Como a tentativa de fazer Rodrigo Caio emular Puyol levou o Flamengo de Dome a passar vergonha

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É impossível separar os conceitos do ex-assistente Doménec Torrent do técnico Pep Guardiola. O mestre dele tinha várias sacadas no Barcelona. Uma delas recaía sobre Carles Puyol. Ciente de que ele era o defensor mais versátil do elenco, usava o coringa em sua zona de conforto — a zaga —, mas também recorria ao xodó na lateral-direita ou na esquerda quando não contava com Daniel Alves e/ou Abidal, ou planejava algo diferente, às vezes revolucionário, para os especialistas das respectivas posições. Foi assim em pelo menos dois jogos grandes do Barcelona: a final da Champions League de 2009 contra o Manchester United, em Roma; e um clássico de 2010 diante do Real Madrid, no Bernabéu.

Dito isso, ouso dizer que o novo treinador do Flamengo mais uma vez cometeu o pecado de queimar etapas e desrespeitou o legado de Jorge Jesus. Havia arriscado o 2-3-5 nos minutos finais da derrota para o Atlético-MG na primeira rodada do Campeonato Brasileiro. Nesta quarta-feira, precipitou-se, em Goiânia, ao achar que o versátil Rodrigo Caio poderia ser, contra o Atlético-GO, o que Carles Puyol era para Guardiola na era Barcelona. O beque sabe atuar como primeiro volante e até como líbero numa linha de três zagueiros. Improvisado como lateral-direito, não! Ficou absurdamente exposto Ao ridículo. O técnico uruguaio Diego Aguirre havia experimentado essa invenção de moda no São Paulo, em 2018. Não funcionou. O improviso irritou profundamente Rodrigo Caio à época e facilitou a saída dele do clube. O jogador reclamou com Raí e Lugano.

Voltemos à final da Champions League de 2008/2009 — a primeira do Barcelona sob a batuta de Pep Guardiola. Naquele 27 de maio, Guardiola não contou com os laterais titulares na decisão contra o campeão vigente Manchester United. Daniel Alves e Abidal estavam suspensos. O que fizeram Guardiola e seus assistentes Tito Vilanova e Doménec Torrent? Deslocaram Puyol para a lateral direita, improvisaram o volante Yaya Touré na zaga, ao lado de Piqué, e entregaram a banda esquerda ao especialista brasileiro Sylvinho.

Barça na final da Champions 2009 contra o Manchester United: Puyol na lateral para suprir ausência de Daniel Alves vingou: Dome era auxiliar de Guardiola

Deu certo porque era o penúltimo jogo do ano. Deu certo porque Puyol havia atuado seis vezes naquele setor antes da partida mais importante daquela temporada. O chip com toda a movimentação tática do Barcelona estava inserido na mente dele. Puyol formou a linha de zaga com Yaya Touré, Piqué e Sylvinho. Domou os avanços de Rooney e Cristiano Ronaldo e deu liberdade para os gênios Xavi, Iniesta, Eto’o, Henry e o extraterrestre Messi. O Barça derrotou o time de Alex Ferguson por 2 x 0 e impediu o bi do time inglês montado no 4-3-3.

Vamos a outro exemplo. Este com Daniel Alves no time. Em 10 de abril de 2010, Guardiola escalou Puyol na lateral direita, e avançou o brasileiro para compor o trio de ataque na ponta-direita com o falso 9 Messi e Pedro. Adversário? Real Madrid! O Barcelona surpreendeu a trupe de Manuel Pellegrini e triunfou por 2 x 0, no Santiago Bernabéu. Domènec Torrent testemunhou tudo isso. Poderia citar outras exemplos no Bayern de Munique ou no Manchester City, mas esses dois bastam.

Puyol na lateral para liberar Daniel Alves no clássico de 2010 contra o Real Madrid, no Bernabéu: o time catalão surpreendeu o arquirrival e venceu no Espanhol

Àquela altura, os movimentos do Barcelona estavam todos programados. Era a primeira temporada da comissão técnica que sucedeu Frank Rijkaard, mas havia tempo de trabalho. O elenco tinha decifrado o que pretendiam Guardiola e seus pares. Era assim na relação do atual elenco do Flamengo com Jorge Jesus. Ainda não é desse jeito com Domènec Torrent, óbvio. Nem sabemos se será um dia. O fato é que, para mim, Dome tentou adaptar as ideias de Guardiola a um elenco que ainda sequer conhece no momento em que deveria fazer o simples para vencer. Em tese, não precisaria de tanto esforço. Muito menos inventar moda. Afinal, o Atlético-GO não disputava jogo oficial desde março e havia sofrido perdas causadas por testes positivos da covid-19 na estreia do técnico Vágner Mancini.

Rodrigo Caio pode ser o Puyol de Dome? Não. Com treinos à exaustão, talvez. Nesta quarta, não deveria ter sido exposto ao ridículo.Jorge Jesus dera demonstrações de que não confia nos estepes de Rafinha ao terminar a final do Carioca contra o Fluminense com três zagueiros. Lembram? O espanhol também deve ter percebido a carência no setor. Uma alternativa era deslocar Willian Arão para o setor. Talvez, ter usado linha de três, como Jesus tentou nos últimos minutos da final do estadual. Porém, escolheu o caminho mais difícil. A necessidade de poupar Rafinha e Arrascaeta é compreensível, porém, Dome teve noite de cientista maluco. Explodiu o laboratório.

Tentativa errada de fazer Rodrigo Caio emular Puyol bagunçou o Flamengo: zagueiro ficou exposto e virou atalho para vitória do Atlético-GO

Um detalhe chama a atenção neste início de trabalho. A insatisfação de alguns titulares com substituições. Foi assim com Arão e Gerson na estreia. A cena repetiu-se na troca de Everton Ribeiro por Arrascaeta. O elenco respeitava Jesus. Quando será assim com Dome?

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Marcos Paulo Lima

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