Fingir orgasmo ainda é comum entre as mulheres? Entenda

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“Fingir orgasmo foi a coisa que eu mais fiz na vida”, comenta B*, cuja motivação era finalizar, o mais rápido possível, o sexo. Para ela, que é heterossexual, a maioria dos homens não transam pensando nas mulheres: “pensam neles mesmos”. Assim, encenar o apíce sexual é uma forma de não gerar um problema com o parceiro. “Homem com ego ferido é a coisa mais chata do mundo. É insistente e quer provar que não tem nada com ele e, sim, com você”, aponta.

Ela não está sozinha. A* tem uma percepção e reação similar: “Eu finjo quando quero acabar com o sexo”, afirma. Bissexual, ela comenta que, com mulheres, sempre chegou ao ápice. “Eu acho que o sexo tem que ser prazeroso e tem horas que não vai ser por simples incompatibilidade. Então, para acabar mais rápido de uma forma discreta o que está ruim, eu finjo que gozei”, pontua.

A sexóloga e psicóloga Alessandra Araújo completa que este comportamento é muito comum. “Há uma pressão para que a mulher ‘entregue’ um orgasmo, validando a performance do parceiro. Muitas fazem isso para evitar constrangimentos ou não frustrar o outro. Mas esse fingimento revela relações com pouca comunicação real, medo de julgamento e uma desconexão profunda entre corpo e desejo”, afirma. A longo prazo, isso mina a autenticidade da conexão sexual, gera frustração e impede que o casal descubra juntos o que realmente funciona.

O Dia do Orgasmo, celebrado em 31 de julho, surge como um convite para quebrar esses silêncios, promover o autoconhecimento e reafirmar o direito das mulheres ao prazer.

E o impacto emocional de nunca ter vivido um orgasmo ou de sempre fingir?

Alessandra é direta: “É devastador. A mulher se sente frustrada, começa a duvidar de si, se envergonha do próprio corpo. O fingimento gera uma solidão enorme dentro da relação, porque ela nunca está sendo ela mesma. Pode levar à ansiedade, perda de desejo e até depressão. O prazer é saúde — e sua ausência, um sofrimento”.

Outro ponto importante é diferenciar prazer de orgasmo. “Prazer é o processo: toques, beijos, excitação, bem-estar. Orgasmo é o ápice, a descarga intensa de sensações. Muitas mulheres não sabem disso, acham que sem orgasmo não houve prazer, ou confundem excitação com clímax. Essa confusão cria ainda mais pressão e frustração”, pontua.

Para a sexóloga, grande parte desses bloqueios está relacionada à falta de educação sexual de qualidade. “Se a educação se limita à reprodução e à prevenção, sem abordar o prazer e o autoconhecimento, as mulheres crescem sem saber como seus corpos funcionam. Muitas nem sabem que o clitóris é a principal via para o orgasmo. Crescem com vergonha de se tocar, achando que há algo errado com elas”, diz. Esse desconhecimento gera insegurança, baixa autoestima e sensação de inadequação.

A autoestima é peça-chave nesse processo. “Uma mulher com autoestima se sente confortável em seu corpo, confiante para expressar desejos, aberta à entrega. E o autoconhecimento é o mapa do prazer. Ao se tocar, explorar fantasias, entender o que a excita, ela passa a se guiar e a guiar o outro com mais clareza e prazer”, afirma. Sem esses dois pilares, o sexo pode se tornar um espaço de desconforto, culpa ou esforço para agradar, em vez de entrega mútua.

Mas como romper esse ciclo e os padrões que colocam o prazer feminino em segundo plano? Alessandra destaca cinco frentes: educação sexual ampla e inclusiva, diálogos honestos entre casais, valorização do autoerotismo como forma de empoderamento, representações mais realistas da sexualidade na mídia e o enfrentamento ativo dos mitos. “O orgasmo feminino precisa ser tratado com naturalidade, respeito e liberdade. Toda mulher merece se conhecer e sentir prazer — e isso começa ao romper com os silêncios que nos ensinaram a carregar.”

Bianca Lucca

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