Cosette Castro
Brasília – Todo dia é 08 de março. Dia de escrever e falar sobre as violências que as mulheres vivenciam. Diretas ou indiretas, inclusive aquelas relacionadas à sobrecarga do cuidado gratuito.
É preciso se escandalizar coletivamente, para além do 08M, pela falta de cuidado coletivo com mulheres de todas as idades no Brasil. Exatamente por isso o texto de hoje trata sobre cuidado não remunerado.
Durante muito tempo nos foi dito e ensinado que o cuidado da casa e de pessoas era “coisa” de mulheres.
Ainda hoje, milhões de homens e também de mulheres seguem ensinando às meninas a cuidar e os meninos a receberem cuidado. Ensinam as mulheres a servir e a se sentir culpadas se a qualidade do cuidado gratuito não estiver “bom”.
Essa doutrina foi passada a ferro e fogo em um mundo comandado por homens na política, no judiciário, nas empresas, nas religiões. E, até pouco tempo, nas universidades.
Foi repetida tantas vezes, foram dados tantos elogios e prêmios às “mulheres do lar”, que o “dom” do “cuidado feminino” foi naturalizado. Como se não fosse uma construção social.
Só faltou contar que as mulheres não tinham autorização para estudar no Brasil até há 100 anos. E quando tiveram, não era no mesmo nível dos homens. Nem de trabalhar sem autorização do marido até a constituição de 1962. Ou seja, há 64 anos.
Elas não tinham direito a ter conta bancária sozinha. Só junto com a tutela de outro homem (pai, irmão, marido) que mandavam no salário ou herança que elas tinham direito. Ainda hoje alguns homens ainda tentam controlar a conta bancária e até sequestrar o cartão de crédito das mulheres (violência financeira).
Faltou contar em alto e bom tom que foi preciso milhões de mulheres nas ruas todos os anos para que os direitos de voto e até de praticar esportes passassem a ser garantidos na Constituição. Mas ainda assim, as mulheres seguem servindo e cuidando.
Quando só a mulher cuida, há alguém que sabe que não precisa se responsabilizar pelo cuidado. Em todos os setores.
Na família, há um homem que sabe que, se ele não cuidar, há uma mulher que vai “dar um jeito” de resolver a situação. Haverá uma mãe, avó, companheira, irmã ou filha educada para cuidar gratuitamente. O mais invisível possível. Sem reclamar, sob o risco de ser considerada egoísta.
Mesmo que isso signifique sobrecarga física e mental para essa mulher. Que signifique noites em claro, sonhos e planos desfeitos. E deixar de viver sua vida plenamente.
Essa é a realidade de milhões de mulheres brasileiras de todas as idades, avós e até bisavós. Elas estão exaustas, como vêm apontando os estudos sobre cuidado não remunerado.
A boa notícia é que já temos a Lei da Política Nacional de Cuidados que corresponsabiliza os homens. Eles também têm obrigação de realizar cuidado doméstico e de pessoas. E essa corresponsabilidade não se restringe à família.
Inclui as empresas, a sociedade e o Estado. Este último, até 2021, era absolutamente omisso e conivente com o cuidado sem remuneração. E com a precariedade do cuidado profissional.
Está mais do que na hora de cuidar das mulheres de todas as idades para construir uma Sociedade do Cuidado. E isso está começando aos poucos com a chegada do Plano Nacional de Cuidados (dez/2025).
Cada pessoa pode contribuir para a mudança.
Um passo importante é estimular que a sua cidade e estado participem do Plano Nacional de Cuidados e criem nos territórios o seu Plano de Cuidados. Mais informações em Plano Brasil que Cuida, no aplicativo govbr

