Quer fazer sexo anal? Antes aprenda a chuca com segurança

Publicado em Sexo e saúde

Frequentemente citada em memes, piadas nas redes sociais e conversas informais sobre sexo, a chamada “chuca” acabou se tornando um termo popular na cultura digital brasileira. Apesar do tom bem-humorado com que muitas vezes aparece na internet e na cultura pop, a prática — que se refere à higienização anal antes do sexo — ainda gera dúvidas quando o assunto é saúde e cuidados adequados com o corpo.

Por trás do humor, existe, muitas vezes, questionamentos reais sobre a higienização retal pré-sexo anal. Por isso, o Blog Daquilo conversou com Danilo Munhóz, coloproctologista da clínica Primazo, para preparar um guia de como fazer a chuca da forma mais confortável possível. Confira:

Chuca para leigos 

Segundo o especialista, a chuca é definida como uma lavagem do reto feita com introdução de líquido pelo ânus, geralmente para tentar remover resíduos fecais da parte final do intestino. Na medicina, enemas e lavagens retais têm indicações específicas, como preparo para exames, alguns tratamentos para constipação e uso de medicações por via retal.  “Para fins sexuais, ela não é uma necessidade médica obrigatória, e sim uma prática de higiene que algumas pessoas escolhem fazer”, define. 

O que pode acontecer durante o sexo anal caso o penetrado não faça a chuca antes é nomeado pelos praticantes como “passar cheque”. O termo significa sujar o parceiro de dejetos fecais. É comum encontrar duchas higiênicas em farmácias propícias para a lavagem retal. Na hora, basta injetar água limpa no ânus, segurar, e liberar até que o líquido saia limpo.  

Segurança fisiológica

A forma mais segura de fazer a chuca é sempre a menos agressiva possível. Na prática, isso significa evitar excesso de pressão, objetos improvisados, repetição excessiva e não tentar fazer uma limpeza profunda. “Muitas vezes, evacuar normalmente e fazer uma higiene externa cuidadosa já reduz bastante a preocupação”, guia Munhóz. “Quando a pessoa opta por fazer a lavagem interna, a ideia mais segura é usar técnica suave, sem forçar, sem dor e sem insistir se houver desconforto.”

Embora não exista um volume de água cientificamente ideal para a prática, quantidades menores tendem a ser mais prudentes. “Em geral, o raciocínio médico é usar o mínimo necessário, porque quanto mais líquido e quanto mais profunda a lavagem, maior a chance de irritação, de levar água para segmentos mais altos do intestino e de depois ainda haver saída de líquido na hora da relação”, o coloproctologista alerta. 

Frequência e saúde intestinal 

Também não existe um consenso médico universal sobre um número de vezes seguro para fazer a chuca. Mesmo assim, o especialista recomenda não banalizar a prática e nem limpar o reto sucessivamente. “Quanto mais frequente for, maior a chance de irritação local, microtraumas e inflamação. A orientação mais segura é evitar transformar isso em rotina diária ou em repetidas lavagens seguidas”, argumenta. 

Munhóz acrescenta que alguns estudos sugerem relação entre a chuca e prejuízos na flora intestinal. “Além disso, do ponto de vista clínico, é bastante plausível que lavagens repetidas irritem a mucosa e alterem esse equilíbrio local. Ou seja, não é uma prática totalmente neutra para o organismo.”

Ducha higiênica, seringa ou enema

O aparelho utilizado para a higienização ainda faz diferença. De acordo com o médico, o risco muda conforme a pressão, o formato do bico, o controle do volume e o quanto aquele dispositivo foi feito, ou não, para essa finalidade.

“Métodos improvisados ou com pressão maior podem machucar mais a região anal e o reto. Em geral, o maior problema não é só o nome do dispositivo, mas a forma como ele é usado. Quanto mais improvisado, rígido ou traumático, pior”, resume. 

Apenas a água costuma ser a opção mais simples e menos agressiva para quem decidir fazer a lavagem. “Sabonete, vinagre, café, água oxigenada e outras misturas caseiras não devem ser usados, porque podem irritar e até provocar inflamações importantes no reto e no cólon”, aponta Munhóz. “Enemas prontos com substâncias laxativas, especialmente os à base de fosfato, também não devem ser usados como rotina de higiene sexual, porque podem irritar a mucosa e, em algumas situações, até causar alterações mais graves no organismo.”

Tempo ideal antes do anal

Recomenda-se fazer a chuca em um tempo considerável, porém não muito longo, antes da relação. “O ideal é esperar até que não haja mais retorno de água e que a região esteja confortável, sem ardor ou sensação de evacuação iminente”, exemplifica. Esperar pelo menos de 30 a 60 minutos antes do sexo faz mais sentido do que fazer a lavagem e ter a relação logo em seguida. “Isso ajuda a reduzir desconforto e evita surpresas com saída de líquido residual.”

Riscos e sinais de alerta 

Os principais riscos de fazer a chuca de forma incorreta abrangem dor, ardor, sangramento, fissuras, irritação da mucosa, inflamação do reto, infecção e, em casos mais graves e raros, lesões profundas e até perfuração. “Também existe risco de usar soluções inadequadas e causar alterações químicas ou de eletrólitos, especialmente quando a pessoa usa produtos laxativos ou faz lavagens exageradas”, diz Munhóz. 

A pessoa deve evitar a prática ou procurar avaliação médica se tiver dor importante, sangramento, ardor persistente, saída de secreção, sensação de lesão, febre, dor abdominal, vontade de evacuar que não melhora, ou qualquer piora depois da lavagem. “Merece cuidado especial quem já tem hemorroidas inflamadas, fissura anal, proctite, doença inflamatória intestinal ou alguma doença anorretal em atividade. Nesses casos, a lavagem pode piorar bastante o quadro”, completa.