ANA MARIA CAMPOS
A investigação da Polícia Federal que levou à decretação da prisão do presidente do BRB Paulo Henrique Costa, como desdobramento da Operação Compliance Zero, indica que foi montada uma frente de corrupção e ocultação de patrimônio.
A PF acredita que a negociação envolveu uma propina de R$ 146,5 milhões para Paulo Henrique, a ser paga pelo banqueiro Daniel Vorcaro, por meio de imóveis de alto padrão no Distrito Federal e em São Paulo.
Paulo Henrique foi preso preventivamente nesta manhã (16), por decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A investigação identificou seis imóveis vinculados ao chamado “cronograma pessoal” de Paulo Henrique: Heritage, Arbórea, One Sixty, Casa Lafer, Ennius Muniz e Valle dos Ipês, com pagamentos já rastreados em montante superior a R$ 74 milhões.
Um dos imóveis, o Heritage Cyrela (foto), no Itaim Bibi, em São Paulo, abriga os apartamentos mais caros do país. Em Brasília, são dois: o Ennis Muniz (foto), no Noroeste, e o Valle dos Ipês, no Jardim Botânico.
Segundo a Polícia Federal, o pagamento total de R$ 146 milhões só não foi concretizado porque Daniel Vorcaro descobriu que havia uma investigação sigilosa aberta para apurar exatamente a negociação da propina com Paulo Henrique por meio da aquisição e repasse de imóveis.
De acordo com a Polícia Federal, o procedimento investigativo foi atuado pelo Ministério Público Federal em 30 de abril de 2025 e logo em seguida, em 10 de maio, Daniel Vorcaro determinou ao seu operador jurídico, Daniel Monteiro, que “travasse tudo” e que não realizasse mais nenhum pagamento e nem prosseguisse com a formalização do registro das transações acertadas com Paulo Henrique.
No parecer favorável à prisão, o Ministério Público destaca indícios de que Paulo Henrique Costa, na condição de então presidente do BRB, foi peça essencial para viabilizar a aquisição das carteiras fraudulentas do Banco Master e, em contrapartida, recebeu vantagem indevida correspondente a seis imóveis de alto padrão em São Paulo e Brasília, avaliados em R$ 146.582.649,50, dos quais R$ 74.604.932,47 já teriam sido efetivamente pagos.
No despacho de decretação da prisão, o ministro André Mendonça ressalta a relação de proximidade entre Paulo Henrique e Vorcaro, com mensagens claras relacionadas às negociações dos imóveis em troca de pressa na aprovação de compra do Master.
“Amigo, Obrigado pela conversa de hoje. A cada passo o caminho está mais claro e estou mais empolgado com o que vamos construir. Além disso, dou muito valor ao alinhamento pessoal. E acho que estamos bem alinhados em relação ao trabalho, visão de mundo e perfil. Estou trabalhando para lançar a operação amanhã ou, no mais tardar, na segunda-feira. O Governador me pediu que preparasse um material para a argumentação dele, porque vamos receber críticas”, afirmou o então presidente do BRB em mensagem interceptada pela PF.
Em seguida Paulo Henrique acrescenta: “Acredito que aquele desenho de CEO da holding financeira e/ou da empresa financeira consolidadora com participação no conselho do BRB e da empresa de private equity vai ser o mais funcional e que gera sinergia entre todas as empresas”.
Em meio à conversa sobre as operações entre BRB e Master, Paulo Henrique engata a questão de imóvel pessoal. “Se o Daniel puder fazer e enviar o contrato, seria ótimo. Conversei com a minha esposa e estaremos em SP na próxima semana. Seria legal mostrar o apartamento para ela. Assim, ela também vai se ambientando”.
A negociação prosperava e Paulo Henrique levava a esposa para visitar os apartamentos luxuosos oferecidos por Daniel Vorcaro.
PAULO HENRIQUE: “Estive no outro hoje de manhã. A esposa ainda está meio cismada. Seria ótimo olhar outro para construir uma referência”.
DANIEL VORCARO: “Por quê?”
PAULO HENRIQUE: “Hoje estava com a região toda fechada. Seria bom dar o parâmetro”.
DANIEL VORCARO: “Ah tá. Esse outro é uma cobertura. Já pensando trazer família.”
PAULO HENRIQUE: “Eu venho na frente mesmo e elas vêm depois. Boa.“
DANIEL VORCARO: “Vale a pena ver”.
PAULO HENRIQUE: “Claro. Qual o empreendimento?”
DANIEL VORCARO: “Outra coisa, quando tiver um tempinho aí final de semana, veja se conseguimos falar. Esta semana estou com um gargalo de 300 mm na quarta, queria bolar contigo o que acha que poderíamos conseguir fazer”.
PAULO HENRIQUE: “Meu foco é nisso nessa semana. Já monto uma estrutura na segunda com a equipe. O que ainda temos de carteira varejo? E aí equilibro com PJ”.
DANIEL VORCARO: “Vou levantar aqui com minha turma. E te volto.”
Após Paulo Henrique ter ficado decepcionado por não ter conseguido visitar um dos apartamentos luxuosos com a corretora designada por Daniel Vorcaro, o dono do Master procura uma solução com a corretora e, ao final diz a ela se referindo ao então presidente do BRB. “Preciso dele feliz [nome da corretora preservado]. Reverte isso aí”.
Em outra troca de mensagens, há fortes indícios de que Paulo Henrique e Daniel Vorcaro ajustaram um valor milionário a título de corrupção e que referido montante precisaria corresponder a um
dado número de imóveis luxuosos.
PAULO HENRIQUE: “Fiz as contas para chegar no valor que combinamos. Dependendo dos valores finais, sairia o Casa Lafer, que está no contrapiso. Apagando algumas mensagens”.
DANIEL VORCARO: “Vc diz casa Leopoldo, né? Cobertura que vc foi. Pq o heritage melhor que o Lafer, não?”
PAULO HENRIQUE: “Esse era enorme. A Cris nos levou no Casa Lafer, um apartamento tipo. Sim. Bem melhor. ”
DANIEL VORCARO: “E vamos ter os delas novos de agora.”
Em outra troca de mensagens, Paulo Henrique cobra de Daniel Vorcaro o avanço em relação aos imóveis que lhe seriam transferidos por intermédio de pessoas jurídicas:
PAULO HENRIQUE: “Amigo, pessoal esperando seu de acordo sobre os imóveis de São Paulo. Pode ajudar?”
DANIEL VORCARO: “Do meu lado dei carta branca. Onde está travado. Pode me falar?”.
PAULO HENRIQUE: “Na equipe do Daniel. Mas disseram que é simples.”
Depois da cobrança pelos imóveis, Paulo Henrique deixa claro que estaria cumprindo sua parte no ajuste ilícito:
PAULO HENRIQUE: “Desculpe dar trabalho. É que estou focado na agenda que combinamos e fico em cima de todos os assuntos até resolver”.
DANIEL VORCARO: “Nada. Isso não é trabalho. Eu sou resolvedor de problemas rsrs”.
PAULO HENRIQUE: “Estou tratando de carteira de outro lado”
A suspeita de que se tratavam de acordos de propina é reforçada pela troca de mensagens entre Daniel Vorcaro e um suposto operador financeiro e jurídico do banqueiro, Daniel Monteiro, que também foi preso nesta manhã (16/04), em São Paulo, por ordem do ministro André Mendonça. Em conversas por WhatsApp, eles tratam dos imóveis de interesse do então presidente do BRB.
DANIEL MONTEIRO: “O Paulo me procurou para dar andamento em estrutura de compra de imóveis para ele. Disse que vc pediu para ele falar comigo a respeito. Devo dar andamento?”
DANIEL VORCARO: “Eu pedi isso anteontem. Pra dar foco nisso. Achei que já estava resolvido”.
DANIEL MONTEIRO: “Ele só me contou agora cedo. Vou pedir os dados dos imóveis a ele e faço hj mesmo.”
Após o avanço da operação de transferência dos imóveis para Paulo Henrique, Daniel Vorcaro envia mensagem de WhatsApp para Daniel Monteiro com o seguinte teor:
DANIEL VORCARO: “Eu preciso assinar e pagar hoje. Os imóveis Paulo”

