À Queima Roupa
Sofia Carvalho (PSB), candidata a vice-governadora na chapa liderada por Ricardo Cappelli ao GDF
“Minha luta é enraizada nas questões rurais e nas questões de gênero. A qualidade e o preço da comida que chega no mercado é resultante do que está acontecendo na roça. O DF tem muita produção orgânica e, ainda assim, comida sem veneno é quase um artigo de luxo”
Como você avalia a decisão de compor a chapa de Ricardo Cappelli e quais são as principais propostas que pretende defender nessa candidatura?
O DF precisa de um projeto para resgatar a gestão pública dos interesses privados e que garanta a melhoria dos serviços prestados à população. Acredito que o Cappelli personaliza a ousadia e a força que inspira nas pessoas a lembrança de que a política deve ser um instrumento para melhorar a qualidade de vida de todas e todos. Acho que nossa chapa tem maior capacidade de agregar pessoas que se identificam em espectros ideológicos distintos mas sofrem igualmente os problemas atuais da saúde, do transporte, do clima e da insegurança no DF.
E qual é o seu foco?
Minha luta é enraizada nas questões rurais e nas questões de gênero. A qualidade e o preço da comida que chega no mercado é resultante do que está acontecendo na roça. O DF tem muita produção orgânica e, ainda assim, comida sem veneno é quase um artigo de luxo. Eu defendo a ampliação das políticas de aquisição de alimentos da agricultura familiar; uma política robusta de fomento à transição agroecológica; o fortalecimento da assistência técnica e extensão rural pública, gratuita e continuada, e a criação de um ecossistema integrado entre governo e mercados privados para ampliar o escoamento da produção orgânica, beneficiar indústrias que desenvolvam maquinários adaptados à agricultura familiar e que produzam bioinsumos. Já pensou se todas as crianças, em escolas públicas e privadas pudessem crescer se alimentando de comida livre de agrotóxicos? Imagino os restaurantes comunitários, os restaurantes chiques da cidade, os hospitais públicos e privados manipulando ingredientes da agricultura local e orgânica. Essa é (uma das) utopias que inspiram meu trabalho. Mas para isso ser uma realidade, uma cadeia ampla de agentes e serviços precisa ser impulsionada.
E em relação ao meio ambiente?
Defendo uma política de arborização emergencial como estratégia de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Ampliar radicalmente a presença de árvores nas periferias e nos núcleos rurais para cuidar do bem-estar da população. Defendo uma política que dê visibilidade e que promova a redistribuição da sobrecarga que o trabalho do cuidado exige. Em grande maioria, são as mulheres que se responsabilizam pela maior parte do cuidado das crianças, da casa e dos idosos dependentes. A dupla e a tripla jornada de trabalho que exercemos impõe uma desigualdade que afeta a capacidade das mulheres desenvolverem seus potenciais e garantirem uma progressão da qualidade de vida para suas famílias. Essa injustiça só nós conhecemos de perto. Por isso, precisamos colocar o cuidado no debate público e no orçamento.
Você vem de uma trajetória ligada à agricultura agroflorestal. Como pretende levar essa experiência para a política?
Pretendo instrumentalizar a política a serviço da fotossíntese, literalmente (risos). A crise climática evidencia o que nós, que trabalhamos com sistemas agroflorestais já sabíamos: precisamos que a governança do estado estimule urgentemente os sistemas alimentares que ampliam a cobertura arbórea ao mesmo tempo em que produzem comida de qualidade. Décadas atrás, parecia conversa de ambientalista. Hoje, é uma questão de sobrevivência.
Seu pai, Augusto Carvalho, teve uma longa trajetória na política. De que maneira a experiência dele influenciou sua formação?
De maneira determinante. Cresci cercada por uma geração brilhante de pessoas que, junto com meus pais, arriscaram a própria vida se organizando e politizando a sociedade por meio do movimento estudantil, da luta sindical, dos movimentos culturais.
A chapa de vocês, do PSB, decidiu apoiar Leila do Vôlei, do PDT, para o Senado, embora ela esteja na chapa de Leandro Grass. Como foi construída essa decisão e quais são os compromissos que justificam esse apoio?
Esse apoio é fruto de uma questão inequívoca: nós somos do campo progressista e democrático e precisamos eleger no Senado uma bancada qualificada para conter as tentativas de contrariar o espírito democrático no nosso país.
Qual é o principal problema do Distrito Federal que você acredita estar sendo negligenciado no debate eleitoral e que pretende colocar no centro da campanha?
A crise climática e o papel da agricultura associado a ela.
Como mulher e mãe, como você pode contribuir no governo, caso sejam eleitos?
Gerindo políticas e infraestrutura do estado que possam estar articuladas com o governo federal no combate à misoginia, especialmente lidando com a ascensão da violência contra as mulheres e contra as crianças e com a grave propagação de comunidades online de culturas de ódio. Paralelamente, gerar iniciativas de fomento à autonomia financeira das mulheres e às políticas de apoio ao cuidado.
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