Gerson virou dono do jogo quando o Flamengo passou a ter um a menos. Foto: Marcelo Cortes/Flamengo
Uma das virtudes de um técnico de futebol é o reflexo. O tempo de reação às circunstâncias de um jogo. Filipe Luís passou no teste na décima classificação do Flamengo para a final da Copa do Brasil, a terceira consecutiva. Numa boa: esqueçam Jorge Jesus e Diego Simeone na análise. Tentemos sair do lugar comum. Filipe Luís foi original na interpretação da partida e do contexto de um ataque do Flamengo inofensivo e incompetente fora de casa em exibições de mata-mata nesta temporada.
Vamos à vida real: o time rubro-negro disputou cinco partidas eliminatórias longe do Rio de Janeiro neste ano antes do duelo contra o Corinthians na Neo Química Arena. Só fez gol contra o Amazonas, em Manaus, e o Bahia, em Salvador. Não balançou a rede nas derrotas para o Palmeiras na Copa do Brasil, em São Paulo; para o Bolívar, em La Paz; e no empate sem gol com o Peñarol, em Montevidéu. Por que Filipe Luís manteria Gabigol ou o trocaria por um atacante de velocidade (Plata ou Michael) depois da expulsão de Bruno Henrique? Não faria o menor sentido! De onde não se espera nada fora de casa não viria nada, mesmo. O Flamengo vinha se classificando no limite com Tite. A lógica se manteve com o sucessor.
Filipe Luís foi inteligente ao colocar o zagueiro Fabrício Bruno em campo. Frio e calculista ao cortar a própria carne e sacar o brother Gabriel Barbosa do time. Convencido de que o ataque havia sido dizimado na expulsão amadora de Bruno Henrique, e ciente de que o Flamengo fez apenas dois gols fora de casa em mata-mata neste ano, ele decidiu administrar a vantagem na base da retenção mínima da bola na meiuca, do posicionamento, da compactação, e na base da resistência. A mesma do Flamengo de Tite na altitude de 3.600m de La Paz contra o Bolívar, por exemplo.
Fabrício Bruno entrou porque é alto e o beque mais veloz do plantel. O Corinthians aceleraria a partida aprofundando o jogo com os pontas Romero e Talles Magno e alçaria bolas na área. Logo, necessitaria do beque na cobertura de Wesley e na bateria antiaérea. Assim, liberou Léo Ortiz para o papel de híbrido. O zagueiro da sobra na linha defensiva de cinco e volante na construção devido a uma característica evidente: a qualidade do passe. Com a bola, ele dava passos à frente e fortalecia o setor ao lado de Pulgar, De la Cruz, Arrascaeta e Gerson. A movimentação de Léo Ortiz transformava o sistema de uma espécie de 5-4-0 para 4-4-1. Com histórico de falso 9 na carreira, Arrascaeta era quem mais se desgarrava. Passava a ser o mais avançado revezando com Gerson.
O técnico mais viciado em dinâmica com um jogador a menos não é Diego Simeone, mas, sim, José Mourinho, com quem Filipe Luís trabalhou no Chelsea na temporada de 2014/2015. A maior vitória de Mourinho foi estacionando um ônibus na frente do gol da Internazionale contra o Barcelona, no Camp Nou, na semifinal da Champions League de 2010. Diego Milito, Sneijder e Eto’o abriram mão de atacar e se converteram em leões de chácara auxiliando o sistema defensivo depois da expulsão de Thiago Motta aos 30 minutos do segundo tempo. José Mourinho simula essas sistuações extremas e Filipe Luís testemunhou isso no curto período em que trabalhou com o português.
Ataque do Flamengo fora de casa no mata-mata
» Copa do Brasil
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Há outras referências no Brasil. Jorge Jesus engoliu o Independiente del Valle por 3 x 0 na Recopa Sul-Americana de 2020 com um jogador a menos depois da expulsão de Willian Arão. Gerson, sempre ele, virou nome do jogo ao marcar dois gols. O Palmeiras de Abel Ferreira resistiu ao Atlético-MG de Cuca com um a menos nas quartas de final da Libertadores de 2022. Luiz Felipe Scolari também na semifinal do mesmo torneio à frente do Athletico-PR. Coincidentemente, Galo e Palmeiras agrediram pouco e foram eliminados como o Corinthians.
A transformação consciente, mas arriscada do Flamengo entregou o protagonismo da partida aos donos da casa no melhor estilo Rock Balboa: desafiou a força do adversário para dar na cara ele e levá-lo à lona. Com um jogador a mais, o Corinthians teve a bola nos pés em 59% da semifinal contra 41% do fragilizado Flamengo. No entanto, incomodou de fato em uma finalização cruzada de Yuri Alberto. Obrigou Rossi a se esticar todo para evitar o gol alvinegro. Os outros acabamentos do Corinthians mais facilitaram do que atormentaram o goleiro.
Mesmo inferiorizado numericamente, o Flamengo viu Gerson tomar conta do meio de campo com autoridade e qualidade dos velhos camisas 10. Erick Pulgar parecia dois em campo. Compensava a ausência de Bruno Henrique. Arrascaeta driblava o esgotamento físico com a chamada raça charrua. Do outro lado, o técnico Ramón Díaz mostrava incrível incapacidade e falta de repertório para agredir o Flamengo em busca do golzinho necessário para forçar os pênaltis. Errou ao trocar o 4-3-1-2 da evolução na temporada por um confuso 4-2-3-1/4-3-3 Aos poucos, o dono da prancheta foi minando o clima de guerra declarado pela Fiel e o ambiente ficou nada hostil.
O Flamengo está na final da Copa do Brasil pela décima vez, mas insisto na crítica necessária ao elenco mais caro da América do Sul. O time fez apenas dois gols fora de casa em mata-mata na Copa do Brasil e/ou na Libertadores: balançou a rede do Amazonas, em Manaus, e do Bahia, na Fonte Nova. Saiu do Allianz Parque derrotado pelo Palmeiras por 1 x 0 no duelo de volta do mata-mata nacional, não fez gol em La Paz contra o Bolívar, o Peñarol em Montevidéu e o Corinthians, na Neo Química Arena.
As classificações do Flamengo em confrontos eliminatórios são no limite. Isso precisa ser corrigido urgentemente antes do duelo com o Atlético-MG na disputa do título da Copa do Brasil. Rivais nacionais desde 1980, os dois times decidirão o título pela terceira vez. O lado rubro-negro da força ganhou o Campeonato Brasileiro e o alvinegro, a Supercopa do Brasil em 2022.
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