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Entre Pontes e Alfândegas, a cultura rompendo barreiras

Escritor Pettinny Nicácio

Por Pettinny Nicácio, escritor brasileiro radicado em Coimbra

Há momentos em que a literatura parece vencer todas as fronteiras. E há momentos em que descobrimos que as fronteiras continuam ali, silenciosas, erguidas, não pela geografia, mas pelas circunstâncias.

Entre os dias 2 e 10 deste mês de junho, a 96ª Feira do livro do livro de Lisboa recebeu uma  delegação  de leitores, escritores e sonhadores que acreditam no poder transformador das palavras. Vindos do Brasil, cerca de trinta escritores participaram da 15ª Viagem às Nascentes da Língua Portuguesa, iniciativa apoiada pelos editores Victor Alegria e Tagore Alegria, numa travessia que ultrapassou o simples deslocamento físico. Não foi apenas uma viagem entre continentes; foi um retorno simbólico às origens de uma língua que, ao longo dos séculos, atravessou oceanos e ganhou novos sotaques, novos ritmos e novas formas de sentir o mundo.

No dia 8, a histórica Universidade de Coimbra, através do seu professor Dr. Ibsen Noronha, acolheu um dos momentos mais significativos da programação. Entre paredes que há séculos guardam o eco de mestres e estudantes, realizou-se um encontro literário marcado pela reflexão sobre a língua portuguesa e seu papel na construção de identidades culturais.

Ali, sob o peso simbólico da história e da tradição, escritores brasileiros e portugueses compartilharam experiências, inquietações e esperanças. O ambiente possuía algo de especial. Talvez fosse a consciência de que todos estavam reunidos por uma herança comum. Talvez fosse a percepção de que a literatura continua sendo uma das formas mais poderosas de aproximação entre povos separados pelo Atlântico.

Entre as falas que marcaram o encontro, destacou-se a do Comendador Vitor Alegria, idealizador da Viagem às Nascentes da Língua Portuguesa. Suas palavras não foram apenas um discurso institucional. Havia nelas a preocupação sincera de quem dedica parte da vida à promoção da cultura e ao fortalecimento dos laços entre Brasil e Portugal.

Visita do grupo de escritores com o professor Dr. Ibsen Noronha.

Ao abordar os desafios da circulação do livro brasileiro em território português, o comendador trouxe à tona uma realidade que poucos leitores conhecem em profundidade. Falou das dificuldades enfrentadas por editoras, autores e distribuidores para fazer chegar ao público português, obras produzidas no Brasil. E apontou um paradoxo que parece desafiar a própria lógica da valorização cultural.

No Brasil, o livro goza de imunidade tributária, sendo reconhecido como instrumento essencial para a educação, a cultura e o desenvolvimento social. Trata-se de um entendimento consolidado ao longo do tempo, fruto da percepção de que taxar o acesso ao conhecimento significa impor obstáculos à formação intelectual da sociedade.

Entretanto, quando atravessa o oceano, o livro brasileiro encontra uma realidade diferente. Custos logísticos, taxas, encargos e procedimentos burocráticos, acabam por encarecer a circulação das obras. O resultado é um caminho mais difícil entre o autor e o leitor, justamente quando o objetivo deveria ser o oposto: ampliar o acesso, incentivar a leitura e fortalecer os vínculos culturais entre nações que compartilham a mesma língua.

Enquanto o comendador falava, era impossível não pensar na ironia dessa situação. A língua portuguesa conseguiu realizar o que muitos impérios jamais alcançaram: unir povos separados por milhares de quilômetros de mar. Contudo, aquilo que a língua aproxima, por vezes a burocracia distancia.

Não se trata apenas de uma questão comercial. O livro é mais do que um produto. Dentro dele viajam memórias, identidades, visões de mundo e experiências humanas. Cada obra que cruza o Atlântico leva consigo um pouco da alma de seu povo. Quando um leitor português abre um romance, uma coletânea de poemas ou um livro de crônicas escrito por um brasileiro, ele não está apenas consumindo literatura. Está dialogando com outra realidade, ampliando horizontes e fortalecendo uma herança comum.

Talvez por isso o encontro em Coimbra tenha sido tão significativo. Em meio às dificuldades apontadas, havia também uma mensagem de esperança. A simples presença daqueles escritores, já representava uma forma de resistência cultural. Cada autor ali reunido era uma ponte viva entre as duas margens do oceano.

A literatura sempre encontrou maneiras de sobreviver aos obstáculos do seu tempo. Sobreviveu a censuras, guerras, perseguições e crises econômicas. Continuou existindo porque sua matéria-prima não é o papel, mas a necessidade humana de contar histórias.

Ao final do encontro, ficou a sensação de que a língua portuguesa continua navegando. Nem sempre em águas tranquilas, é verdade. Mas segue avançando, impulsionada por homens e mulheres que acreditam na força da palavra escrita.

Talvez o maior ensinamento daquela tarde em Coimbra tenha sido justamente este: os livros não deveriam encontrar alfândegas quando carregam cultura. Afinal, a literatura nasce para construir pontes.

E pontes não foram feitas para separar margens.

Foram feitas para uni-las.

brasiliatododia

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  • Meu Caro Confrade e amigo Edirson Vasconcelos. Alegria foi para mim ter dado os meus humildes contributos ao teu Blog, sou muito agradecido pelo Comendador Vitor Alegria ter nos aproximados novamente.. Sinto saudades de nossas tertúlias nas dependências da ANE e de tuas vibrantes narrativas sobre JK e nossa Brasilia de encantos mil. Aproveito para contribuir, se forme-me permitido, enviaste outras crônicas para submissão. Muito Obrigado e um abraço fraterno.

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