
New Jersey — Sabe aquela canção Samba de uma nota só do Tom Jobim? É uma lindíssima bossa, mas não pode servir de trilha sonora para a Seleção. A Copa costuma punir o apego a uma fórmula. Por mais que Carlo Ancelotti esteja convicto do sistema tático com quatro atacantes interpretado por uns como 4-2-4 e outros como 4-4-2, o campo começa a pedir, no mínimo, alternativas táticas a nove dias da estreia contra Marrocos no próximo dia 13, às 19h, no MetLife Stadium.
O treino desta quarta-feira foi uma prova da inquietação do italiano depois da fraca exibição no primeiro tempo na goleada por 6 x 2 no Maracanã contra o Panamá. O esquema predileto de Carlo Ancelotti exige recomposição do ponta Luiz Henrique e do falso 10 Matheus Cunha. Em contrapartida, Vinicius Junior e Raphinha não entregam 100% de dedicação. Consequentemente, abre-se brecha para mudanças, como se viu no treino aberto no Columbia Park, o Centro de Treinamento do Red Bull New York.
Carlo Ancelotti experimentou um sistema mais sólido com três homens no meio de campo. Lucas Paquetá treinou no lugar de Luiz Henrique. Nove raiz, Igor Thiago entrou no lugar de Matheus Cunha. Douglas Santos assumiu a lateral esquerda em substituição a Alex Sandro. Na zaga, Marquinhos e Gabriel Magalhães reassumiram a posição titulares intocáveis. A formação pode ser essa no amistoso deste sábado contra o Egito, às 18h, em Cleveland.
A impressão que se tem é de que o vestiário está influenciando Ancelotti. Jogadores marcados por eliminações como Alisson, Marquinhos, Danilo, Alex Sandro e Casemiro têm abertura para “aconselhar” o treinador a montar escalações alternativas. A falta de variação tem sido uma das vilãs das eliminações em série nas quartas de final da Copa.
Em 2006, Carlos Alberto Parreira era refém do quadrado mágico. Não desapegava de Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Adriano e Ronaldo. Havia clamor pela entrada de Juninho Pernambucano no meio de campo em troca de estabilidade tática. Parreira só mudou o time no quinto jogo. Sacou o Imperador, iniciou com Juninho Pernambucano e foi eliminado. Aquela formação não tinha entrosamento suficiente para enfrentar a França.
Quatro anos depois, Dunga pagou caro pela avareza. Não renunciava a Elano, Kaká, Luis Fabiano e Robinho. Pior: convocou um banco de reservas frágil. Bastou Elano sofrer uma lesão e Ramires cumprir suspensão nas quartas de final para o capitão do tetra se embaralhar contra a Holanda. Daniel Alves entrou improvisado no meio de campo, porém não entregou como Elano e Ramires. Bugado, o Brasil levou a virada da Laranja Mecânica.
Tite ostentava um time que deu certo desde o primeiro dia de trabalho e o repetiu a exaustão. Quando a Copa chegou, Daniel Alves se machucou e ficou fora da convocação. Renato Augusto desembarcou na Rússia lesionado e mexeu no tabuleiro tático. Quem entrou não correspondeu e Tite demonstrou total dependência de Daniel Alves e Renato Augusto.
Quatro anos mais tarde, havia um apego imenso por quatro homens no ataque. Tite curtia o quarteto formado por Raphinha, Neymar, Vinicius Junior e Richalison. O técnico não deu ouvido ao campo contra a Croácia. Em vez de fortalecer o meio de campo para competir com o setor liderado por Modric do outro lado, manteve a convicção nos caras da frente. Ofensivo até quando vencia o jogo difícil por 1 x 0 na prorrogação, tomou contra-ataque.
O passado ensina a mudar. Romário e Bebeto levaram o Brasil ao título da Copa América em 1989. Um ano depois, o ataque na Copa era Müller e Careca. Parreira tinha Raí como camisa 10 intocável na criação. O meia perdeu a posição para Mazinho e ficou no banco. Juninho Paulista iniciou o Mundial de 2002 titular e Kleberson ganhou a posição. Há outros tantos exemplos lá atrás de que fechar o grupo — e o time — nem sempre é o melhor caminho. As vozes da experiência no vestiário está pelo menos alertando Carlo Ancelotti.
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