O que o Vasco pode aprender com o Fluminense

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O Vasco de 2017 precisa aprender com os erros cometidos pelo Fluminense no primeiro semestre de 2016 para não se complicar no Campeonato Brasileiro. A eliminação do bicampeão carioca na inquestionável derrota por 3 x 0 para o tricolor na noite deste sábado, no Maracanã, sugere ao técnico Milton Mendes olhar com carinho para o passado e o presente do arquirrival.

Lembro como se fosse hoje. Há um ano, a discussão nas Laranjeiras era se dava para jogar com Diego Souza e Fred juntos. Vi a vitória do Flamengo por 2 x 1 no Fla-Flu do ano passado, no Mané Garrincha, e percebi in loco que seria difícil. Ambos deixavam o Fluminense lento, com pouca mobilidade, previsível, sobrecarregado defensivamente. Presa fácil para os marcadores. Eduardo Baptista não quis abrir mão deles. Demitido, perdeu o emprego para Levir Culpi.

O veterano treinador logo sacou que Diego Souza e Fred juntos era lindo no papel, mas arriscado na prática. Prejudicava uma molecada que começava a pedir passagem. Gustavo Scarpa, por exemplo. Não demorou muito e as grifes do elenco foram saindo da zona de conforto. Incomodado, Diego Souza pegou o caminho de volta ao Sport. Fred percebeu que sua situação também começava a ficar difícil. Desentendeu-se com o treinador, quase deixou o clube, mas um acordo fez com que ambos se suportassem mais um pouquinho. Até que a relação ficou insustentável e Fred acertou a transferência para o Atletico-MG.

Certo ou por linhas tortas, o Fluminense mudou para melhor depois das saídas de Diego Souza e Fred. Passou a jogar como um time, sem a obrigação de correr por um ou dois jogadores. A campanha poderia ter sido melhor no Brasileirão do ano passado, é verdade, mas o serviço sujo estava feito. Levir Culpi deixou plantada uma sementinha que poderia dar bons frutos em 2017. Abel Braga assumiu o cargo neste ano. Entendeu o espírito do novo tricolor e faz sucesso. O jovem time do Fluminense usa o futebol coletivo como seu maior trunfo. Joga em uma rotação diferente dos rivais. Compete, ganha e diverte.

Mas o que isso tem a ver com o Vasco?

Tenho a impressão de que o debate nos 21 dias que antecedem a estreia do Vasco no Campeonato Brasileiro contra o Palmeiras, no Allianz Parque, em São Paulo, é se será possível ter um time organizado, competitivo, moderno, veloz, com mobilidade, tendo Rodrigo, Nenê e Luís Fabiano juntos no mesmo time.

Eles jogaram juntos muito pouco neste ano, é verdade. Mas o pouco tempo em que estiveram em campo serve de alerta para o Campeonato Brasileiro — a única competição que resta ao Vasco neste ano. Longe de mim defender as saídas de Rodrigo, Nenê e do Luis Fabiano do Vasco, óbvio, mas, talvez, Milton Mendes tenha de abrir mão de dois deles taticamente. Quem sabe até dos três em situações extremas como a goleada sofrida na semifinal do Estadual. Sacrifício em troca de gás novo, compactação, velocidade, trocas de posição, de um time moderno como tem se apresentado o tricolor.

Milton Mendes tem tempo para pensar se pretende se escorar nos medalhões no Brasileirão, como fizeram os antecessores Jorginho e Cristóvão Borges, ou se prefere dar uma de Levir Culpi, ou seja, incomodar, gerar desconforto, investir em quem está sujando demais o uniforme para dar conforto a Rodrigo na zaga, Nenê no meio e a Luis Fabiano na frente. Estou falando do garoto Douglas, muito bom de bola, mas que está se sacrificando demais — sem contrapartida — pelo brilho individual dos três. Exatamente como acontecia com Gustavo Scarpa no ano passado, quando Diego Souza e Fred estavam juntos em campo pelo Fluminense.

O lance do segundo gol do Fluminense ilustra o que escrevo. Roubaram a bola do Nenê no meio de campo e ele ficou um tempão sentado no chão pedindo falta. Enquanto isso, o Fluminense iniciava um contra-ataque em altíssima velocidade concluído por Wellington Silva para o fundo da rede. A atitude de Nenê é contrária a tudo o que o futebol moderno prega.

Se olhar com carinho para a base, investir em garotos do nível de Douglas — como o Fluminense passou a tratar Gustavo Scarpa — o Vasco pode, sim (por que não?), mudar da água para o vinho no restante da temporada. Inspirado justamente no carrasco deste sábado. Romper com o sistema custa caro. Desapegar causa perdas e danos. Incomoda, deixa traumas, sequelas, cicatrizes. Mas em alguns casos faz um bem danado. O Fluminense está aí para provar ao Vasco que é possível. Basta ter coragem. Quem estiver realmente comprometido com a reconstrução do Vasco vai entender.

Marcos Paulo Lima

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