Muito além da bola: Tite vê técnicos mais capacitados na volta ao futebol de clubes e sofre

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Tite pode até ter razão nas críticas à bola do Campeonato Carioca, mas o debate parece outro depois do empate por 0 x 0 com o Vasco pela sexta rodada da Taça Guanabara. O técnico passou seis anos e meio na Seleção Brasileira. O padrão de excelência era outro. O intervalo entre as partidas também. Havia mais tempo para planejar, pensar, e menos para colocar o plano em ação nas tais datas Fifa. Chamo atenção para outro detalhe: o nível dos treinadores que ele enfrentava em amistosos ou jogos oficiais era inferior ao dos duelos na readaptação ao futebol de clubes.

Se levarmos em conta apenas o Estadual, o debate de ideias de Tite é com Ramón Díaz, Fernando Diniz e Tiago Nunes. O sarrafo é alto. Dois ostentam o troféu da Libertadores no currículo. O outro ganhou Copa Sul-Americana, Copa do Brasil. Não se trata apenas de uma prova de títulos. Os três concorrentes de Tite são muito competentes e criativos na arquitetura tática dos times. Dois times de pequeno investimento ocupam o G-4 graças a profissionais capacitados. Carlos Vitor faz bom trabalho no Nova Iguaçu. Filipe Cândido maneja bem o Boavista.

O material humano de Ramón Diaz é escasso no Vasco comparado com a fartura de Tite no Flamengo. No entanto, o argentino e o filho, Emiliano, souberam sofrer no início do clássico. Aos poucos, interpretaram o mecanismo de jogo rubro-negro, compreenderam e ofereceram dificuldades a Tite, principalmente, nos lances em profundidade nas costas do lateral-direito Wesley. O time cruzmaltino agrediu com facilidade pela esquerda com Lucas Piton. As tramas sempre procuravam o diferencial de Pablo Vegetti:  o tempo de bola nos cruzamentos.

O Vasco começou entrincheirado no campo de defesa no sistema 5-3-2. Ramón Díaz é estudioso. As maiores dificuldades de Tite na Seleção foram justamente contra adversários formatados nesse sistema. O Flamengo teve 63% da posse de bola, mas não “machucava” o Vasco, expressão usada pelo professor rubro-negro na entrevista coletiva depois da partida. O posicionamento do Flamengo alternava do 4-4-2 para o 4-1-4-1, mas a bola dificilmente chegava limpa para a dupla de ataque Everton Cebolinha e Pedro. Bruno Henrique e Gabriel Barbosa melhoraram o time.

O empate foi justo no fim das contas, mas poderia ter sido com gols. Léo Pereira, para mim o melhor do jogo, protagonizou dois milagres em finalizações do Vasco. Um em cada tempo. A da etapa inicial foi plástica, impressionante. O Flamengo também poderia ter marcado se Gabriel Barbosa não fosse displicente na cobrança do pênalti defendida pelo goleiro Léo Jardim.

Se o Vasco não venceu, a culpa é da exibição de gala de Léo Pereira. Se não deu Flamengo, atribua-se ao heroísmo de outro Léo, o Jardim, ao desleixo do camisa 10 rubro-negro e ao reencontro de Tite com técnicos mais capacitados do que aqueles, por exemplo, com os quais se deparava nas Eliminatórias. O nível de exigência é outro.

Tite passou dificuldade duas vezes contra Ramón Díaz; perdeu por 3 x 0 para Luiz Felipe Scolari; sofreu com as ideias de Fernando Diniz, quase tomou virada de Renato Gaúcho depois de abrir 2 x 0, em Porto Alegre perdeu em Brasília para o Santos de Marcelo Fernandes; e em São Paulo, para Dorival Júnior.  A vitória por 3 x 0  contra o Palmeiras de Abel Ferreira é a melhor exibição até agora.  Os triunfos táticos contra Pedro Caixinha  (Red Bull Bragantino) e Juan Pablo Vojvoda (Fortaleza) foram na conta do chá. A bola do Carioca pode até ser ruim, porém Tite está enfrentando técnicos mais capacitados na readaptação ao futebol de clubes. Sofre para se impor com o elenco mais caro do país nas mãos. Sim, o trabalho está no começo, são 17 jogos no cargo, mas é fato.

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Marcos Paulo Lima

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