Blog Drible de Corpo
Marcos Paulo Lima
Esporte 7 min de leitura
O que a China revela ao Brasil sobre a proibição das bets
Enquanto o governo Lula discute novas restrições às apostas e clubes defendem o mercado regulado, a experiência chinesa mostra como a demanda pode migrar para plataformas clandestinas e para fora do alcance do Estado
Um trilhão de yuans. Esse foi o volume anual de dinheiro que, segundo uma estimativa divulgada em 2020 por um alto funcionário do Ministério da Segurança Pública da China, saía do país para atividades de apostas. Na cotação daquela época, o valor equivalia a cerca de US$ 145 bilhões. O número ajuda a dimensionar uma questão recorrente no Brasil: o que acontece quando um governo restringe ou proíbe a oferta legal de apostas, mas a demanda permanece?
A pergunta deixa de ser apenas teórica. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou publicamente o engajamento no fim das bets. Nos últimos dias, o governo passou a discutir com mais ênfase uma Medida Provisória com novas restrições ao setor. As informações disponíveis apontam, neste momento, para uma possível proibição dos chamados cassinos on-line, enquanto as apostas esportivas poderiam permanecer.
A discussão provocou uma reação organizada do futebol. Clubes e federações divulgaram um manifesto defendendo a manutenção do mercado regulado. O bloco argumenta que o fim das plataformas autorizadas poderia estimular a migração dos apostadores para operadores clandestinos. O documento também destaca a importância das receitas de patrocínio para clubes de diferentes divisões. Dirigentes passaram a buscar interlocução com integrantes do governo para participar da discussão.
É justamente nesse ponto que a experiência chinesa merece ser observada — não como uma receita para o Brasil, muito menos como prova de que uma política necessariamente produzirá determinado resultado, mas como um caso concreto de um país engajado há décadas na tentativa de impedir o acesso às apostas fora das loterias estatais.
A proibição chinesa
Na China continental, o jogo é proibido desde 1949, com exceção das loterias autorizadas pelo Estado. A legislação também foi endurecida para combater as apostas transfronteiriças. Em 2020, passou a criminalizar a organização de atividades destinadas a atrair chineses para apostar no exterior.
O paradoxo aparece nos números. Em 2025, as loterias oficiais chinesas movimentaram 627,97 bilhões de yuans. Desse total, 419,39 bilhões vieram da loteria esportiva e 208,58 bilhões da loteria de bem-estar. Ao mesmo tempo, a estimativa apresentada por uma autoridade de segurança pública em 2020 apontava para a saída anual de aproximadamente 1 trilhão de yuans em dinheiro relacionado a apostas no exterior. São números de anos diferentes e metodologias distintas, portanto não permitem uma comparação direta. Servem apenas para mostrar a dimensão da ordem de grandeza envolvida.
A estimativa de 1 trilhão de yuans também não é uma auditoria independente do mercado. Trata-se de uma declaração oficial chinesa de 2020, posteriormente reproduzida por veículos de imprensa. O próprio relatório usado como base desta análise recomenda cautela com os números oficiais chineses e com a comparação entre períodos diferentes.
O dinheiro atravessou a fronteira
A proibição não eliminou o interesse pelas apostas. Segundo o relatório, parte da demanda migrou para plataformas estrangeiras, enquanto operadores se instalaram em países do Sudeste Asiático, como Filipinas, Camboja, Mianmar e Laos. O dinheiro passou a circular por mecanismos informais, criptomoedas, contas de terceiros e estruturas clandestinas de pagamento.
Um dos casos descritos no levantamento ajuda a dimensionar o fenômeno. Uma operação identificada nas Filipinas teria registrado movimentação de 725,5 bilhões de yuans, equivalentes a aproximadamente US$ 100,8 bilhões, com mais de 50 mil agentes chineses e quase 1 milhão de apostadores registrados. A operação foi alvo de investigação das autoridades chinesas e filipinas.
Não se trata apenas de uma mudança de endereço na internet. O relatório descreve a transformação de parte desse ecossistema em estruturas criminosas mais complexas, envolvendo lavagem de dinheiro, bancos clandestinos, fraude on-line e, em determinados casos investigados pelas Nações Unidas, trabalho forçado em centros de golpes digitais.
É importante não inverter a relação de causa e efeito. O fato de estruturas de apostas ilegais terem se conectado a outros crimes não significa que uma proibição produza automaticamente tráfico de pessoas, fraude ou lavagem de dinheiro. O que a experiência descrita no relatório mostra é outra coisa: quando operadores clandestinos passam a ocupar mercados de grande demanda, alguns deles podem se conectar a organizações criminosas que atuam em outras atividades.
O mercado ilegal não precisa de autorização
Há outra característica relevante. As plataformas clandestinas não reproduzem necessariamente as regras de proteção existentes em mercados regulados.
Segundo o relatório, sites ilegais podem operar sem limites de depósito, mecanismos de autoexclusão, verificação adequada de idade ou canais oficiais de reclamação. O apostador também perde parte dos instrumentos formais para contestar uma operação, recuperar recursos ou denunciar práticas abusivas. A dívida, por consequência, pode terminar recaindo sobre as famílias.
A repressão chinesa é ampla. O levantamento registra 73 mil casos relacionados ao combate às apostas em 2024 e mais de 4.500 sites fechados naquele ano. Operações anteriores também produziram milhares de prisões e derrubaram plataformas e redes de pagamentos.
Ainda assim, o fenômeno reaparece em outras plataformas e em novos territórios.
Esse talvez seja o aspecto mais relevante para o debate brasileiro. Bloquear um endereço eletrônico não significa necessariamente eliminar a atividade econômica existente atrás dele. O relatório cita avaliações do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) segundo as quais o combate às estruturas ilegais precisa alcançar também pagamentos, publicidade, fornecedores de tecnologia e mecanismos de operação.
A questão brasileira
O Brasil está diante de um debate diferente. O país escolheu, nos últimos anos, criar um mercado regulado de apostas, com empresas autorizadas, tributação e obrigações relacionadas à proteção do consumidor e ao combate à lavagem de dinheiro. Agora, o governo discute novas restrições, enquanto clubes e federações alertam para os efeitos financeiros de uma eventual redução desse mercado.
O manifesto do futebol sustenta que o investimento das empresas autorizadas se tornou uma fonte importante de receita para o esporte e alcança também clubes menores, divisões de acesso e competições de menor exposição comercial. Ao mesmo tempo, os próprios signatários reconhecem no documento a necessidade de ampliar fiscalização, prevenção, educação e mecanismos de proteção diante dos problemas associados às apostas.
Do outro lado, o governo federal associa a discussão aos efeitos sociais das apostas, especialmente endividamento e comportamento compulsivo. Lula tem defendido publicamente medidas mais duras contra o setor.
Há, portanto, duas questões diferentes dentro da mesma discussão: como reduzir os danos provocados pelas apostas e como impedir que a demanda seja simplesmente deslocada para operadores clandestinos.
A experiência chinesa não responde sozinha ao problema brasileiro. Os países têm sistemas políticos, estruturas econômicas, legislações e mercados completamente diferentes. O próprio relatório ressalta que a comparação serve para observar os efeitos de uma política de proibição sobre o mercado, e não para equiparar os dois países.
Mas a China oferece um dado concreto que não deveria ser ignorado no debate: a proibição da oferta legal não significou o desaparecimento da procura. Parte dela migrou para fora do alcance do Estado, levando consigo dinheiro, apostadores e operadores.
É esse o ponto que Brasília terá de considerar ao decidir os próximos passos da política brasileira para as apostas. Não apenas quanto o país pretende restringir, mas também o que pretende fazer com a demanda que continuar existindo depois que uma parcela da oferta legal deixar de existir.
A resposta a essa pergunta ajudará a definir se a discussão brasileira será apenas sobre proibir plataformas ou também sobre controlar, fiscalizar e proteger o cidadão em um mercado que, legal ou clandestino, pode continuar existindo.
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