Na noite da votação do primeiro turno, recebi a seguinte mensagem, enviada por um amigo muito querido, branco, heterossexual, católico, com curso superior, casas próprias e um ótimo carro, além de boa aposentadoria: “Eu, se estivesse no lugar do Lula, faria um pronunciamento e diria que não disputaria o segundo turno, pois a sociedade e as mídias preferiram apoiar a barbárie!”. Entendo bem essa revolta. Muitas vezes tenho a sensação de estarmos de volta à Idade das Trevas. Tudo modernizado, muito tecnológico, mas não menos trevoso.
E, ao longo da semana, outras manifestações me chamaram a atenção. Uma delas é um vídeo do influenciador digital Fabito, que fez um desabafo sob o título “Um grande FODA-SE”. Na mensagem, ele se identificou como um homem branco, agnóstico, formado, com casa própria, carro e emprego. Disse que, não obstante sua situação confortável, votou em Lula pensando em um país melhor para as mulheres, os pobres, os negros, os adeptos de religiões com matriz africana. Mas se indignou com a quantidade imensa dessas pessoas que, ao votarem em Flavio Bolsonaro, deixaram claro não se importarem em perder o que foi por elas e para elas tão duramente conquistado.
Ele está certo em sua decepção. Se paramos um instante que seja para pensar, temos a sensação de que morreremos sem entender negro votando em racista declarado; LGBTQIAPN+ votando em quem confessa que preferiria ter um filho morto a um filho gay; pobre votando em bilionários que enriquecem à custa da desgraça dos miseráveis; trabalhador votando em quem já deixou claro que lhe tirará os direitos; mulher votando em misógino que prega que há aquelas que não são merecedoras nem de serem estupradas; indígena votando em quem quer abrir o país para desmatadores, grileiros, garimpeiros ilegais.
Outro post interessante é do empresário, palestrante e escritor Eduardo Moreira, que se identifica como católico não petista e apresentou uma lista de medidas que Flavio Bolsonaro estaria preparando, muitas com repercussão direta e devastadora na vida das pessoas mais humildes: salário mínimo sem reajuste de inflação; desindexação de aposentadorias e pensões; trabalho remunerado por hora, sem limites, sem benefícios, sem férias e sem décimo terceiro; privatização do SUS e da Educação, com o fim do sistema de saúde pública, inclusive da Farmácia Popular, e do sistema de Educação totalmente financiado pelo Estado; possibilidade de redução da licença maternidade; feminicídio voltando a ser tratado como um homicídio qualquer.
Deixemos de lado Lula e o PT, que tanta gente odeia, e nos concentremos apenas no que aconteceu durante a pandemia, no comportamento do governo de extrema-direita representado por, com licença da má palavra, Jair Bolsonaro; no nível de irresponsabilidade, descaso, masoquismo, psicopatia; nas setecentas mil pessoas mortas enquanto o presidente da República e seus asseclas passeavam de jet ski, faziam motociatas e lives às gargalhadas, imitando os infelizes que buscavam o ar para se manterem vivos, em hospitais que não tinham mais nem leitos nem recursos para socorrê-los. E, pra piorar, postergavam a compra das vacinas que podiam salvar vidas e amenizar o genocídio.
Qualquer um com um mínimo de inteligência consegue intuir que o governo de Flavio Bolsonaro será ainda pior do que o do pai, porque ele terá o Congresso e o STF nas mãos. Não duvido nada que, em breve, a escravidão, que não foi realmente abolida no Brasil, retorne com força e volte a ser normalizada. Que pessoas LGBTQIAPN+, pobres e indígenas sejam aos poucos empurrados para campos de concentração como os criados na década de 1930 no Ceará, onde foram depositados perto de setenta e quatro mil flagelados da seca que procuraram a capital com um pedido de socorro e terminaram caindo em uma armadilha.
Nossos livros de História não citam essa pavorosa passagem, mas o resultado dessa “generosidade” do poder público foi gente confinada que continuou vivendo em condições sub-humanas. Apenas os homens saudáveis eram autorizados a deixar os “abrigos”, para trabalhar em obras do governo. Sem comida, vacinas, saneamento básico, muitos morreram à míngua, atingidos por doenças como sarampo e febre tifoide, inclusive cerca de nove mil crianças. Era gente que os poderosos não queriam ver transitando pelas cidades, poluindo as ruas, morrendo na contramão e atrapalhando o tráfego, o público, o sábado.
Daí, muitas e muitas vezes, surgir em nós uma vontade louca de sair correndo sem olhar pra trás e nunca mais parar, lamentando que a Terra não seja plana como afirmam os bolsonaristas, o que nos permitiria chegar a um ponto final de onde pudéssemos simplesmente nos lançar no espaço. Só que, jogando a toalha, não estaremos honrando os que lutaram e até morreram para que nós tivéssemos esses últimos quarenta anos de Democracia. E, o que é pior, estaremos abrindo mais espaço para essa nova oligarquia, uma família sórdida que nunca fez nada pelo país e quer continuar enriquecendo à custa dos não-ricos sem noção.
Li que o apelido Idade das Trevas foi dado à Idade Média pelos renascentistas, que consideravam que as artes e as ciências haviam sido terrivelmente prejudicadas pela dominação religiosa. Para os historiadores modernos, essa denominação não é adequada, por ser considerada simplista e preconceituosa. Mas, com tantas sandices, com tantas patifarias que têm sido ditas e feitas “em nome de Deus”, entendo, com a licença dos historiadores, que, no Brasil, esse qualificativo cai como uma luva. O que temos visto é de horrorizar quem tenha um mínimo de consciência.
O momento é muito delicado, mas cada um de nós só é dono de um voto. Podemos e devemos ponderar, nas conversas a respeito de política, sobre a importância de se preservar a nossa Democracia, que está correndo um risco seríssimo. Podemos e devemos nos engajar nessa tentativa de dar a volta por cima. Mas sem desrespeitar os que pensam de maneira diferente de nós porque, como dito pelos existencialistas, o homem deve ter liberdade de escolher até mesmo o próprio aprisionamento.
Se essas pessoas que preferem viver como gado forem vencedoras no segundo turno, vamos continuar lutando pela liberdade, inclusive a delas. Ninguém solta a mão de ninguém! Foi desse jeito que conseguimos deixar as cavernas. Sei que dará vontade de cruzar os braços e apertar o botão QUE SE LASQUEM, mas, tendo em mente que somos todos um, façamos então o que está ao nosso alcance, sempre da melhor forma, trabalhando até o último instante por aquilo em que acreditamos, colocando nisso toda a nossa força, toda a nossa potência, toda a nossa alegria, toda a nossa convicção.
E, se o pior acontecer, tenhamos em mente que isso não será o fim do mundo. Foi também na Idade das Trevas que surgiram as universidades e que se desenvolveram a Agricultura, a Arquitetura e a Filosofia. O Brasil conseguiu sobreviver a fases terríveis. E sempre houve e haverá gente disposta a virar o jogo. Porque, embora muitos ainda não tenham entendido, o ser humano está destinado a agir, com coragem, com sabedoria, com justiça. E, como diz o ditado, não há bem que sempre dure nem mal que nunca se acabe, nem golpe de Estado.
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14 thoughts on “DESTINADOS A AGIR”
Parabéns! Parabéns! Mais um texto que traz luz sobre que mundo queremos para a sociedade! Vivemos um momento delicado, pois na minha análise estamos diante de quem pensa no bem estar do povo. Do outro lado está a barbárie! O ódio está dificultando o uso da racionalidade em prol do bem comum da sociedade!
Marlene Ferreira via WhatsApp: Maravilha! Vc é D+. Bora de Lula!
Oh, minha amiga! Você está certa!
O pior é que muitos são os desavisados e de memória curta. De todo modo, precisamos deixar nosso legado de luta e resistência para um mundo melhor para as futuras gerações!
Frase super necessária ” ninguém solta a mão de ninguém. “Ser coerente nesse país tornou – se um feito árduo. É um desmonte total.
Pedro via WhatsApp: Excelente texto.
Maumau via WhatsApp: Discordo. Aceito sua opção.
O que mais? o texto está completo e rico de informações precisas. Há uma tristeza medonha qdo penso q o miliciano possa ganhar, não tanto só por ele, mas pela maioria do parlamento votado e que tem a mesma linguagem de um cara (homem é elogio) que é sabido ser traidor de seu país, concomitantemente dr seu povo, maioria vulnerável. Chorei no 1° turno, quero sorrir no 2° (sem arrogância), mas aliviada e ciente que a luta será catastrófica pelo parlamento contra seu povo
Cesar Palvarini via WhatssApp: Oi Maraci. Teu texto tá impecável! Indignação, história e mapa do caos! Talvez desperte os insensíveis! Parabéns!👏👏👏💪💪💪💪
Washington Dias via WhatsApp: Seu texto é excelente! Sob todos aspectos da técnica da escrita, irreparável, por isso mesmo sou seu admirador declarado. Quanto aos argumentos contra a atuação de Bolsonaro , em seu recente governo, ouso, respeitosamente, discordar. Saúde, paz e felicidade para você e todos os seus!
Parabéns!!!Mas dá uma tristeza essa realidade….
Belissimo texto! Não sabia dos campos de concentração no Ceará… não podemos mesmo esquecer que isso aconteceu no Brasil também y pode muito bem acontecer de novo… y principalmente não podemos nos entregar ~ se não tomarmos conta, eles tomam! vamos sair sa bolha, vamos pra rua, falar com estranhos y virar voto!
PE via WhatsApp: Que texto, Maraci!! Da vontade de sair compartilhando, imprimir e sair entregando na rua, aos cegos pelo bolsonarismo para ver se acordam. Pq esse texto desenha o que aconteceu nos 4 anos e o que pode acontecer.
Oswaldo via WhatsApp: Eu li seu artigo! Muito bom!
Marlene Ferreira via WhatsApp: “Gente, penso sempre uma coisa… Acompanhemos BBB que tem um engajamento muito louco. Quem vence? Seja uma pessoa incrível, seja um ser humano de mierda, é sempre a pessoa que começa a ser perseguida dentro da casa. Sei que tem muita gente que torce o nariz, mas é uma baita de uma experiência antropológica e mostra um comportamento. O sentimento de compaixão, mobiliza. E a agressividade do Flávio com um velhinho de 80 anos é uma imagem que a gente precisa explorar, eu acho. Tipo: se ele trata um octogenário que é presidente da república assim, como não vai tratar o idoso comum? Sem respeito, de forma intimidatória. (autor desconhecido)”.