A inveja, o orgulho e a avareza na emperrada janela de transferências do futebol brasileiro

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Meu avô Ludegardes Paiva de Lima, o seu Deco, adorava contar histórias de Francisco Horta, ex-presidente do clube do coração do pai do meu pai e do meu pai — o Fluminense. A resenha preferida era falar do histórico troca-troca entre os clubes cariocas nos anos 1970. Ideia revolucionária do Horta, claro. Os olhos do tricolor de coração brilhavam na conversa. Para driblar a falta de dinheiro, os times trocaram jogadores.

O Fluminense cedeu ao Flamengo o goleiro Roberto, o lateral Toninho e o ponta-esquerda Zé Roberto. Em contrapartida, recebeu o goleiro Renato, o lateral-esquerdo Rodrigues Neto e o centroavante Doval. Cedeu Abel, Zé Mário e Marco Antônio ao Vasco e o cruz-maltino mandou Miguel mais uma compensaçào em dinheiro. Manfrini e Mário Sergio seguiram para o Botafogo e o alvinegro compensou com Dirceu. Vovô Deco adora a história por um motivo simples: o Fluminense foi campeão carioca em 1976. O troca-troca pegou e se repetiu mais uma vez no fim daquele ano.

Se meu avô Deco estivesse vivo, lamentaria a calmaria do mercado brasileiro. O maior pecado capital da janela de transferências tem sido a inveja. Poucas vezes se cobiçou tanto o que é do próximo. Os antídotos aos olhos grandes são a vaidade e a avareza. O risco de ter o orgulho ferido impede o fechamento de grandes negócios, as chamadas bombas, neste mês de dezembro. Em último caso, os cartolas preferem topar oferta do exterior a reforçar um potencial concorrente. Estabelecem valores impagáveis para o mercado nacional. Troca é praticamente palavra proibida. Faz parte do jogo. Compreensível.

O suposto interesse do Flamengo em Felipe Melo causou efeitos colaterais no Palmeiras. Um certo mimimi até, por parte do clube mais rico do futebol brasileiro. O volante ficará por lá.

O assédio do Flamengo ao zagueiro Dedé deixou o Cruzeiro em pânico. O time mineiro decidiu blindá-lo. Diz que o beque é inegociável. A Raposa também sofre fortes ataques do Grêmio pelo meia Thiago Neves. Em contrapartida, a diretoria celeste pensou em levar Luan de Porto Alegre para Belo Horizonte. Cogitou tirar Diego do Ninho do Urubu. Por falar no rubro-negro, o Flamengo sonhou com Luan. Ao que parece, tirou o pé do acelerador.

Os torcedores do São Paulo querem Rodrigo Caio longe do Morumbi. Porém, rejeitam a possibilidade de vê-lo, por exemplo, no Grêmio. O Santos torce o nariz para a oferta do Flamengo pelo atacante Bruno Henrique. O Botafogo deu um pulo ao escutar os boatos de que o goleiro Gatito havia sido sondado pelo arquirrival rubro-negro.

Vovô Deco diria que a solução nesse tempo de mercado travado seria aquela ideia revolucionária do Francisco Horta usada no futebol carioca nos anos 1970. Talvez, meu velho, talvez… O futebol está tão profissional que, às vezes, fica chato demais, mesmo. Mesquinho. Sem espaço para os “Hortas” da vida.

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Marcos Paulo Lima

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