Histórias da Memória

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Ana Castro & Cosette Castro + Míriam Morata

Brasília – Em 2021, mais uma vez,  o Coletivo Filhas da Mãe Conta Histórias.

Estamos no finalzinho de agosto e decidimos antecipar o setembro roxo, mês mundial de conscientização sobre a doença do Alzheimer.

Toda  sexta-feira até o final de setembro, teremos uma pessoa convidada  que vai contar sua história e  a relação com o Alzheimer.

Abrimos os relatos, essas Histórias da Memória, com uma parceira, que, além de ex-cuidadora,  é uma grande escritora: Miriam Morata. Ela  possui duas páginas conhecidas no Facebook. Alzheimer e Depressão: cuida de mim! e Alzheimer, diário do esquecimento.

Miriam Morata – “O telefone tocou às 2h da madrugada. Era minha mãe chorando, dizendo que, quando acordou, viu que meu pai havia pego a chave e saído de casa.

Ainda de  pijama, segui para o bairro onde meus pais moram. No caminho, liguei várias vezes para minha mãe para saber se ele havia aparecido. Ela não conseguia parar de chorar e eu temia pelos dois. Ela é uma pessoa idosa com hipertensão e, ele, uma pessoa idosa que não tinha noção da realidade naquele momento.

De repente, vi alguém caminhando na praça, entre as árvores. Pelo andar e o corpo inclinado, percebi que era meu pai. Me aproximei e ele me olhou com estranhamento.

Perguntei o que ele estava fazendo ali e ele me disse que um homem iria buscar uma “peça”. Vendo aquela situação, disse que eu já havia resolvido o problema. Ele sorriu aliviado e eu me segurei para não chorar na frente dele.

Disse  que precisaríamos voltar para casa, pois minha mãe estava esperando. Ele não resistiu, mas percebi que não sabia quem eu era ou quem minha mãe era. Quando chegamos em  casa, ela tremia e chorava muito.

Meu pai me olhou como uma criança olha para a mãe, sem pedir socorro, mas como se quisesse colo.

Depois que  ele foi dormir, minha mãe me olhou com desespero, dizendo que achava que papai estava ficando louco e que não iria aguentar. Eu disse que estávamos juntas e que cuidaríamos dele.

Foto cedida por Míriam Morata

Voltei para casa. A noite estava muito escura e fria. As ruas estavam desertas e eu compreendi que a solidão começava a tomar conta do meu mundo.

Eu não tinha vontade de chorar e não conseguia definir aquele vazio que ameaçava o que  eu havia construído até agora: meus valores, certezas, planos.

Cheguei em casa e senti a paz da mãe, que agasalha o filho e dá o beijo de boa noite”.

Míriam entendeu naquela noite que a rua havia se tornado um lugar perigoso. Que as chaves são objetos sagrados e que existem muitas realidades convivendo no mesmo espaço e tempo. “A novidade é que não sei se a minha realidade é a mais real de todas”.

No relato de hoje estão presentes o  medo, a solidão e o desespero de milhares de mulheres cuidadoras que enfrentam essas e outras situações desafiadoras. Tornar-las públicas é uma maneira de falar da dor.

Estamos de portas abertas para receber relatos de até 50 linhas de nossas leitoras e leitores. Alzheimer, quebre o silêncio.

Cosette Castro

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