Análise: Diniz, Ancelotti e as estratégias da CBF para agradar a gregos e troianos

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Nem Jesus Cristo agradou a todos. Ednaldo Rodrigues tenta. O presidente da CBF faz de tudo para não ser crucificado. Certa ou errada, é uma proposta de gestão. Sujeita a críticas, claro. Concilia desejos de gregos e troianos. Ao levar Fernando Diniz ao cargo de técnico interino da Seleção, por exemplo, ele joga para a parcela da torcida adepta incondicional da escola brasileira responsável pelos cinco títulos do país na Copa do Mundo. Ao esperar por Carlo Ancelotti até 30 de junho de 2024, mostra ambição e se rende a quem defende a ruptura com profissionais do país desde o 7 x 1 e a contratação de um profissional europeu.

A habilidades diplomática e a vocação para equilibrista são arriscadas. Incluem o compartilhamento inusitado da CBF com técnicos de dois clubes diferentes ao mesmo tempo. O interino Fernando Diniz continuará trabalhando no Fluminense. O técnico virtual Carlo Ancelotti tem contrato verbal com a entidade, e continuará trabalhando no Real Madrid até 30 de junho de 2024. Em tese, Diniz comandará a Seleção na Copa América, nos EUA, de 20 de junho a 14 de julho. O jeitinho brasileiro inédito deixa todos os lados aparentemente bem. Será?

O presidente do Real Madrid, Florentino Pérez, sabe de tudo e não fala, não ouve e finge não ver nada. O silêncio sepulcral é assustador. O dirigente é imprevisível. É capaz de manter Carlo Ancelotti ou de passar por cima da seleção da Espanha para ter o que deseja. Foi assim na véspera do início da Copa da Rússia. Contratou Julen Lopetegui para o clube merengue com a delicadeza de um elefante em loja de cristais e causou destruição na Fúria. A Real Federação Espanhola de Futebol dispensou Lopetegui. Fernando Hierro assumiu menos de 48 horas antes da estreia contra Portugal. O estrago foi enorme.

Mário Bittencourt jurava que não liberaria Fernando Diniz para a CBF. O mandatário tricolor esteve na sede da entidade na noite de terça-feira para os últimos acertos com Ednaldo Rodrigues e acompanhou a assinatura do contrato do profissional tricolor com a entidade.

Internamente, dirigentes da CBF elogiam a habilidade de Ednaldo Rodrigues no sucesso das sinalizações positivas de Carlo Ancelotti, Real Madrid, Fernando Diniz e Fluminense. Alguns torciam o nariz para o fato de ele sujeitar a casa a esperar pelo italiano até 2024.

Dividido, parte do núcleo defendia a contratação imediata de Diniz e ficou satisfeita. Outra banda sugeria Abel Ferreira devido aos oito títulos no Palmeiras. Ednaldo concordava, mas queria evitar ao máximo se indispor com Leila Pereira e implodir o império alviverde.

Todos, porém, respeitavam o direito do presidente de centralizar decisões e consultar os pares prediletos. Especialmente jogadores da atual Seleção, além de ex-jogadores de dentro e de fora da própria entidade. Branco e Ricardo Gomes, por exemplo, têm portas abertas no Fluminense. O processo de escolha incluiu profissionais da mídia para criar costas largas e evitar o isolamento.

Antes das conversas iniciadas na terça-feira passada depois da classificação do Fluminense na Libertadores contra o Sporting Cristal, houve um episódio no mínimo curioso. Em 18 de maio, a técnica Pia Sundhage esteve no Centro de Treinamento Carlos Castilho, na Barra da Tijuca, a fim de conhecer a estrutura e possíveis instalações para a Seleção feminina trabalhar no Rio de Janeiro. A sueca aproveitou para assistir ao treino de Diniz. Posou para foto com ele e rasgou elogios às ideias do técnico tricolor.

“Eu gosto bastante do jeito que o time joga, é bem intenso, com alta pressão. Eu estava sentada na lateral do campo e pude perceber o quão técnicos são alguns desses jogadores. É tão rápida a troca de direção. Se comparado ao futebol feminino, é um jogo mais rápido, mas estamos alcançando esse ritmo no feminino também, então eu aprecio muito essa intensidade”,  declarou, em entrevista ao site oficial do Fluminense. De caso pensado ou não, a CBF estava massageando o ego tricolor.

O perfil de Ednaldo Rodrigues não surpreende. Em 2022, ele chegou ao poder por aclamação depois de um acordo muito bem costurado. Agradou as 27 federações ao fortalecer os Estaduais e autorizou os clubes a criarem uma liga, a partir de 2025. O voto das federações tem peso 3, dos clubes da Série A, 2, e da B, 1. Ele soube lidar com isso. Desde então, tenta se manter neutro nos debates acalorados entre a Liga do Futebol Brasileiro (Libra) e a Liga Forte Futebol (LFF) — da qual Mário Bittencourt é um dos líderes.

Ednaldo Rodrigues também procura agradar a todos nas relações institucionais. No ano passado, Tite bateu o pé ao dizer que a Seleção não iria ao Palácio do Planalto nem na ida nem na volta para um encontro com Jair Bolsonaro, independentemente do desfecho da campanha na Copa do Mundo do Catar. Ednaldo respeitou o posicionamento. Inclusive no papel de chefe da delegação no Oriente Médio. Sete meses depois, a Seleção feminina se reuniu com o presidente Lula no último sábado, no gramado do Mané Garrincha, em Brasília, antes do embarque para a Copa Feminina na Austrália e na Nova Zelândia. O petista ganhou camisas personalizadas com o nome dele e da cruzada contra o racismo.

A gestão da CBF tenta agradar a todos, ainda que os torcedores do Fluminense e do Real Madrid estejam com uma pulga atrás da orelha. Ednaldo Rodrigues pisa em ovos, caminha suavemente com extremo cuidado em cada ação. Está cercado de bons assessores capazes de mensurar os riscos de cada passo ou decisão. Resta saber como será o gerenciamento das crises quando elas acontecerem. Na primeira delas, a corda arrebentou para o lado de Ramon Menezes nas derrotas contra Marrocos e Senegal.

A convicção de que o técnico da Sub-20 estava apto a tocar a transição até a posse de Carlo Ancelotti minguou e abriu as portas para a contratação do técnico interino (ou efetivado) Fernando Diniz. Enquanto Carlo Ancelotti não assina o contrato, a dúvida paira no ar e a CBF se apega àquele ditado: “mais vale um pássaro na mão do que dois voando”. Um brasileiro ou um italiano comandarão a Seleção na Copa. Quem sabe um dueto ítalo-brasileiro.

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Marcos Paulo Lima

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