O que têm a ver Fidel, amor e paredón? Vamos pensar a respeito juntos? Comecemos refletindo sobre a gravíssima crise enfrentada por Cuba, os milhares de pessoas em vulnerabilidade social e o regime político resistente que, apesar das pressões internas e externas, não deixou de celebrar o centenário do carismático Fidel Castro no último 13 de agosto. Foram vários eventos pelo mundo, inclusive no Brasil. Nessa vibe, voltemos dezoito anos no tempo, a 2008, quando El Comandante surpreendeu todos ao anunciar a cessão do poder a seu irmão Raúl, enquanto estivesse sob cuidados médicos. Sem retornar ao cargo, ele morreu em 2016.
Talvez jamais saibamos a causa de sua morte, uma falta de transparência que me fez lembrar da seguinte chamada de matéria publicada pela Veja meses antes do proclamado afastamento: “Fidel fuzila a internet. Regime comunista reforça censura com decreto que inviabiliza acesso do povo à web”. Segundo a revista, o governo alegava querer “evitar o uso fraudulento da rede”, mas ninguém duvidava se tratar de ato de isolamento para impedir o livre fluxo de informações.
A rede mundial de computadores é um instrumento importantíssimo e obviamente a maioria da população se ressentiu da medida. Mas muitos habitantes da Ilha idolatravam O Comandante, gratos por um país sem desemprego, favelas e violência urbana; com alimentação, saúde e educação para todos, expectativa de vida alta e taxa de mortalidade infantil baixíssima. Esses índices, divulgados pelo próprio governo durante décadas, o eternizaram no coração do povo. E imagino que tais pessoas não quisessem ou talvez lhes tenha faltado ousadia para colocar em risco, pela não adesão plena ao sistema vigente, as garantias fundamentais alcançadas.
Muitos de nós se sentem aliviados por não termos problemas como o emparedamento da web, típicos de um país comunista. Mas não conseguem atentar para o fato de o controle também ser ingrediente primordial, por exemplo, nos relacionamentos abusivos que têm tirado a vida de tantas brasileiras. E sobre isso não faltam, sobram notícias em todas as mídias, tanto as tradicionais quanto as digitais, sempre a nosso dispor.
Um número inacreditável de mulheres vive uniões pavorosas com parceiros magnéticos como Fidel, admirados no trabalho e nas rodas sociais. Em público, de tão encantadores, eles arrancam suspiros e despertam inveja. Mas, entre quatro paredes, fazem da vida delas um inferno, evidenciando uma falta de clareza como a que costuma cercar o verdadeiro estado de saúde de líderes que podem ter sua morte escondida por meses.
Assim, elas veem o sonho do início da relação aos poucos se converter em pesadelo, os bons momentos se tornarem raros. Quem as havia catapultado para uma vida incrível, de elogios e mimos, agora as cerca de violência psicológica e até física, minando-lhes a saúde. Dominadas pela depressão, só lhes resta a tristeza, a culpa, o medo, que lhes tiram a vontade de viver e, não raramente, as levam a flertar com a morte como única saída para se livrarem da pressão, da dor impingida por seus antigos amores, agora algozes.
Estrategicamente são isoladas por seus companheiros, como os cubanos sem internet, e mantidas sob um tipo de vigilância semelhante ao sistema panóptico utilizado no Presídio Modelo – antiga prisão daquele país, construída em formato circular, com uma só torre de monitoramento de onde bastava um guarda para supervisionar os detentos. Sem saber se estavam sendo observados, eles naturalmente se autocontrolavam, não se arriscavam a sair da linha e serem punidos, tal qual mulheres que vivem relacionamentos doentios.
E, para garantir o domínio sobre as parceiras, esses carcereiros agem como os integrantes do Comité de Defensa de la Revolución – CDR, fiscalizando o comportamento e até os pensamentos de suas reféns, selecionando amigos e parentes com quem elas podem se relacionar, alegando que a medida é parte de cuidados amorosos. Evidentemente, apenas os que rezam pelas suas cartilhas são bem-vindos. Os demais são rotulados, no mínimo, de inconvenientes, inclusive pais e irmãos. Dessa forma, elas vivem sem apoio e como se estivessem “pisando em ovos”, com cautela e delicadeza, para que algo como uma simples confraternização familiar não termine em paredón.
Impedidas de construírem uma vida profissional que lhes embase o próprio sustento e o dos filhos em caso de divórcio, temem perder as benesses concedidas pelo parceiro, como os cubanos que não ousam comprometer suas conquistas básicas. Também receiam terminarem a vida sozinhas, serem responsabilizadas pelo fracasso da união e até um possível linchamento moral quando a sociedade receber a notícia do divórcio daquele ser maravilhoso. Porque as pessoas em geral só conhecem o lado Dr Jekyll desses homens. O Mr Hyde se manifesta apenas no sacrossanto recesso do lar.
Um povo naturalmente alegre, barulhento e, ao mesmo tempo, desesperançado e temeroso – essa descrição dos habitantes de El Caimán Verde lembra a de mulheres que vivem relações abusivas e já aprenderam a disfarçar o drama socialmente, mas revelam suas tristes figuras na intimidade. Ainda não conheço a bela Ilha, mas dizem que lá há dois países em um – o turístico e o real, como uma relação de abuso pode produzir duas vidas – uma pública e outra privada.
Falam também que ninguém passa imune por La Llave del Golfo. E, da mesma forma, ninguém passa imune por um amor doentio. E aí resta a pergunta: Você conhece alguém que, mesmo sem nunca ter ido a Cuba, vive como se lá estivesse?
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2 thoughts on “FIDEL, AMOR E PAREDÓN”
Texto muito interessante e verdadeiro!! Parabéns por mais um texto maravilhoso!
Mais um excelente post da Maraci Sant’Ana! Este em especial com muito significado para uma pessoa muito próxima. Aliás, quem não conhece exemplos desse tipo de relacionamento? Os textos da Maraci são uma luz e um guia inestimável.