ser apenas quanto o mercado de apostas poderá investir nos próximos anos. Passou a envolver o destino dos contratos assinados.
Até que ponto eles poderão ser mantidos, renegociados ou encerrados dependerá das regras que, eventualmente, substituírem o modelo atual.