Cosette Castro
Brasília – Chegamos a edição 540 e hoje o Blog traz um tema complexo que da medo e apreensão nas pessoas que cuidam familiares: a necessidade de colocar o familiar em uma Instituição de Longa Permanência para Pessoas Idosas (ILPIs).
A possibilidade envolve curiosidade (como seria se…), mas também culpa (de não ser uma “boa filha, esposa”) e medo. Mas, em algum momento, pode ser inevitável. Seja pela necessidade de cuidado especializado 24h, seja pelo adoecimento físico e mental de quem cuida.
É difícil admitir a necessidade de colocar um familiar com demência em uma ILPI, nome dado aos antigos asilos. Inicialmente pode soar como abandono. Também é difícil admitir a própria fragilidade e constatar que não é mais possível dar conta de tanta dor e desafios. Às vezes é uma questão de sobrevivência.
É preciso reunir coragem para visitar uma ou várias instituições. Mesmo uma simples visita pode não ser fácil. Uma sugestão é não ir sozinha. Mais de um olhar ajuda na tomada de decisão.
Tem quem perca o sono e sequer consiga falar com a família e amigas. Cada passo até chegar a uma decisão envolve desgaste emocional. Ainda assim, é importante conversar com outras pessoas e com sua terapeuta.
Encontrar uma ILPI que agrade não é fácil. Em geral, espera-se que sejam perfeitas, quase iguais a nossa casa. Na imaginação devem ser acolhedoras, cercadas de verde, equipe alegre com atividades lúdicas várias vezes na semana. Quase um SPA.
A realidade em geral é outra. Há pessoas idosas demais e espaço de menos com pouco verde. No Distrito Federal não há instituições públicas. Tem apenas 05 com convênio com o governo. Os quartos são acanhados, sem privacidade, pois poucas famílias podem pagar quartos individuais. Na maioria dos casos, não há médicos nem enfermeiras 24 h.
Cristina Hoffmann, da OPAS, é a convidada do Programa Terceiras Intenções, dia 23/03
Há uma pergunta que precisa resposta: o familiar doente realmente está melhor com a pessoa que cuida, que tenta dar conta de tudo? Até que ponto é possível “estar melhor” quando a cuidadora familiar está exausta, adoecida física e emocionalmente e sem tempo para olhar para si? Como cuidar bem se não há espaço para o autocuidado?
Há várias soluções parciais. Como a contratação de cuidadoras profissionais. Ou a contratação de home care, cujos profissionais fazem rodízios semanais e dificilmente estabelecem vínculo com as pessoas enfermas. Sem contar que a casa vira um entra e sai de pessoas estranhas.
Não existe solução fácil. Além da culpa e do medo, não existe vínculo e confiança na instituição, algo que é construído aos poucos entre gestores, técnicos e familiares e entre pacientes e equipe da ILPI.
Além disso, nem toda família tem orçamento para pagar uma instituição. Não é por acaso que 95% das pessoas que cuidam familiares com demência são mulheres (Unifesp, 2025), que abandonam projetos de vida, assim como vizinhas e amigas que cuidam sem remuneração.
Em termos de políticas públicas, o Plano Nacional de Cuidados está em andamento. Há duas ações prioritárias para 2026. A ampliação das equipes de visitas a casa de pessoas idosas e de pessoas com deficiência que necessitam cuidados e também o aumento da oferta de ILPIs. Uma diferença fundamental do que ocorria há 05 anos, quando começou o Blog e pouco se falava da construção de uma Sociedade do Cuidado.
PS: Nesta terça, dia 23, teremos o primeiro programa de entrevistas TERCEIRAS INTENÇÕES de 2026, das 19 às 20h no Canal do Youtube Coletivo Filhas da Mãe. A convidada será Cristina Hoffmann, da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), que vai falar sobre a adesão do Brasil à Rede Global de Cidades e Comunidades Amigas das Pessoas Idosas.
PS1: O texto original foi escrito com Ana Castro e adaptado para esta edição.


